Recursos humanos vão à escola

Prédios, computadores, planos educacionais – segundo holandês especialista em gestão, nada substitui investimento em professores

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João Marcos Rainho

Dinheiro. Em qualquer debate a respeito de questões educacionais, o fator investimento financeiro é sempre colocado como fundamental para resolver problemas e melhorar o ensino. Entretanto, até em países ricos, com polpudos orçamentos educacionais nos setores públicos e privados, o dinheiro não está trazendo a felicidade da escola. Quem afirma isso é Boudewijn van Velzen, consultor educacional com experiência em diversos países na Europa, Ásia, África e América Latina. Segundo o especialista holandês, o problema não é a quantidade de recursos e sim a aplicação no lugar certo. “Os orçamentos educacionais privilegiam em 95% a parte técnica, compra de equipamentos e construção de prédios, e destinam menos de 5% para a capacitação de professores, coordenadores e diretores”, critica ele, que acompanhou discretamente os projetos da gestão Paulo Renato no MEC. A seguir, acompanhe a entrevista que o especialista deu à
Educação

.




Revista Educação –

Como o senhor avalia as mudanças ocorridas, na última década, no sistema educacional brasileiro?


B






oudewijn van Velzen –



Uma mudança para valer leva tempo. Mudança não é um evento, mas uma jornada. Para uma reforma educacional mostrar resultados necessita de mais de dez anos, às vezes, até 20 anos para mudanças sistemáticas. Uma década não é nada se falarmos em mudanças nacionais. Isso é assim no Brasil e em qualquer lugar do mundo. Outro fator, para dar certo, é que a reforma necessita acontecer por pressões de cima para baixo, ou seja, dos governantes, e de baixo para cima, partindo dos educadores. Isso vale para Jamaica, Alemanha, Holanda, Suíça e Brasil. Apesar de estatísticas alarmantes em alguns aspectos, as mudanças estão acontecendo no Brasil. Visitei recentemente a cidade de Caraguatatuba [
litoral paulista

] e fiquei impressionado quanto ao que pode ser feito em educação em curto espaço de tempo.






O que há em comum nos processos de mudança educacional na Europa, Ásia, África e América Latina?




É igual em todo lugar. Existem poucos recursos e atenção disponíveis para os professores. Quando falamos em investimentos educacionais, tudo é colocado em livros, apostilas, computadores, construções, móveis, e só 5% restantes no treinamento de professores. E, quando chega esse momento, os gestores ainda negociam reduzir pela metade esses 5%. É incrível, mas essa regra prevalece em todos os países.




No setor público, esse problema não está ligado ao marketing?




Um ministro pode achar que é mais importante aparecer junto a um prédio novo do que na frente de um grupo de professores treinados. Talvez porque os professores pareçam iguais, antes e depois dos cursos. Em prédios novos, há diferença entre o antes e o depois.




Mas o investimento em formação não é o mais importante?




É mais fácil gerenciar investimento em equipamentos, construções. Até na hora de fazer planejamento, podemos prever o que vai acontecer daqui há dois anos numa construção de escola. Tem o momento dos alicerces, o levantamento das paredes, pintura, acabamento. Quando desenvolvemos os recursos humanos de uma escola, não podemos prever o que vai acontecer nem em quatro meses. É difícil utilizar as mesmas estratégias de planejamento em recursos humanos.




É possível separar os recursos para investimento em pessoal dos utilizados para equipamentos?




Sim. O governo holandês está oferecendo para as escolas recursos para serem utilizados especificamente no desenvolvimento de pessoal. É uma tendência.




Também existe o problema de descontinuidade de ações, na mudança de governantes.




Uma das coisas que podemos fazer é descentralizar. Se tivermos escolas responsáveis e pessoas responsáveis para gerenciar seus próprios orçamentos, criaremos uma base de continuidade em nível escolar. Os centralizadores argumentam que, se fosse assim, cada escola faria uma coisa diferente, mas as escolas são diferentes de qualquer maneira. Há uma certa mística na educação pública em achar que as escolas são todas iguais. Não são iguais e por que não utilizar todo esse conhecimento diversificado? E as escolas ficam, algumas têm quase 100 anos – ministros, secretários, eles vêm e vão.




Como administrar processos de mudança nas escolas?




As mudanças afetam tanto indivíduos como organizações. Ambos necessitam de atenção. As pessoas são as chaves das mudanças e precisamos encontrar formas de tocar a alma e o coração dos indivíduos. As escolas precisam se transformar em um lar para os estudantes e educadores. Não adianta se preocupar com falhas, perseguir quem errou. O importante é mostrar que todos serão acolhidos.




Mas para isso não é necessário fazer treinamento?




Não é uma boa idéia treinar pessoas e sim perguntar primeiro para elas o que precisa ser treinado. Só depois treiná-las. O compromisso com as mudanças cresce com o saber fazer. Primeiro, tem de ter compromisso, depois a experiência.




Por que reformas na área educacional são comumente recebidas com desconfiança?



Sabemos que mudanças vão ocorrer sempre, até pela alternância do poder político. As novas administrações introduzem novas políticas educacionais. E acontecem crises normais, com queda de desempenho dos professores. Portanto, uma mudança requer clareza de propósitos sobre por que, o que e como fazer mudanças. Por exemplo, a mudança de currículo na Tanzânia foi executada com a ajuda de consultores internacionais de alto gabarito. Ficou um trabalho maravilhoso, enviado para todas as escolas com a mensagem de que o novo currículo deveria ser adotado em poucos meses. Os professores nem sabiam que havia um processo de mudança curricular acontecendo. Não conheciam o porquê do processo. Não foi discutido. Resultado: o trabalho foi rejeitado pelos professores.




Como você avalia a reforma curricular proposta pela Lei de Diretrizes e Bases?




Se o Paulo Renato [
ex-ministro da Educação

] tivesse pedido meu conselho, eu diria para fazer algo diferente: desenvolver uma espécie de estrutura de currículo para quatro ou cinco matérias centrais que pudesse cobrir 50% ou 60% do tempo disponível de aulas e deixar os 50%, 60% restantes para a escola e a prefeitura decidirem o que incluir. Facilitaria muito a vida de quem está acima, no governo, e de quem está na base, na escola. Também deveria discutir as reformas mais pela base. Mudanças em nível nacional precisam da participação de todos os agentes envolvidos. É necessário produzir massa crítica.




Isso não é caro?




A educação é cara em todos os países. Por isso, o costume de fazer unidades grandes, com muitos alunos, para ganhar no custo por mil. Alegam ser mais eficientes, mas em unidades muito grandes as mudanças podem não ocorrer. Um processo de mudança requer que a escola se torne uma organização “aprendente”. Deve ser alimentada por conhecimento e pesquisa das melhores práticas. Teoria e prática precisam estar sempre em discussão.




Mas dinheiro não é um fator determinante para o sucesso das políticas educacionais?




O reitor de uma universidade da Jamaica, recentemente, publicou em um jornal um artigo intitulado
Dinheiro Não é o Problema

. Ele dizia que devemos estar preparados para confiar em nossos professores; capacitá-los e estar conscientes da situação de um país em desenvolvimento. Não podemos copiar as mesmas ambições e expectativas do povo norte-americano ou dos ingleses, por exemplo. Mas devemos estabelecer objetivos próprios e utilizarmos os recursos humanos disponíveis para chegar lá.




Governos e educadores parecem estar em choque a maior parte do tempo. Esses interesses não podem ser conciliáveis?




O conflito existe porque algumas vezes a iniciativa das mudanças vem do governo, outras vezes surge de necessidades das escolas. Geralmente, os políticos não são bons implementadores. E as pessoas na escola não têm idéia clara da responsabilidade política dos governantes. Precisamos saber mediar interesses diferentes, pelo menos ter um meio termo aceitável. O ideal seria que os programas e sua organização fossem elaborados pelas pessoas diretamente afetadas.




Pais de alunos, principalmente?




Devemos engajar estudantes e seus pais em qualquer projeto. Mas existe uma dimensão difícil: o professor não deve ensinar os pais a serem pais e os pais não devem querer ensinar o professor a ser professor. É preciso compreender que ambos trabalham com a mesma criança. Temos que dar espaço para essa interação. Por outro lado, as coisas não mudarão se pais ou professores não estiverem presentes.




Sob essa perspectiva, qual é o papel do administrador escolar?




A escola é a única instituição que funciona de forma confiável para os jovens. Antes, eles tinham a igreja e a família ocupando esse lugar, hoje, essas instituições perderam a força. A escola tem autonomia e o professor tem a possibilidade de tomar decisões. As mudanças podem ocorrer nesse clima. Agora, todos podem cometer erros de percurso. Se não confiarmos nos nossos professores, por exemplo, eles não aprenderão com seus próprios erros. Essa cultura da punição do erro que é combatida pela moderna pedagogia deve ser uma discussão da esfera administrativa também.




A Holanda vem se destacando no cenário internacional em educação. Qual o segredo?



Uma causa importante para nosso sucesso é que desenvolvemos livros didáticos de excelente qualidade. O outro lado dessa história é que nossos professores ficaram completamente dependentes desses livros e, hoje, com o processo de imigração, eles têm de ensinar em sala de aula para uma realidade de crianças holandesas, marroquinas, gregas, com diferentes necessidades de aprendizado. O livro didático não oferece respostas para lidar com isso. Estamos trabalhando num processo para não deixar o professor tão dependente do livro didático. Se quiser um conselho para a realidade brasileira, eu diria que pulem essa história de livro didático e desenvolvam mais o professor.

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