Rampa de lançamento

Canadá investe em educação para atrair alunos estrangeiros e se consolidar no mercado mundial de ensino

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Faoze Chibli

Enviado ao Canadá*

Educação não é somente um valor humano para o Canadá. Estimativas do Centro de Educação Canadense (CEC) apontam que esse mercado movimenta a bagatela de C$ 3,5 bilhões (em dólares canadenses, quantia equivalente a R$ 7,7 bilhões) por ano nesse ramo de atividade. Só para se ter dimensão do que isso representa, a indústria siderúrgica, tradicionalmente uma das mais profícuas do país – por causa das riquezas naturais e da abundância de recursos energéticos -, injeta na economia C$ 3,6 bilhões anualmente. Não por acaso, a educação é preconizada como uma das maiores atrações de divisas para o país. E com a impressionante projeção de uma taxa de crescimento na ordem de 10% a 20% ao ano.



Por outro lado, o Brasil possui a quarta maior população estudantil do mundo, atrás da China, da Índia e dos EUA. São 55 milhões de alunos matriculados – mais do que toda a população canadense, de 30 milhões, ou o equivalente à do estado de São Paulo. Claro que a possibilidade de estudar fora do país é irreal para a maioria dos brasileiros. Contudo, o número bruto representa um filão a ser explorado pelas instituições estrangeiras. Os canadenses estão atentos a isso. Mesmo assim, o número de brasileiros que busca esse país como destino para seus estudos tem diminuído (
leia nos gráficos

).



Exemplo disso é a atuação do Centro de Educação Canadense (CEC). Trata-se de um órgão oficial e possui 20 bases espalhadas pela Ásia, América Central e do Sul e Europa (
leia entrevista

). Todas elas com o objetivo de estimular a ida de estudantes ao Canadá. Jaqueline Aguilar, coordenadora de eventos e marketing do CEC, explica as razões da queda no número de brasileiros interessados na educação canadense: “Em 2000, o dólar tinha o custo um por um e, por isso, tivemos o maior número de estudantes. Nos anos seguintes, tivemos problemas econômicos e a alta do dólar, a ‘vaca-louca’, a queda do World Trade Center e, no ano passado, a Sars [
Severa Síndrome Aguda Respiratória

].” Mas, segundo Jaqueline, a situação poderia ser pior, pois, “mesmo com esses problemas, o Canadá está entre os três primeiros países que mais recebem alunos brasileiros para estudos”.



Já o interesse mundial em estudar nesse país da América do Norte cresce exponencialmente. Em 1999, o fluxo de alunos que desembarcava lá apresentava um crescimento de 9,8%. Essa taxa saltou para 28% em 2000. Além dos 108 mil estudantes internacionais com vistos, o CEC estima haver outros 125 mil alunos em cursos de curta duração (não é necessário visto para estudar até seis meses) e provenientes do Japão, do México ou da Coréia, países possuidores de acordos com o Canadá que eliminam a necessidade de visto.



Em 2002, havia 144 mil estudantes em tempo integral no Canadá. Estima-se que, no mesmo ano, pelo menos um número igual de alunos esteve no país para cursos de curta duração. Uma política ostensiva de captação de estudantes ajuda a aumentar as estatísticas ano a ano.



Entre as razões para essa procura está o valor do dólar canadense, mais baixo em relação ao norte-americano e a vários países europeus. Além disso, os discursos de representantes de entidades, faculdades e universidades canadenses enfatizam a disposição do país em absorver estudantes desistentes de embarcar para os EUA após 11 de setembro de 2001. Seja por medo de discriminação ou pela própria burocracia crescente em relação a estrangeiros.



Multiculturalismo e diversidade são palavras de ordem na maioria das instituições educativas. Simon R. Williams, diretor do departamento de assuntos estrangeiros e coordenador de marketing educacional do governo canadense, corrobora essa idéia. Para ele, o Canadá encoraja essa visão multicultural: “É diferente dos EUA, onde você se torna americano.”



Escolas de línguas são outro filão importante. A Canadian Association of Private Language Schools

(Associação Canadense de Escolas Particulares de Línguas) representa 51 instituições privadas espalhadas pelo país. Elas matriculam todos os anos 45 mil estrangeiros que desejam aprender inglês ou francês, as duas línguas oficiais do país, dispostos a desembolsar C$ 1,7 bilhão (aproximadamente R$ 3,8 bilhões).



Já a Private English Schools Association of Canada (Associação das Escolas Particulares de Inglês do Canadá) demonstra o crescimento dessa atividade com o exemplo de Vancouver. Em 1990, havia dez escolas de inglês no perímetro urbano. Hoje, há mais de cem, despejando aproximadamente C$ 500 milhões (cerca de R$ 1,1 bilhão) anuais na economia.



A importância do ensino como produto de exportação é tendência mundial. Nos EUA, chegou ao quinto lugar no setor de serviços. Na Austrália, é o oitavo maior ramo de atividade, logo após a exportação de trigo. Na Nova Zelândia, a educação internacional está em sétimo lugar entre as atividades econômicas. Recentes discussões na Organização Mundial de Comércio (OMC) têm demonstrado um forte interesse dos países citados, inclusive o Canadá, em submeter o ensino, principalmente o superior, às regras da OMC. Isso, claro, facilitaria a validação de diplomas e estimularia ainda mais esse mercado. Porém, o Código do Consumidor será a única ferramenta de defesa dos direitos do estudante caso essa polêmica mudança se consolide.



O Brasil não gostou da idéia. Em um seminário realizado na Universidade de São Paulo, representantes do governo e intelectuais se mostraram contrários à mudança. No evento, um dos argumentos desfavoráveis foi a baixa competitividade brasileira na área. Hussein Amery, gerente de desenvolvimento, negócios e cooperação técnica da Association of Canadian Community Colleges (Associação das Faculdades Comunitárias do Canadá) explica haver um trabalho sistemático da associação no sentido de construir um “sistema internacional de qualidade”. Ele acrescenta que o Brasil é o segundo maior possuidor de acordos com instituições canadenses de ensino superior, atrás dos EUA, e tem 98 acertos para reconhecimento de certificados.



Enquanto a polêmica se estende, os canadenses investem maciçamente em educação. Foram C$ 68,6 bilhões (aproximadamente R$ 153,1 bilhões) entre 2001 e 2002 (últimos dados oficiais disponíveis), somando-se os setores público e privado. Isso equivale a 6,6% do PIB, o maior gasto nesse setor entre os países do G-7 e da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD). O Brasil investe menos da metade desse valor, R$ 58 bilhões, ou 4,3% do PIB em 2003, segundo cálculos aproximados feitos com dados obtidos no Ministério da Educação. Isso para uma população aproximadamente seis vezes maior, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Não bastam sorte e belas paisagens para ser forte concorrente no cenário mundial de educação.






*O redator Faoze Chibli viajou a Ottawa, Vancouver e Toronto a convite do governo canadense




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