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MARKETING | Edição 202 A estatística é conhecida: 1 em cada 5 brasileiros com idade entre 15 e 29 anos não estuda nem trabalha. …

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MARKETING | Edição 202

A estatística é conhecida: 1 em cada 5 brasileiros com idade entre 15 e 29 anos não estuda nem trabalha. Saiba quem são esses jovens e como algumas IES buscam dialogar com esse público

por Antonio Carlos Santomauro

© iStockphoto

Concluir o ensino médio, iniciar um curso superior, entrar no mercado de trabalho. Essa é a trajetória vista como ideal para os jovens em sua transição para a vida adulta. Na prática, contudo, muitas vezes questões socioeconômicas ou mesmo culturais interferem nesse caminho. Basta olhar para a significativa parcela de jovens brasileiros que não dão continuidade aos estudos nem mantêm uma atividade profissional. É o tão comentado grupo “nem-nem”: aqueles que nem estudam nem trabalham. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2013 estavam nessa situação cerca de 20% da população com idade entre 15 e 29 anos. Em termos absolutos, são 10 milhões de pessoas. Dentro desse grupo, 26,3% – minoria, portanto – declararam estar em busca de um emprego.

De que maneira as IES podem dialogar com esse público e motivá-lo a buscar uma vaga em um curso superior? Em primeiro lugar, é preciso saber quem são esses jovens e os motivos pelos quais eles estão fora do sistema de ensino e do mercado de trabalho.

Com base nos dados, é possível traçar alguns perfis típicos dos jovens nem-nem. As mulheres são maioria nesse grupo: 68,8%, dos quais 57% têm pelo menos um filho. Podemos, assim, imaginar a trajetória de uma jovem que, diante de uma gravidez precoce, abandona os estudos e abre mão de projetos de vida. Sem qualificação, ela também não consegue ingressar no mercado de trabalho ou manter uma estabilidade profissional.

Cerca de metade dos jovens nem-nem vive em domicílios cujo rendimento mensal per capita não passa de meio salário mínimo. A relação com nível de renda é clara: só 5,1% desses jovens vivem em lares com rendimento acima de dois salários mínimos por pessoa. Assim, também é comum a figura do jovem que frequenta escolas de baixa qualidade e abandona o banco escolar para trabalhar e complementar a renda da família. Ao perder o emprego, ele não consegue encontrar uma nova vaga de trabalho.

Também se sente despreparado e desorientado para continuar sua formação. Se desistir de buscar trabalho, ele incorpora mais um “nem”: nem estuda, nem trabalha, nem procura emprego.

São jovens que precisam de algum grau de apoio ou de modelos alternativos para retomarem os estudos. Marcos Lemos, diretor executivo acadêmico da Estácio, cita a educação a distância (EAD) como bom exemplo. “Vale notar que a maioria do público da EAD – 61%, no caso da Estácio – é formada por mulheres, que predominam entre os nem-nem.” É uma modalidade que atrai quem não pode cumprir os horários tradicionais ou tem dificuldades de locomoção. Divulgar e facilitar o acesso a informações sobre essas modalidades, além de bolsas e financiamento, são ações que podem despertar o interesse desses jovens.

Wilson Diniz, diretor de marketing da Cruzeiro do Sul Educacional, conta que a instituição busca estabelecer ações de relacionamento não apenas com escolas de ensino médio, cursinhos e empresas, mas também com os espaços destinados à Educação de Jovens e Adultos (EJA), voltados a quem deseja concluir os ensinos fundamental e médio. São locais em que pode estar uma fatia do público a princípio integrante do grupo nem-nem, mas que agora busca retomar os estudos. “Tentamos mostrar que, após esse primeiro passo, eles podem seguir em frente e que o ensino superior pode agregar muito valor à sua trajetória”, afirma Diniz.

Questões culturais

Além dos aspectos socioeconômicos, analistas também apontam que questões culturais e ligadas ao comportamento podem contribuir para que um jovem abandone a rota tradicional e se torne nem-nem.  Trata-se de uma conta composta por muitas carências – de informação, de oportunidades, de dinheiro e de motivação. O psicólogo Marcelo Quirino aponta fatores como pais pouco participativos e falta de referências, que geram “uma depressão sem barulho”, na qual o jovem se vê imerso em uma vida de tédio, sem objetivos.

Em famílias de maior renda, muitas vezes o jovem “entediado” ou em dúvida sobre o futuro pode se dar ao luxo de ficar inativo por algum tempo: ele não se sente pressionado a entrar no mercado de trabalho. Em famílias de baixa renda, o quadro é mais dramático: à medida que o jovem precisa complementar os rendimentos por meio de empregos instáveis de baixa qualificação, ele tem menor acesso a meios que o ajudem a refletir sobre seus potenciais e sua eventual desmotivação.

Quirino cita, como alternativas para um possível diálogo entre IES e esses jovens refratários ao ensino, o desenvolvimento de políticas inclusivas para o acesso às vagas, programas de apoio psicológico e iniciativas fundamentadas em arte e expressividade. “A melhor forma de integrar esses jovens à instituição é oferecer espaço e acesso ao campus, algo que pode ser realizado por meio de programas artísticos com cunho de extensão ou de programas sociais.”

Luciana Palhete, coordenadora de marketing do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal), também detecta uma falta de estímulo para que boa parte dos jovens trilhe a rota até o curso superior. “Percebo esse fenômeno hoje associado também a aspectos comportamentais, ao fato de as famílias estarem sem tempo de acompanhar mais de perto seus filhos, além do atual contexto do país.” Luciana também diz ser importante oferecer aos jovens meios de descobrir seus potenciais – por exemplo, via orientação vocacional. “Vejo muitos jovens indecisos, receosos de não fazerem escolhas corretas.” A Unisal tem um projeto, chamado Decida-se, voltado justamente para alunos de ensino médio, com um forte viés de orientação profissional. Por meio de visitas e conversas com coordenadores e professores, os jovens podem tirar dúvidas sobre as diferentes áreas e o dia a dia profissional.

A estrutura e o formato de ensino tanto na Educação Básica quanto no nível superior também podem contribuir para o crescimento do grupo nem-nem, avalia Marcos Lemos. “Em linhas gerais, é um ensino ainda parecido com o que era oferecido aos nossos pais e avós.” Para ele, é necessário que as IES agreguem novos atrativos. Lemos cita um programa de apoio ao empreendedorismo lançado no ano passado pela Estácio: ele inclui, entre outros itens, editais para a seleção de projetos de alunos e egressos da universidade. As iniciativas selecionadas participam de um programa de cinco meses, durante o qual recebem informações e suporte. A instituição selecionou dez projetos no edital do ano passado e 29 no de 2015. Segundo Lemos, instituições como Stanford e o MIT, nos EUA, hoje investem pesado nesse tipo de iniciativa, mais alinhada à visão pragmática do jovem da atualidade.

Impactos

Luciana e Wilson Diniz citam a baixa qualidade da Educação Básica como outro elemento que contribui para o desestímulo. Com aulas e escolas pouco atrativas e insuficiências acumuladas ao longo de anos, uma parcela dos jovens desiste da vida acadêmica muito antes de pensar em cursar uma faculdade. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) de 2014 apontam que 7,2% dos alunos abandonam o ensino médio – no primeiro ano da etapa, são 9,5%. “Já se começa a observar a redução nos índices de concluintes do ensino médio em algumas praças nas quais atuamos, especialmente nas grandes metrópoles, como São Paulo e Campinas”, diz Luciana, da Unisal.

Wilson Diniz observa que, devido à grande e persistente demanda reprimida por ensino superior no Brasil, as IES ainda não sentem o impacto de boa parte dos jovens estarem ao mesmo tempo fora dos estudos e do mercado de trabalho. Mas ele recomenda atenção, especialmente à maneira como essa situação se expande. “A população de nem-nem impacta todos os setores do país, e a resolução desse problema depende de iniciativas como políticas públicas e melhoria nos ensinos fundamental e médio”, destaca.

Segundo o estudo Desafios à trajetória profissional dos jovens brasileiros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o grupo de jovens fora da escola e que não fazem parte da população economicamente ativa (não estão ocupados nem procuram emprego) não evoluiu de maneira linear nas últimas décadas. Entre 1992 e 2009, essa fatia passou de 20% para 13,5% do total de brasileiros com idade entre 15 e 29 anos. Nos anos seguintes, o grupo passou a crescer principalmente na faixa a partir de 18 anos, justamente o público que, pelo critério etário, já poderia estar no ensino superior.

Enid Rocha Andrade da Silva, pesquisadora do Ipea, aponta que quem tem entre 15 e 17 anos vive ainda uma fase de transição, em que é mais natural ter dúvidas sobre o futuro profissional. A partir dos 18 anos, ser nem-nem é mais preocupante. “Quem tem mais de 18 anos e pouco tempo de estudo geralmente consegue apenas empregos com baixa remuneração e alta rotatividade. Assim, cria-se um círculo vicioso de afastamento do ensino e desestímulo para o mercado de trabalho.”

O fenômeno não é exclusividade brasileira. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a proporção de jovens nem-nem cresceu em 30 de 40 países analisados entre 2007 e 2012. Na lista elaborada pela organização, o Brasil ocupa a 10ª posição entre os países com maior proporção de jovens nessa situação. À nossa frente estão países como Turquia (39%), México (25%), Espanha (24%) e Itália (23,5%).

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