Refugiados no Brasil têm curso gratuito de português

Imigrantes trocam experiências de vida durante as aulas

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Carmen Guerreiro


 


“Deixei meu país para salvar minha vida”. O caso de Baimba Conteh, 27 anos, de Serra Leoa, é o mesmo de aproximadamente 3 mil refugiados e solicitantes de asilo no Brasil. Muitos chegam no país por escolha, e outros embarcam clandestinamente em navios sem saber seu destino. Grande parte dos solicitantes são homens com idade entre 20 e 30 anos, que vêm de países da África, e o restante é oriundo da América Latina (principalmente Colômbia), Oriente Médio e Ásia. O motivo da maioria, porém, é comum: fugir de territórios em conflito e de perseguições, situações em que estão ameaçados de morte.


 


Um dos maiores desafios de adaptação no Brasil é o aprendizado da língua portuguesa. Os refugiados chegam sozinhos, sem dinheiro, e sem compreender ou falar o idioma nacional, a não ser quando vêm de países de língua oficial portuguesa. A Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, organização não-governamental (ONG) ligada ao Alto Comissariado das Nações Unidas (ACNUR), concentra a assistência aos solicitantes de asilo no país. Eles chegam, na maioria dos casos, por indicação, e outras vezes são encaminhados pela Polícia Federal e por entidades de direitos humanos.








 Adriana Vichi






 

Por meio de parcerias, a Cáritas oferece aos refugiados assistência jurídica (para apresentação do pedido de refúgio ao governo), moradia, alimentação e saúde, acompanhamento psicológico, atendimento psiquiátrico, programas de proteção e integração e, principalmente, o ensino da língua portuguesa (lecionado por voluntários da Cáritas e pelo Sesc, em parceria com o Senac São Paulo).


 


O idioma é instrumento essencial para inserção dos refugiados na sociedade, não só para a comunicação e convívio no país, mas também para aprender a cultura brasileira. “Para eles não é fácil o aprendizado, é difícil conviver com gente totalmente estranha,” diz Rosângela Portela, professora de português do Sesc Carmo. A instituição comemora em 2005 dez anos de convênio com a Cáritas/ACNUR, com a média de 80 refugiados e solicitantes de asilo atendidos por mês.


 


O curso do Sesc procura inserir os alunos em uma nova realidade social, e por isso enfatiza atividades culturais, como dança, música e história. A divisão do conteúdo é feita em dois módulos. O primeiro é dedicado a alunos alfabetizados, mas que não conhecem o português; o segundo é uma continuação da etapa inicial, para o aperfeiçoamento oral, escrito e verbal, tanto na fala quanto na compreensão da língua.


 


De acordo com Denise Orlandi Collus, assistente social do Sesc, as aulas incentivam a troca de experiências de vida e a reflexão social sobre novas e antigas vivências. “O curso de português tem a dupla função de ensinar o idioma e esclarecer questões de convivência social e cultural, ou seja, o professor transforma questões trazidas pelos alunos em material essencial para o processo de ensino-aprendizagem,” explica ela.


 


Os refugiados que estudam português no Sesc também têm acesso a refeições a baixo custo (R$ 1,96) no restaurante da unidade, atividades culturais, recreativas e esportivas, e internet livre e gratuita, para troca de mensagens, acompanhamento de notícias sobre os países de origem, informações sobre emprego e legislação, passatempos etc.


 


Aprender o português e conviver em uma nova sociedade não é nada fácil, segundo Rosângela. Uma vez que os solicitantes consigam provar juridicamente sua condição de refugiados, a Cáritas fornece o registro do estrangeiro (RME), CPF e carteira de trabalho. Porém, os imigrantes não têm como provar sua escolaridade no Brasil, e nem sempre se adequam à língua nacional e aos costumes. Malilo Lolimolu, por exemplo, é analfabeto, e por isso tem uma grande dificuldade no aprendizado do português e faz reforço na Cáritas. No dia da prova, o aluno fugiu e só realizou o exame posteriormente, com a atenção especial da professora.


 


Dos 3 mil refugiados e solicitantes de asilo no Brasil, 2 mil concentram-se no município de São Paulo (SP). No país, esses imigrantes têm os mesmos direitos de todo o cidadão brasileiro, com a exceção de que não podem votar. Segundo a Cáritas, depois do acolhimento oferecido pela entidade, os asilados, já com sua situação regularizada, ficam na maior parte das vezes no Brasil e mantêm contato com a ONG para renovações de documentos e eventuais consultas.


 


Mais informações sobre o curso de português para refugiados do Sesc pelos telefones (11) 3105-9121 ou (11) 3107-0306. Para mais informações sobre a Cáritas, acesse o site




www.caritasbrasileira.org



, ou pelos telefones (11) 3241-3229 e (11) 3115-2674.


(Colaborou Rodrigo Martins)

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