Regionalizar é preciso?

Projeto de lei debate a produção local de livros didáticos

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Em 2001, uma questão do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) cobrava das crianças análise da expressão “uai”. Alunos de Minas Gerais a responderam sem dificuldade; muitos estudantes do Pará deixaram o espaço em branco. “Se fosse para explicar o termo ‘paidégua’, provavelmente a situação se inverteria”, explica Rosa Cunha, secretária de Educação do Pará. “Os alunos daqui não usam o termo ‘uai’, não sabem o que significa.” ‘Paidégua’, por outro lado, é adjetivo comum entre paraenses para se referir a coisas muito boas.

O exemplo da questão do Saeb destaca a tendência a se considerar o Sudeste como padrão nacional, apesar das diferenças culturais, e ilustra discussão que volta a ser debatida: os livros didáticos devem ser adaptados às regiões em que serão adotados? Projeto de lei sobre a regionalização dos livros tramita na Câmara dos Deputados desde março deste ano. O autor, deputado Mário Heringer (PDT-MG), explica que a intenção é fazer com que as crianças “conheçam suas raízes”.

O projeto tem o apoio dos secretários de Educação das regiões Norte e Nordeste, interessados em possibilitar que a cultura local seja trabalhada em sala de aula, e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), defensora da idéia de que a regionalização do material incentivaria a produção intelectual nos estados.

Em janeiro, os secretários e a SBPC entregaram um documento ao ministro da Educação, Tarso Genro, que pedia atenção aos termos contidos nos livros. Os educadores apontaram exemplos de como obras que fazem parte do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) trazem expressões que não correspondem ao dia-a-dia das crianças: “amarelinha” e “bolinha de gude” identificavam brincadeiras que, na região Norte, são chamadas, respectivamente, de “macaca” e “peteca”.

A fragmentação do conteúdo dos materiais didáticos já era discutida no final da década de 70. “Chegamos à conclusão de que era uma bobagem e a questão foi encerrada”, lembra a educadora Marta Grosbaum, editora do projeto
Terra Paulista – Jovens

, material paradidático de resgate da cultura popular utilizado em São Paulo.

Especialistas que defendem a regionalização pensam que o debate prossegue. Rosa afirma que as crianças, principalmente as mais novas, ainda não têm capacidade de abstração suficiente para trabalhar com conceitos que não conhecem. “Às vezes, os exemplos das lições e dos questionários são mais complicados de explicar do que a própria aula.” Ela cita o exemplo de um livro em que o texto falava em comprar uma máquina de tricô que faz cachecóis e pulôveres. “Numa região onde as estações do ano são duas, a de sol e a de chuva, cachecóis e pulôveres não são encontrados facilmente.”

A educadora Lídia Izecson, editora do
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, acredita que regionalizar os livros pode ser perigoso. “Uma criança que mora na zona rural pode nunca ter visto um semáforo, mas isso não significa que ela não tenha que saber o que é”, diz. (Semáforo, em certas regiões do país, é conhecido também como “farol” e “sinal”.) A professora Elba Siqueira de Sá Barreto, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, concorda. “Os livros podem trazer informações mais específicas das regiões, mas não significa que tenham de ser feitos focados somente nos estados”, afirma.

O presidente da SBPC, Enio Candotti, teme a falta de identificação dos alunos com o material que utilizam. “O estudante não vê a realidade dele no livro, e isso pode frustrá-lo”, pondera. O Ministério da Educação (MEC) argumenta que livros com conteúdo regionalizado podem ser inscritos no PNLD, mas que poucos o fazem e alguns não têm qualidade didática suficiente para integrarem a lista.

A coordenadora geral de estudos e avaliação de material do MEC, Jane Cristina da Silva, afirma que a política do PNLD não é contra obras com foco na realidade das crianças do Sul, do Nordeste ou do Centro-Oeste, mas não existem, segundo ela, muitas publicações que trazem esse conteúdo. “Diversos livros não são aprovados simplesmente porque não têm qualidade para serem utilizados”, diz. “As inscrições para avaliação de livros didáticos estão abertas, e quem escolhe o livro com que vai trabalhar é o professor.”

Candotti propõe que os próprios professores dos estados sejam incentivados a produzir material didático em parceria com universidades. “Isso impulsionaria a pesquisa científica nesses locais”, afirma. A descentralização dos parques gráficos é apontada por Elba como uma das possíveis alternativas. “As editoras se concentram no sudeste, daí a tendência a padronizar desse modo”, explica. Heringer aposta na improvisação. “Toda cidade tem uma gráfica, os livros podem ser impressos em qualquer lugar. O MEC tem um alcance nacional e a fiscalização da qualidade seria possível.”




Reportagem: Jéssika Torrezan e Lígia Ligabue (Agência Repórter Social)




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