Rede de escolas da Unesco no Brasil cresce e visa maior equilíbrio entre presença de instituições públicas e privadas

Entenda como funciona o Programa de Escolas Associadas (PEA), que reúne mais de 10 mil escolas distribuídas em 181 países

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Francisco Vílton, do Piauí: surpresa com simplicidade e coerência de escolas do Japão. Foto do encontro PEA-Unesco de 2017. (Crédito: Divulgação)

Francisco Vílton, do Piauí: surpresa com simplicidade e coerência de escolas do Japão. Foto do encontro PEA-Unesco de 2017. (Crédito: Divulgação)

Quando viajou ao Japão com um grupo de gestores escolares, em junho de 2017, o diretor do Colégio Objetivo de Teresina (PI), Francisco Vilton, carregava consigo uma imagem das escolas que encontraria: seriam todas grandes cenários futuristas, em que os adereços e funcionalidades tecnológicas dariam o tom de seu cotidiano. Ledo engano. Encontrou espaços “extremamente simples”. Mas, longe de se decepcionar, saiu de lá fã da educação japonesa e trazendo ideias para implementar em suas escolas, três delas na capital do Piauí e uma quarta no município de Parnaíba, distante 338 km da capital, as quatro totalizando 2.500 alunos.

Vilton ficou muito bem impressionado com a equidade da educação japonesa, pois, segundo ele, o que existe lá é um projeto governamental sólido, ancorado em uma proposta pedagógica bem definida, com oferta de infraestrutura adequada e professores bem formados. Tudo isso compartilhado por escolas públicas e privadas que atendem a todas as classes sociais, sem distinção.

Entusiasmou-se tanto que implantou projeto de conscientização sobre o lixo em todas as escolas de sua pequena rede. Ao contrário do que pareceria o óbvio, diminuiu as lixeiras disponíveis à metade (“havia muitas”), para fazer que os alunos procurassem o local certo para jogar o lixo. E instituiu nova mentalidade: “A escola é responsável pela manutenção da limpeza, não pelo lixo de cada um. Se eles conseguiram fazer isso com o país inteiro, por que não conseguiríamos fazer com nossas escolas?”, explica.

Dono de uma instituição fundada há pouco tempo – em 2011, com a operação efetiva tendo início em 2012 – Vilton tem buscado práticas que tragam não só excelência, mas pilares sólidos em termos de valores. Foi pensando nisso que ele, assim como outros gestores que muitas vezes se ressentem da ausência de projetos pedagógicos que transcendam os resultados mais concretos de aprendizagem, materializados em resultados de avaliações, tornou, em 2015, sua instituição candidata ao Programa de Escolas Associadas (PEA) Unesco.

Fundado mundialmente em 1953, o PEA é um programa de dimensão mundial que hoje reúne mais de 10 mil escolas distribuídas em 181 países. No Brasil, a rede alcançou neste ano o número de 364 instituições associadas, entre escolas públicas e privadas, além de outras 77 que estão na fila de espera para que sua adesão seja aceita.

Entre a candidatura e a aceitação final, cuja solenidade de certificação aconteceu no encontro anual do PEA Unesco brasileiro, realizado no final de setembro em Foz do Iguaçu, Paraná, Vilton e sua instituição percorreram um caminho de dois anos, pontuado pela adesão a projetos ligados aos quatro temas estratégicos para a rede: aprendizagem intercultural, cultura da paz, desenvolvimento sustentável e prioridades do sistema ONU/Unesco.

Pelo que diz a coordenadora nacional do projeto, Myriam Tricate, as novas candidatas terão de mostrar serviço por tempo igual ou maior. “Antes, a entrada era quase automática. Agora, não queremos trabalhar com um número muito grande, pois acaba fugindo do nosso alcance. Vamos investir em aprimorar o grupo que tivermos. Depois, mais à frente, quem sabe podemos abrir de novo”, diz ela, hoje a pessoa que virou símbolo do programa no Brasil. Aquelas que conseguirem manter a atuação de acordo com os parâmetros da Unesco deverão ganhar a chancela. Para isso, além de realizar projetos calcados em temas anuais sugeridos pela coordenação nacional ou ancorados nos grandes vértices internacionais, é preciso documentá-los em relatórios bilíngues e enviar a documentação para a coordenação mundial, em Paris.

Dona do Colégio Magno e associada desde os anos 90, Myriam Tricate assumiu a coordenação nacional do PEA Unesco em 2008. Desde então, tem procurado dar mais materialidade às ações da entidade, aproximando as escolas, realizando um grande evento anual, criando balizas para os projetos. Na fase atual, a grande virada de leme é equilibrar mais a proporção de escolas públicas e privadas. As privadas sempre foram maioria, mas as públicas vêm ganhando cada vez mais espaço. Hoje, representam 32,9% das associadas, contra 63,9% das privadas e 3,2% de organizações sociais.

Como vêm de realidades diferentes, seja em relação às privadas, seja em relação a outras escolas públicas, as percepções delas sobre o PEA são diferentes. Para o tradicional Colégio Pedro II, escola federal carioca prestes a completar 180 anos e há 20 na rede PEA, seu papel é de um grande promotor de interlocução. Como explica Ivone de Almeida, diretora de extensão, pelo fato de o próprio Pedro II ser referência, ajuda a divulgar o PEA. “Há uma troca grande. Podemos indicar escolas, trabalhar com escolas municipais, ajudar algumas em suas candidaturas.” A escola também é referência na formação docente. Oferece dois mestrados stricto sensu e cinco especializações, sendo uma delas em história da África, vácuo curricular para muitas instituições que não conseguem seguir a lei que designa que seus conteúdos sejam incorporados.

Busca de diálogo

Já Ana Lígia Matos, professora da Escola Técnica Estadual Ferreira Viana, também do Rio de Janeiro, indicada pelo Pedro II e recém-aceita na rede, tem a expectativa de que possa beneficiar-se de trocas pedagógicas. Mas demonstrou algum ceticismo. “O contato com um universo mais heterogêneo é interessante. A expectativa é que haja um diálogo, de que carecemos no país. O problema é como fazê-lo, esperamos que o PEA funcione como um instrumento para isso. Nós, por exemplo, já trabalhamos com projetos, temos ação diária nesse sentido”, disse ela.
Mary Cruz, professora de língua portuguesa da Escola Conexão Aquarela (pública), de Macapá, tem perspectiva bem diferente. Para ela, cuja escola está há três anos no PEA, o encontro anual é uma oportunidade singular para mostrar a realidade do projeto local em que sua escola atua, que oferece formação continuada a docentes e apoio material para sete escolas localizadas na Ilha de Marajó, no estado vizinho do Pará.

“A gente quer visibilidade, o projeto precisa sensibilizar mais pessoas. É uma região muito grande em que mora pouca gente. É uma população de ribeirinhos, a coisa mais forte na economia local é tirar o açaí e pescar camarão. O governo de alguma forma tem de dar a escola para esse povo. Nessa regional tem 400 e tantas crianças”, conta Mary.

Três escolas rurais foram fechadas para concentrar mais os estudantes que, consequentemente, têm de se deslocar por mais tempo. As catraias – os barcos de transporte – eram 24, hoje são 18. As crianças gastam duas horas e meia para ir, o mesmo tempo para voltar e quatro horas na escola. Ao chegar, muitos vão ajudar os pais a tirar açaí. Além de formar os professores, o projeto busca apoio para que os alunos tenham o que fazer durante as viagens, para que não desistam.

Se para Mary a visibilidade do projeto é um grande trunfo, para muitas escolas associadas a chancela Unesco e os seus valores são o que fala mais alto. É o caso de Antônio Sérgio Brandão, diretor do quase centenário Colégio Ofélia Fonseca, escola particular do bairro de Higienópolis (São Paulo) que está entre as primeiras associadas. “Fazer parte da associação dá credibilidade à escola, mas o mais importante é a troca de ideias, enriquece muito quem vai aos encontros e viagens internacionais”, diz.

Luciana Carvalho, diretora do Centro de Educação Infantil do Tribunal de Justiça do Tocantins, há quatro anos no PEA, diz que o principal para a instituição são os pilares e diretrizes da Unesco. “Como não fazemos parte de nenhuma outra rede, esse material nos ajuda muito. Há muita coisa de outros países”, diz. Mas ela coloca um senão: faltam meios para que haja mais interação entre as escolas. “O portal está velho, desestimula. Falta uma página no Facebook”, avalia.

Se não está nas redes sociais, o programa abriu às escolas brasileiras a oportunidade para que 10 delas participem de projeto global sobre mudanças climáticas. O tema, aliás, foi objeto da palestra mais concorrida do encontro de Foz do Iguaçu, ministrada por Paulo Artaxo Netto, professor de física da USP e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. O projeto está em curso desde o ano passado, envolve a reflexão com colégios de outros países e enfatiza a circulação de evidências científicas sobre as alterações climáticas, num momento em que a ciência tem sido negada até mesmo pelo país que mais as produz, os Estados Unidos.

Em contrapartida, a tentativa de diá­logo do programa com o poder legislativo resultou em frustração. Esperado em Foz do Iguaçu para palestra sobre “A educação para a construção do futuro”, o senador Cristovam Buar­que cancelou presença na última hora, não sem antes enviar livretos sobre seu projeto de federalização da educação básica. A justificativa para a ausência foi a crise entre Legislativo e Judiciário, desencadeada por medidas cautelares contra o senador Aécio Neves. Parece que, tanto na atividade parlamentar como na proposta educacional, o senador ateve-se mais ao passado do que ao futuro.

Coral do Colégio Benjamin Constant, escola alemã de São Paulo: canto para a paz. (Crédito: Divulgação)

Coral do Colégio Benjamin Constant, escola alemã de São Paulo: canto para a paz. (Crédito: Divulgação)


Unesco: EUA e Israel anunciam saída

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), entidade voltada à paz mundial fundada em 16 de novembro de 1945, ano do término da II Guerra Mundial, sofreu um forte golpe no último dia 12 de outubro. Neste dia, os Estados Unidos e Israel fizeram aviso público de que irão se retirar do órgão mundial, permanecendo apenas até o final de 2018.

No caso dos Estados Unidos, até agora responsáveis por 22% do orçamento total da Unesco, a decisão se deve, oficialmente, a esses custos (muitos pagamentos estão em atraso) e àquilo que foi batizado como posicionamento sistemático contra Israel nos conflitos no Oriente Médio.

A Unesco é a agência das Nações Unidas responsável por ações e campanhas globais nas áreas de educação, cultura, ciências naturais, humanas, sociais e comunicação e informação. Na educação, a função do órgão é ajudar os países a atingir as metas do Programa Educação para Todos, que busca acesso e equidade na oferta.

O posicionamento americano está em sintonia com outras ações do governo Donald Trump, voltando-se para o país e deixando acordos internacionais como o do clima. Trump também não vem se mostrando muito adepto do conhecimento científico.

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