Racismo e xenofobia levam filhos de imigrantes para as piores escolas

Para pesquisador, as consequências da exclusão dos imigrantes estão cada vez mais latentes nas escolas públicas francesas

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Choukri Ben Ayed: escolas marcadas por conflitos étnicos e culturais dão menos chances de sucesso acadêmico aos estudantes

Na última edição do mais famoso ranking internacional de educação, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), a França ocupou o honroso 21º lugar em leitura e o 25º em matemática.

Em comparação, o Brasil conseguiu, respectivamente, a 52ª e a 58ª posições.

Quem examina apenas os números pode pensar que vai tudo bem na educação francesa.

Não é o que acredita Choukri Ben Ayed, doutor pela Universidade Sorbonne Paris V e pesquisador do Departamento de Sociologia da Universidade de Limoges.

Para ele, as reações ao contexto econômico desfavorável na Europa e ao avanço do racismo e da xenofobia estão empurrando os filhos de imigrantes para as escolas em situações de maior vulnerabilidade e com pior qualidade.

O tema ganhou particular enfoque após os atentados terroristas ao jornal satírico Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, os ataques múltiplos ocorridos em Paris em novembro do ano passado e na cidade de Nice, em julho deste ano.

Em visita ao Brasil, Ayed – interlocutor frequente de pesquisadores brasileiros, sobretudo aqueles ligados ao Centro de Estudos e Pesquisas em Educação e Cultura Comunitária (Cenpec) – compôs o panorama da educação francesa atual a partir da ótica de quem, há mais de 20 anos, estuda desigualdade escolar entre territórios e o conceito de heterogeneidade escolar.

Qual paralelo o senhor faria entre a segregação escolar no Brasil e na França?
Há muitas diferenças entre as duas realidades. Primeiro, no sistema político. A França é uma república democrática semipresidencialista, enquanto o Brasil é uma república presidencialista. Isso significa que o sistema de educação francês, incluindo as escolas privadas, é controlado pelo Ministério da Educação. Por isso, lá não há redes municipais e estaduais. Outro ponto é a universalização do acesso. Na França, ela aconteceu no começo do século 20 para o ensino primário e nos anos 80 do mesmo século para o que seria equivalente ao ensino médio.

Na França, escolas que atendem apenas crianças pobres são raras. Embora seja um país menor do que o Brasil, há mais mistura entre as classes sociais. Porém, a pobreza vem aumentando nos últimos tempos por causa do desemprego. Essa crise atinge, sobretudo, os filhos de imigrantes, principalmente da população magrebina [vinda do Magreb, região noroeste da África, de maioria árabe].

Como a pobreza ganhou destaque no debate sobre educação?
A questão da pobreza na escola só passou a ser abordada pelo Estado recentemente porque há instituições de caridade que trabalham com essas populações e dispararam o alarme. Essas organizações estão sendo ouvidas pelo parlamento e chamadas a escrever relatórios sobre o assunto. Em 2015, foi feito um levantamento extenso sobre escola e pobreza extrema. Ele foi encabeçado pela alta administração do Ministério da Educação francês e contou com a colaboração dessas organizações. O fato de ter sido escrito pelas duas instâncias é inédito. A pesquisa incluiu trabalho de campo em cidades pobres, como Marselha, e também em outros grandes centros urbanos. A repercussão na mídia foi enorme, pela primeira vez na nossa história.

Por que a heterogeneidade tem um valor positivo?
Há um sentido político no termo mixité scolaire (heterogeneidade escolar) que remete à unidade da república, um valor muito caro aos franceses. Tem a ver com a tradição de propiciar uma formação mais homogênea aos cidadãos. A ideia de uma população que se vê interligada é rompida com a segregação, relacionada ao racismo declarado, explícito. Uma escola onde isso acontece funciona mal, porque há muitas tensões entre os estudantes. Inclusive, tensões interétnicas. Além disso, é sabido que quem se forma em uma instituição com esses problemas tem suas chances de sucesso escolar reduzidas. Por isso, é fundamental levantar a bandeira da heterogeneidade na escola. O discurso político contra a desigualdade que se cala sobre isso é hipócrita.

Quem são as principais vítimas da segregação escolar?
É difícil medir a discriminação por alguns motivos. Primeiro porque a legislação proíbe classificar as pessoas pela origem, etnia ou cultura e há um discurso forte de união nacional e busca pela construção de uma cidadania comum. Por causa disso, a segregação que se mede é apenas a social. Ainda é difícil compor estatísticas com foco na discriminação étnica e cultural. Não se diz oficialmente, mas quando se pesquisa o tema em um plano mais qualitativo, empírico, percebe-se que a população atingida é a de origem magrebina. Estamos falando de crianças e adolescentes nascidos na França, pertencentes à terceira ou à quarta geração de imigrantes que vieram para o país. No sentido jurídico, elas são francesas. Elas não são, portanto, alvo de políticas para integração de refugiados, ou para aqueles que acabaram de chegar. Mas elas são excluídas porque há uma parcela branca que se vê mais francesa e mais detentora de direitos do que elas.

Como a segregação se materializa concretamente?
A parte branca, católica e mais tradicional da sociedade evita colocar seus filhos em estabelecimentos onde as crianças de origem magrebina estão matriculadas. O Estado até agora não fez grandes coisas para evitar essa segregação, de certo modo até encorajou. O sistema escolar é muito hierarquizado. Apesar de quase todos estudarem na rede pública, alguns estabelecimentos dos anos finais do ensino fundamental ou do médio oferecem cursos extracurriculares de idiomas e cultura europeia que são um grande diferencial. Se há mais candidatos do que a quantidade de vagas, essas instituições podem negar matrículas. Em geral, os filhos de imigrantes é que ouvem negativas e vão se candidatar a escolas distantes, onde não há aulas extras. Recentemente, pesquisadores fizeram um teste: mostraram a mesma carta de apresentação para diferentes escolas usando um nome falso de origem magrebina e outro de origem francesa. O primeiro foi negado, o segundo não. Uma vez que haja um sistema de seleção como esse, os estudantes de origem estrangeira serão desfavorecidos. Isso acontece em toda a sociedade francesa, não só na escola. O mercado de trabalho também é complicado. Há um projeto de lei para fazer com que os currículos para a candidatura a empregos sejam anônimos e omitam também o bairro onde a pessoa reside.

No momento, o senhor está investigando a ausência de políticas voltadas ao combate da discriminação. Quais conclusões obteve até agora?
Essa questão ainda está sendo respondida. Por ora, o que se pode dizer é que, de maneira indireta, há quem duvide da sinceridade do Estado. Ele manifesta indignação, mas dá poucos meios de ação para sanar o problema. Um sistema organizado como o francês é uma vantagem. O lado ruim é que é complicado fazer mudanças. A administração pública tem um peso e é muito estanque. Há também uma elite conservadora que bloqueia alternativas para evitar a exclusão e, por fim, esse não é um tópico rentável do ponto de vista eleitoral. A questão principal é que se você deixa de segregar, vai precisar matricular as crianças em algum lugar e dar boas condições de aprendizado e convivência para elas. Mas quem está nesses lugares não quer os filhos de imigrantes.

Sua fala é um tanto quanto pessimista. Quais são as perspectivas para o futuro?
Mas eu me considero otimista! O fato é que, sim, a situação é muito grave na França. Eu nunca vi nada parecido. Tais questões vieram à tona na última eleição presidencial de 2012 e ganharam mais relevância após os atentados ao jornal Charlie Hebdo e aos ataques em Paris, ambos em 2015. Com essa repercussão, as questões não estão sendo tratadas como problemas escolares. Mas sim como problemas de segurança nacional, com a finalidade de evitar mais mortes. Isso acontece em um momento em que o próprio poder político está enfraquecido internamente. Não se pode esquecer que há muita pressão da extrema direita francesa. Os temas ligados à pobreza e à segregação são contrários à agenda deles e é possível que esses partidos ganhem mais influência e poder nas próximas eleições. Mas há um ponto positivo, sim. Eu jamais vi, desde que estudo o tema, a escola aparecer com tanta força no debate, principalmente como meio para sustentar a república.

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