Rap da exclusão

Fala Tu revela cotidiano das favelas cariocas

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Sérgio Rizzo*





 




“Se é música que fala de quem não tem nada, então o rap é nosso”, diz Macarrão, 33 anos, sobre a popularidade desse gênero, surgido nos EUA, entre a população de subúrbios e favelas do Rio de Janeiro. Ele mora em um morro na Zona Norte da cidade e trabalha como apontador de jogo do bicho, mas sonha ganhar a vida como compositor e intérprete. Toghum, 32 anos, e Combatente, 21, vivem situação parecida: o primeiro é representante de vendas e a segunda, operadora de
telemarketing

, mas ambos querem abandonar essas atividades para se dedicar profissionalmente ao rap.





O documentário
Fala Tu

acompanha os três durante alguns meses, em 2002 e 2003. O objetivo inicial do diretor Guilherme Coelho e do roteirista Nathaniel Leclery era mostrar como a cultura hip hop se disseminou fortemente, nos últimos 20 anos, entre a população carioca de baixa renda. O primeiro título do projeto, condizente com essa intenção, era “Rap no Rio”. Ao fazer a pesquisa de campo, eles desistiram de promover uma análise histórica e panorâmica do fenômeno, preferindo se concentrar no cotidiano de alguns de seus anônimos protagonistas.




A abordagem, sustentada por um modo respeitoso de filmar e ouvir os personagens, deu a
Fala Tu

um caráter muito superior ao de um documentário que se propusesse exclusivamente a falar de música na favela sob a ótica de cineastas de classe média. Produto também de um trabalho de montagem que alinhava essas histórias de vida sem a preocupação de explicá-las, o filme se impõe como crônica sobre a exclusão social, ao mostrar como se dá a luta pela sobrevivência nos andares de baixo da sociedade brasileira, sem intermediações.




Não estamos no terreno da ficção, cujas representações da pobreza costumam gerar polêmica – basta lembrar, por exemplo, o intenso debate em torno de
Cidade de Deus

. Macarrão, Toghum e Combatente existem mesmo, o que confere a
Fala Tu

uma autenticidade desconcertante. É compreensível, portanto, que professores de escolas públicas na periferia do Rio e de São Paulo já estejam trabalhando esse documentário com seus alunos adolescentes: como o que se vê na tela é muito próximo da realidade vivida por eles, são inúmeras as possibilidades de reflexão proporcionadas por esse espelhamento.




Nenhum dos personagens estuda ou pôde estudar muito, o que permite outra série de inferências sobre as relações entre ensino formal e cidadania. Todos eles, no entanto, reconhecem de alguma forma a importância da educação. Toghum, por exemplo, revela seu planejamento para o futuro: estudar Jornalismo e ao mesmo tempo “uma outra faculdade”, trabalhar na área de comunicação da Polícia Federal e se tornar o primeiro porta-voz negro da Presidência da República. “Nessa vida cheia de perigo, tira a cara das drogas, ponha a cara nos livros”, diz um de seus raps. A rima é pobre, mas o recado, claro.




*Jornalista, professor e crítico da revista
Set

e da
Folha de S.Paulo

.





srizzojr@uol.com.br




 

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