Refletir é crescer

Escritor português ganhador do prêmio Nobel de literatura fala com exclusividade sobre sua experiência escolar e os dilemas do ensino atual

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Carolina Costa e Faoze Chibli

O que esse português tem a dizer sobre educação interessa tanto quanto qualquer opinião sua. José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, dia 16 de novembro de 1922, embora o registro oficial mencione o dia 18. Seus pais mudaram-se para Lisboa quando ele ainda não fizera 3 anos de idade e lá viveu até o princípio da idade madura. Foi serralheiro, desenhista, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor e jornalista. Publicou seu primeiro romance em 1947, mas apenas desde 1976 vive exclusivamente do trabalho literário. Uma tardia e frutífera carreira presenteou os falantes de português com o único prêmio Nobel concedido a um escritor dessa língua. Quando do lançamento de
O Evangelho Segundo Jesus Cristo

, a celeuma causada em Portugal impediu o já consagrado escritor de participar de um grande prêmio em seu próprio país. Isso levou Saramago a partir com a esposa em auto-exílio para uma minúscula ilha canária na Espanha, onde mora. No Brasil para um seminário de educação organizado pela editora Moderna, o escritor conversou com exclusividade com
Educação

. Aos 80 anos, Saramago espanta pela lucidez: “A única prioridade absoluta, que deveria estar na mente de todos nós, é simplesmente esta: o ser humano. Marte não importa nada.”




Revista Educação – O senhor era bom aluno?






José Saramago –

Na instituição primária, eu fui muito bom aluno. Em Portugal, aquilo que se chamava instituição primária tinha quatro anos. Eu recordo de ter feito o terceiro e o quarto num só ano. Portanto, era bom aluno e aprendia bem. Quando terminei a instituição primária, fui para o liceu. Fui bom aluno no primeiro ano, menos bom no segundo. Mas também isso não teve futuro, porque minha família chegou à conclusão de que não tinha meios para que eu continuasse o curso inicial, que era de sete anos. Passei então para o curso técnico, que poderia ser de serralheria mecânica ou civil. Escolhi – ou alguém escolheu por mim, já não posso recordar-me – o curso de serralheria mecânica. Terminei o curso com 17 anos.





Trabalhou como serralheiro?




Cheguei a trabalhar durante um ano, ou coisa que valha, numa oficina de automóveis. Era a oficina de uma instituição dos hospitais civis. Carros importantes tinham de ter essa oficina para mantê-los. Durante esse tempo, eu vivi com meu próprio macacão azul, sem luvas, desmontando motores, substituindo válvulas, remendando uma roda.




Já pensava em escrever?




Não. Não, mas tinha lido muito. A essa altura, com 18 anos, eu tinha lido muitíssimo. Em casa não havia livros. Meus primeiros livros, comprei-os aos 19 anos.




Como surgiu o estímulo para ler?




E por que que tem de haver um estímulo? Por que que nós não podemos ter de nós próprios alguma coisa que nos leva a fazer isto ou aquilo?




Uma curiosidade nata?




Não sei se se pode chamar curiosidade. Algo existe aí, uma coisa chamada livro. E eu não sei o que é e vou saber. Claro que eu não estou a dizer que não são necessários os estímulos ou que não haja alguma curiosidade, nata ou inata. Nós somos diferentes uns dos outros, não só porque um tem a cara assim e o outro tem a cara assado. Dentro, cada um de nós é um pequeno universo. Enfim, somos como pequenas ilhas, que nos comunicamos uns com os outros porque falamos, por amizade ou amor. Meu pai sabia ler e escrever, mas nunca foi leitor. Minha mãe, nem isso – nunca aprendeu a ler. E quer dizer que sai um filho que aos 15, 16 anos ia ler nas bibliotecas públicas à noite. Pode parecer um pouco surpreendente, mas é assim.




O que o senhor buscava na época?




Não estava buscando nada de concreto. Ter 15 ou 16 anos em 1935 não é a mesma coisa que ter 15 ou 16 anos agora. A vida era muito mais modesta, tudo era muito mais discreto. Não havia televisão, não havia discotecas, não havia nada. A única coisa que havia, para quem quisesse entrar por aí, era a leitura.




Mas não havia um apelo muito grande do mercado de trabalho?




Sim, mas nesse particular nunca fui condicionado por essas urgências. Nós éramos pobres. Nessa altura, em Lisboa, já não éramos tão pobres. Também não éramos ricos nem éramos remediados. Vivia-se em uma casa, um pequeno apartamento, com uma cozinha, um quarto e aquilo que nós chamamos “quarto de banho”. Não havia banheira, aquecia-se a água em panelas grandes. Isso era assim em Lisboa, em 1940. O mundo mudou d’outra maneira. Tudo está mais próximo. Não é que aquilo que nós tivéssemos então estivesse longe, o que acontecia é que eram poucas as coisas. Rádio era praticamente uma coisa sem importância nenhuma, a televisão não havia, as boates eram os adultos que podiam pagar.




O senhor brincava na rua?




A rua era o espaço tranqüilo. Havia uma frase que era clássica: “Mãe, posso ir pra rua?” Minha mãe dizia “sim, mas tem cuidado com os carros”. Carros estes que era um de vez em quando. Hoje, quem é que pode brincar na rua? Nem pensar.




E a educação da escola moderna?




Há um problema que não se conseguiu resolver que é a massificação do ensino. A escola abriu-se. Não é que a escola de então fosse elitista, não era isso. Nós chamávamos de escola de câmara municipal. O sistema era gerido pela municipalidade. Então, eram escolas muito simples, sem nada de sofisticação, se ensinava a ler, a escrever e a contar. A população era menor – Lisboa, naquela altura, teria 500 mil habitantes ou talvez menos. A pressão daquilo que poderia ser a população escolar era muito menor. Havia muitas crianças que não iam à escola, os pais não queriam, punham a trabalhar muito cedo. Agora, o tempo mudou, o sistema abriu-se de uma maneira extraordinária, mas não se resolveu o problema da massificação. A escola não conseguiu, em nenhum país do mundo, encontrar as soluções para a massificação do ensino, para a afluência em massa. E aí, aulas com 80, 90 alunos, tudo isso, é completamente impossível. Agora, uma coisa é certa: não sei se era a atenção dada ao aluno, ou porque éramos menos, a escola fazia com que se aprendesse melhor, mais.




Como no seu caso pessoal?




Eu, na segunda classe, já não fazia erros de ortografia; agora, fazem-se erros de ortografia não elucidados. Uma coisa que eu aprendi quando era obrário, posso ter esquecido muita coisa, mas uma delas eu aprendi: que as ferramentas têm que estar limpas e em bom estado. Um obrário que não cuida das suas ferramentas não merece nenhuma consideração. A língua é uma ferramenta, a mais extraordinária de todas, porque é um instrumento, uma ferramenta de comunicação. Se não a temos limpa e em bom estado, se a tratamos mal, como se faz, o que estamos a fazer? Ninguém tem o direito de fazer um erro de ortografia. “Ah, mas não tem importância.” Tem, porque o erro que se pratica e que não se corrige é um erro que se repetirá e que acabará por fazer parte integrante da própria pessoa. Como não lhe importa nada escrever essa palavra mal, torna a escrevê-la mal. E, no fundo, dá tanto trabalho a fazer as coisas bem, como a fazer as coisas mal.




Mas o senhor não aprendeu muito mais sobre a língua nos livros?




Sim, mas na literatura não se aprende gramática. Aprende-se outra coisa. Nessa leitura, entra de uma forma que não é consciente por parte de quem está a ler, sobretudo tratando-se do jovem. A frase parece equilibrada ou, pelo menos, ele acha que sim, se lhe perguntarem. Se não lhe perguntarem, provavelmente nem pensa nisso. Mas ele não sabe que há ali um sujeito e um predicado e um complemento direto e um indireto e um complemento circunstancial de lugar e tudo isso. Pode não saber nada disso, só sabe que aquilo está bem feito. A escola vai dizer por que que isso está bem feito. Agora, se começarmos a dizer que não vale a pena, a gente aprende a comunicar-se e tudo mais e a transmitir erros uns aos outros. Compartilhamos os erros em lugar de compartilhar aquilo que está certo.




Educação tem de ter um fim ou pode ser um meio em si?




O eterno estudante é aquele que se limitaria, durante toda sua vida, a estudar sem um objetivo e sem pensar que aquilo tem alguma utilidade prática. Não vejo que isto tenha sentido. Pode acontecer, realmente, que há alguém que goste tanto de estudar, mas também só o poderá fazer se tiver meios próprios para dedicar sua vida ao estudo e não se preocupar com coisa nenhuma mais. Agora, o que há é aquilo que nós chamamos o mercado de trabalho, que hoje se tornou complexo, de uma maneira completamente imprevisível. Em 1930 ou 1940 mais ou menos, as coisas estavam definidas. O filho normalmente ia empregar-se na mesma coisa em que o pai estava empregado, quando não era um negócio familiar que o filho ia continuar. Tudo estava mais ou menos traçado – e com essa diferença fundamental, que quando se conseguia um emprego, em geral, se a pessoa não era demasiado ambiciosa, empregava-se para toda vida. E ficava ali. Tudo isso é passado. Então, a escola aí, o que é que faz? A sociedade está de acordo que há um conjunto determinado de saberes, que têm de ser comunicados às gerações que vão aparecer. Isso não é automático, depende de uma quantidade de fatores. E um deles é o mercado de trabalho. Nós, hoje, quando examinamos o currículo de uma universidade, sobretudo das universidades privadas, mas também das outras, damos conta que a coisa antigamente era muito simples: direito, medicina, letras e alguma coisa mais e acabava aí. Agora são especialidades. É como quem diz: “Agora, já não é a mão, agora tu vais se especializar na falangeta, por aqui não entendes nada [
aponta para a mão

], mas daqui [
indica a falangeta do dedo

] vais entender tudo.” Porque a indústria complicou-se de tal forma, ficou exigente e, nessa tendência para a especialização, os cursos multiplicaram-se. Isso sem falar nos
master

e nessa formação contínua, que tem uma justificação, é claro que sim. Tudo isso desenvolve rapidamente. Se a pessoa não se atualiza, não está em condições de competir.




E o que falta hoje, então?




Falta aquilo que, na escola ou na universidade, principalmente, seria o espaço para a reflexão. Disse isso a uma revista daqui [
Playboy

], essa mania de que as crianças têm que estar sempre contentes, e que todos nós deveríamos nos preocupar com a alegria das crianças. Não tem importância nenhuma que a criança esteja triste. O ser humano cresce mais à sombra que ao sol. E se se vê que uma criança está melancólica, triste, deixá-la estar, está a crescer. Pode isto parecer um pouco romântico, ou corriqueiro, idealista, mas para mim continua a ser a verdade. O tempo para pensar e refletir é necessário. Porque por aí é que se cresce.


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