Resistência à mudança?

Notas sobre a guerra presente dentro das escolas

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De todos os lados me chegam notícias de conflitos, como se as escolas fossem um grande campo de batalha. Recebo mensagens de desânimo, assinadas por desistentes. Porém, outras são de impaciência, assinadas por resilientes:

Caro José, esta necessidade de libertação está na raiz do empenho que emprego por um ensino e uma educação que não foram as minhas. Mas isto parece um "surf" em mar alto por ondas que já traziam destino. Sou eu que não tenho grandes expectativas quanto ao envolvimento dos professores e vejo mais o dedo de Deus e feliz coincidência de rotas, do que uma séria apropriação da pedagogia… continuo a experimentar o "surf" mas, agora, em mar de tubarões com barbatana à tona d’água. E, pela dimensão dos ditos, temo que já nem a prancha se salve. Vejo-me a braços com um dono de colégio em que não vejo outro empenho que não seja continuar a mandar e obter lucros. E com uma coordenadora que reforçou a burocracia e, assim, se tornou insubstituível ao primeiro, um tenebroso e vingativo prócere. Fiquei fora de mim, quando ela quis que eu alinhasse com ela, numa conversa estapafúrdia, para "queimar" umas "traidoras que alimentam as vontades dos pais…" Enfim, o que ela queria era guerra! Queimei ali o empenho do biltre!

"
O que ela queria era guerra

" – escreveu o meu indignado amigo. E será mesmo guerra? Eu sou amante da paz, mas devo reconhecer que, desde que existe escola, existe uma desgastante guerra surda entre o velho enquistado e o novo por alguns desejado.

Tentei aquietar o subscritor da carta, mostrando-lhe que, apesar de serem só duas as professoras que querem mudar, elas são a maioria numa escola de cerca de cem professores.

O conflito entre práticas conservadoras e novas práticas é velho de séculos. Em meados do século 20, um ilustre professor denunciava práticas que considerava nocivas. Insurgia-se contra o comportamento de docentes que evitavam os problemas que deveriam abordar, mas cujo tratamento imparcial sabiam que poderia "suscitar desagrado em certos círculos influentes", que mudavam de ideias e convicções consoante julgassem conveniente, que se opunham "à permanência na sua escola, de elementos de incontroversa competência e dedicação, com receio de confrontos, para a tranquilidade do seu ramerrão."

Heráclito dizia que é na mudança que as coisas repousam. Porém, em muitas escolas, o conceito de "resistência à mudança" – tão caro às ciências da educação – confunde-se com preguiça e contribui para legitimar a mediocridade. Grassa nessas escolas uma praga de pedagogos de gabinete, que usam o legalismo no lugar da lei, que nunca leram ou que reinterpretam a lei de modo obtuso, no intuito de que tudo fique igual ao que era antes. E, para que continue a parecer necessário o desempenho do cargo que ocupam, para que pareçam úteis, perseguem e caluniam todo e qualquer professor que ouse interpelar o instituído, questionar os burocratas, ou – pior ainda! – manifestar ideias diferentes de quem manda na escola, pondo em causa feudos e mandarinatos.

Ainda haverá quem se espante com o lamentável estado em que o ensino (e o país) se encontra?


José Pacheco


Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



josepacheco@editorasegmento.com.br

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