Religiões perigosas

A curiosidade religiosa está no campo geral de nossas buscas. Mais perigoso do que estudar as religiões é afastar esse estudo dos nossos currículos. O fanatismo costuma nascer e crescer à sombra da ignorância; leia coluna de Gabriel Perissé

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Imagem: Shutterstock

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O verbo latino periri (“tentar”, “arriscar”, “provar”) está na história etimológica de duas palavras inesperadas: “experiência” e “perícia”. E há ainda outras duas, no meio de campo: a palavra “perigo”, pois sempre há um risco na hora de adquirir experiência, e a palavra “perito”, ou seja, aquele que conhece e está habilitado. O experiente é o experto (com “x”), aquele que é traquejado (e até… calejado), é o especialista, e, portanto, aquele que podemos chamar de mestre.

De acordo com esta breve viagem linguística, legítimo mestre e autêntica mestra são aquelas pessoas que enfrentaram o risco do aprendizado, descobrindo o conhecimento por dentro, e capacitando-se, em última análise, a conduzir seus alunos em experiências semelhantes.

A leitura é sempre uma experiência perigosa. É por isso que o esforço para proibir, censurar, ou, de modo mais sutil, a prática de “esquecer” determinados autores, “adiar” a publicação de certas obras, inviabilizar editoras idealistas, são típicas reações de quem, no poder, teme o poder maior dos livros, das metáforas e das ideias.

Divinas leituras
Há algo de sagrado em todas as leituras. Mas algumas leituras vão mais longe nesta direção, e trazem, sem meias palavras, o próprio sagrado para o nosso campo de visão.

A Divina comédia é exemplar, um clássico inevitável. Foi escrita num tempo em que todo mundo tinha (ou imaginava ter) visões, como afirmou quase em tom de brincadeira o crítico e poeta T. S. Eliot. E não se conseguirá atravessar os caminhos do inferno e os círculos do purgatório, em busca de uma intemporal temporada no paraíso, sem a compreensão do religioso e do teológico.

Seria leitura insuficiente concentrar-se apenas nas estratégias poéticas que Dante Alighieri emprega ou perceber unicamente os vínculos da obra com as circunstâncias políticas, sociais e culturais da época. Isso e outras dimensões conversam intensamente com a motivação religiosa profunda. Dante (e com ele todos os seus personagens e leitores) acreditava na palavra e no Verbo.

Perto de nós, Grande sertão: veredas está carregado de perigosa atração pela transcendência. Riobaldo, teólogo dos Gerais, bebe em todas as religiões, briga com Deus e com o diabo, respira o mistério:

Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra.

A vida em sua forma de ser inteligente lida sempre com a periculosidade. Ler é tão perigoso quanto viver. A experiência inteligente (intus + legere, resultando no “inteligir”, “ler por dentro”) predispõe para surpresas, abrindo-nos os olhos para o milagre que ocorre no meio das coisas concretas. Aliás, a palavra “milagre” (em latim, miraculum) significa o que é admirável, o que nos faz olhar, mirar e admirar melhor, tomar consciência. E é de novo Riobaldo a refletir em seu horizonte de fé:

Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho — assim é o milagre.

A anatomia da fé
Certa vez, o escritor e novelista Mario Prata disse que, se criasse uma universidade para escritores (na qual seria o reitor e o único aluno…), definiria como necessárias algumas disciplinas voltadas para algo além do puro ato de compor textos. Anatomia, por exemplo, seria uma delas. Escritores precisam conhecer melhor o corpo humano para que em suas obras este corpo surja e atue de modo verossímil.

Coisa semelhante podemos pensar com relação à formação dos leitores. Quanto ao tema específico deste artigo, seria de se imaginar que nós, leitores, necessitamos conhecer o corpo da fé, sua estrutura, suas propriedades, para interpretarmos melhor textos como este, retirado da obra Doutor Fausto, de Thomas Mann, trecho em que o demônio oferece ao protagonista valiosas informações acerca do inferno:

Tua curiosidade é pueril e indiscreta. Antecipo isso, mas percebo muito claramente, meu caro amigo, o que se esconde atrás de tua pergunta. Tencionas interrogar-me para que eu te assuste, assuste com relação ao Inferno. Pois, no teu íntimo, oculta-se a ideia do retorno, da redenção, daquilo que se chama de salvação da alma, do retrocesso em face da promissão, e pretendes conseguir a attritio cordis, a angústia do coração diante do que lá te aguarda.

A curiosidade religiosa está incluída no campo geral de nossas buscas. Não é uma curiosidade pueril e inútil. Em outras palavras, vale a pena cultivar o ensino religioso como diálogo a respeito das ideias que circulam em torno de questões ligadas aos textos sagrados, aos dogmas, aos ritos e às dúvidas sobre o que nos transcende.

Muito mais perigoso do que estudar as religiões é afastar esse estudo fundamental da sala de aula, exorcizando-o dos nossos currículos. O fanatismo, seja ele apoiado em crenças ou descrenças, costuma nascer e crescer à sombra da ignorância.

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