Reféns da guerra

Crianças do Congo são tiradas à força da escola para tornar-se soldados

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Cristina Charão*




Em um país em guerra, como a República Democrática do Congo (RDC), a escola poderia ser um refúgio. No entanto, tornou-se centro de recrutamento militar. O país ostenta o maior contingente de crianças-soldado no mundo, e suas instituições de ensino, além de poucas e precárias, são freqüentemente assaltadas por grupos armados, que há sete anos se digladiam pelo controle do território. Sob a mira de metralhadoras, meninos e meninas são forçados a entrar em caminhões e levados para o meio da selva, onde aprendem a manejar todo tipo de arma de fogo – algumas, maiores que as próprias crianças. A maioria mal sabe por que ou por quem passarão a matar.









 Abdelhak Senna/AFP





 Cerca de 30 mil crianças com menos de

16 anos fazem parte do exército do Congo


Não há estatísticas que mostrem quantos dos 30 mil menores de 16 anos armados pelas milícias no Congo foram “recrutados” dentro das escolas. O rapto de crianças é uma cena tão corriqueira nas vilas rurais e, principalmente, nas ruas da periferia da capital, Kinshasa, que não há números para indicar as origens dos recrutamentos.

Sabe-se, porém, que nem todos os pequenos soldados, chamados kadogos (que significa “os pequenos” no dialeto local), são forçados a pegar em armas. Órfãos, sem expectativa de conseguir lugar em um banco escolar ou em qualquer outra atividade que possa preencher uma parte dos seus dias, crianças e jovens são os principais alvos da propaganda das milícias. Por um prato de comida, por alguns trocados ou pela chance de vingar a morte de parentes, milhares deles aceitam tomar parte da crueldade da guerra, que já matou mais de 3 milhões de pessoas (500 mil nos conflitos e outros 2,5 milhões em razão de doenças e da fome).

“Essas crianças nada podem fazer, a não ser entregar-se às mãos das pessoas que lhe oferecem uma possibilidade de sobrevivência, por mais pobre e terrível que seja”, afirma o padre congolês Jean-Marie Dundji Bagave, que trabalha no programa de recuperação de crianças-soldado da Ordem Carmelita em seu país. “Elas vão à guerra pelo fracasso, por estarem desencorajadas”, lamenta. Para ele, a pobreza econômica (que cria e se alimenta da falta de oportunidades educacionais) e a pobreza moral, resultante da ausência do convívio familiar e escolas regulares, são responsáveis pelo fato de as crianças congolesas “terem perdido a noção do que elas querem ou podem fazer da sua própria vida”.

Segundo o padre, as razões para este sentimento de fracasso e desesperança têm ligação direta ou indireta com a questão da falência educacional do país. Em um ciclo perverso, o sistema educacional falido contribui para a perpetuação da guerra e a guerra contribui para a perpetuação da falência do sistema educacional.

Os números do fracasso da educação na República Democrática do Congo são tão impressionantes quanto os das outras tragédias provocadas pelos anos de conflito. Cerca de 40% da população do país é analfabeta, segundo as estatísticas oficiais. Quando consegue entrar na escola, uma criança tem uma expectativa média de permanecer nela por apenas quatro anos. Entre as razões para que ela deixe de freqüentar a sala de aula, destaca-se a falta de condições dos pais de mantê-la na escola.

Apesar de a educação ser oficialmente pública e gratuita, na RDC é preciso pagar para que uma criança tenha uma vaga na escola. Mal remunerados, os professores se negam a trabalhar apenas pelo que o governo lhes paga. Eles exigem dos pais um “extra” para complementar o salário que, no caso de um professor de escola secundária, não chega a US$ 30 mensais. Na região leste do país, onde agora se concentram os conflitos, a situação chegou a ponto de ordens religiosas e organizações não-governamentais “ocuparem” as escolas e assumirem esse pagamento adicional aos professores, para garantir que as crianças não sejam impedidas de entrar em sala de aula.


Apoio –

Em resultado da omissão do Estado, determinadas ONG’s e instituições religiosas tomam para si as tarefas de construir a infra-estrutura necessária à educação e de promover a readaptação das crianças resgatadas das milícias. O Fundo das Nações Unidas para a Infância e a Adolescência (Unicef) mantém na região de Kimwenza um Centro de Trânsito e Orientação desde 2001. Além do apoio psicológico e médico, os ex-pequenos soldados recebem ali o equivalente aos primeiros anos do ensino básico.









 Divulgação





 Servir aos militares é forma de sobreviver à fome e ao abandono: cerca de 40% da população é analfabeta

Os carmelitas, por sua vez, investem na construção de complexos educacionais, tanto na região oeste como nas proximidades de Kinshasa. Nesses complexos, e também nas paróquias, os trabalhos de resgate e reinserção de crianças de rua e de ex-soldados acontecem sob três aspectos. Primeiro, sensibilizar as crianças para o desejo de viver. Segundo, assegurar sua reintegração à sociedade pela educação e também pelo ensino de atividades econômicas simples, como a costura ou o cultivo agrícola. E, terceiro, criar grupos de mães adotivas, que tentam dar às crianças o senso de ternura familiar. “Quando abordamos uma criança nas ruas da capital, a primeira coisa que ela nos pergunta é: ‘vai me tirar de Kinshasa e levar pra onde?'”, conta o padre carmelita Telo Chelo, que trabalha diretamente com crianças resgatadas na capital congolesa. “Elas querem primeiro um teto, depois comida e depois diversão. E é isso que tentamos oferecer a elas”.

Um traço importante desta intervenção junto aos menores que vivem na periferia de Kinshasa é a tentativa de retirá-los do centro urbano e levá-los ao campo, resgatando nestas crianças suas ligações com as atividades agrícolas. “Não é nenhuma solução miraculosa. Apenas repetimos o que já se faz em vários lugares”, explica o padre Telo Chelo. “O importante aqui é mostrar a capacidade dos próprios congoleses de dar uma resposta aos seus problemas, para que quando o Banco Mundial ou as ONGs internacionais apóiem o que já existe. E não nos digam o que e como temos de fazer.”




* Da Agência Repórter Social





Vida de Kadogo

Muitas organizações humanitárias têm tentado diagnosticar a situação das crianças-soldado na República Democrática do Congo. Os relatos feitos por jovens resgatados das milícias apresentados a seguir foram reunidos pela Anistia Internacional:

“Ordenavam-nos que matássemos as pessoas, obrigando-as a ficar dentro de suas casas enquanto as incendiávamos. Tivemos, inclusive, que enterrar algumas pessoas vivas. Um dia, eu e os meus amigos fomos obrigados pelo nosso comandante a matar todos os componentes de uma família, cortar-lhes os corpos e os comer… A minha vida está perdida. Não tenho nada por que viver. De noite não posso mais dormir. Continuo a pensar nas coisas horríveis que eu vi e fiz quando era um soldado”. Kalami, 15 anos, 6 deles passados como combatente de um grupo armado.

“Fui recrutada quando ia da minha casa para a escola. Uns soldados fingiam que estavam consertando seu carro quebrado. Eles chamaram a mim e a meus colegas, e quando nos aproximamos eles me agarraram, me jogaram dentro do veículo e me levaram para um centro de treinamento. Fui treinada e então começamos uma marcha sobre Kinshasa. Como fui raptada no caminho da escola, minha família não sabe o que aconteceu comigo. Eu não sei se eles estão vivos. E se estiverem, acho que não gostariam de saber o que eu me tornei.” Jeanne, recrutada em 1996, aos 11 anos, pela Aliança Democrática pela Libertação do Congo (AFDL), coalizão que dá suporte ao presidente atual, Joseph Kabila.

As cicatrizes que eu tenho em todas as minhas costas são de surras que levei dos comandantes do acampamento. Eles me batiam 40 vezes com o cabo do rifle toda vez que eu não conseguia realizar um exercício como os adultos. Eu não poderia fazer direito os exercícios porque eu era pequeno, então eu apanhava quase todas as manhãs. Dois amigos meus morreram durante o treinamento por causa dos espancamentos. Os soldados os queimaram na latrina. Eu ainda penso neles.” Thomas, 16 anos, recrutado aos 13 anos pelo RCD-Goma (Partido Congolês pela Democracia), movimento apoiado por Ruanda, perdeu o movimento das pernas em função dos espancamentos.

“Eles me trouxeram uma mulher e uma criança e me mandaram colocá-las num buraco e queimá-las vivas. Elas gritavam e a mulher me pedia para poupá-las. Eu fiquei com muita pena, mas atrás de mim havia dois soldados, me vigiando, e eu disse a mim mesmo: ‘Se eu deixá-las ir, eles me matam’. Então, eu as queimei para salvar a minha própria vida.” Olivier, tornou-se soldado aos 11 anos e durante 7 serviu a várias milícias.




Origens do conflito



Disputas no Congo já são conhecidas como “I Guerra Mundial da África”




Como ocorre com outros países africanos, é difícil acompanhar e entender a seqüência de guerrilhas, milícias, ditaduras e invasões registrados na história recente da República Democrática do Congo (RDC). O conflito atual, que envolve praticamente todos os países da África Central e já é identificado como a “primeira guerra mundial da África”, teve início em 1998. No dia 2 de agosto, exércitos de Ruanda e Uganda invadiram o território congolês com a justificativa de que o governo da RDC dava suporte a forças rebeldes destes países, incluindo grupos envolvidos no genocídio ruandês de 1994.

Dois anos antes da invasão, o governo de Ruanda fora o principal aliado militar da Aliança das Forças Democráticas pela Libertação do Congo (ADFL), que em um golpe militar colocou o general Laurent Kabila no poder. Uma vez presidente, Kabila passou a receber apoio de outros países fronteiriços: Zimbábue, Namíbia, Chade, Angola e Sudão.

Com a invasão de 98, grupos rebeldes do próprio Congo – em especial o Partido Congolês para a Democracia (RCD-Goma) – passaram a receber apoio de Ruanda, Uganda e também do Burundi para derrubar Kabila. Em 2001, o presidente foi assassinado por um membro de sua guarda pessoal. A sucessão foi rápida e “familiar”. No lugar de Laurent, quem assumiu o poder foi Joseph Kabila. E a guerra continuou.

O território da República Democrática do Congo, que já se chamou Congo Belga e Zaire, é riquíssimo em ouro, diamante, cobre, cobalto e zinco. A guerra atual, no entanto, não é apenas uma briga de vizinhos por estas riquezas. Um dos maiores países da África, a RDC foi, desde a sua independência da Bélgica, o foco central da disputa entre Estados Unidos e Rússia pelo continente africano. Hoje, os governos locais recebem apoio dos Estados Unidos ou da Europa, que em nome da paz buscam estabelecer a ordem necessária para que suas empresas possam explorar o rico minério congolês.
(ARS)




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