Responsabilidade sim, culpa não

Transferir a terceiros os problemas da educação é uma auto-sabotagem que condena os professores à irrelevância

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Esta coluna marca o meu primeiro aniversário neste espaço. E confesso que o diálogo não tem sido muito produtivo. Meu ponto de partida é simples: tentar trazer mais luz e menos calor ao debate sobre a educação, de forma objetiva. Com números, dados, informação e pouco achismo, opinião ou ideologia.

Não sei se as respostas que colho no meu e-mail são representativas do grupo de leitores e se esse é representativo do professorado em geral, mas a maioria dos comentários parece seguir um mesmo padrão. A cada tentativa de revelar uma mazela verdadeira de nosso sistema educacional e desmontar algum mito enraizado em nossas consciências, vem a resposta-reflexo: “ahhhnnn, quer dizer que os professores, que já são acusados de tantos males, agora também serão culpados por mais isso?!”.

Tenho baixa tolerância para essa “coitadização”. Sempre que ouço alguém dizer que um salário de, sei lá, R$ 800 é “aviltante” ou “indigno”, me ocorre perguntar ao reclamante se ele já imaginou como é a vida da maioria da população. E me ocorre também perguntar por que ele segue em uma profissão que paga mal, e por que milhares de pessoas continuam ingressando nessa carreira. Seriam masoquistas? Ou optam, conscientemente, por uma carreira que oferece salário razoável, compatível com o que aquela pessoa conseguiria obter em outra profissão? Por uma carreira nobre, com estabilidade no emprego, férias longas e de grande responsabilidade social? Se for esse o caso, não cabe o discurso choraminguento e auto-piedoso.

Falemos como adultos, interessados em construir um futuro melhor. O termo “culpa” não se aplica. É uma emoção negativa e retroativa, olha pro passado. Os professores não têm “culpa” pelo fracasso educacional brasileiro, mas sim responsabilidade pelo atual estado de coisas. Certamente não são os únicos responsáveis, mas certamente são os principais. O grande problema de hoje não é colocar aluno na sala de aula ou construir mais escolas. Todas essas carências do passado foram, em geral, equacionadas. O problema está naquilo que o professor faz em sala de aula. Aí está o cerne das deficiências, e estará também o fulcro da evolução. Transferir a terceiros – governos, pais, alunos, FMI, mundo cruel – os problemas da educação é uma auto-sabotagem. Se a responsabilidade pelos problemas está com esses atores, a responsabilidade pelas vitórias também há de estar. Esse papo condena os professores à irrelevância.

Os professores estão desprestigiados porque não cumprem com o mandato que a sociedade lhes outorgou: educar seus jovens, preparar as novas gerações. Enquanto continuarem se escondendo de seus fracassos, receberão não apenas o descaso da sociedade, mas o seu desprezo. A partir do momento em que os professores e suas lideranças pararem de enxergar em cada estatística um complô e em cada problema uma acusação e disserem “sim, a educação está péssima, nossa categoria não sabe ensinar e precisamos do engajamento de todos, pois o problema é complexo e requer coragem e visão”, talvez não brote do dia para a noite a solução definitiva, mas terá sido o seu começo.



Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico com especialização em economia da educação

E-mail:



desembucha@uol.com.br


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