Questão de ponto de vista

Autor uruguaio propõe a adultos e crianças um exercício de imaginação ao revelar a vida oculta de objetos do cotidiano

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O piloto de corridas (à esq.) e o soldado fiel (à dir): dois amigos imaginários extraídos do livro

 

Poeta, ilustrador, artista plástico. O uruguaio Fidel Sclavo atua em várias frentes e mistura todas elas quando produz livros para adultos e crianças, como é o caso de Os amigos imaginários, traduzido recentemente para o português. A obra traz fotografias de coisas simples do cotidiano, como escumadeiras, interruptores, biscoitos e pedaços de pizzas, manipuladas com desenhos feitos à mão. As montagens são acompanhadas por divertidos poemas sobre as supostas vidas desses amigos imaginários que nos rodeiam. “Quando há muita gente, se assustam um pouco e ficam quietos em seu canto. Então, quando não há algo suspeito por perto, voltam a ser o que são. Às vezes, contam contos. Uns são mais falantes que os outros. Mas todos entendem você, mesmo sem falar”, apresenta Sclavo antes de introduzir histórias como a do guerreiro medieval, identidade secreta de um abridor de vinhos, e a do homem da capa branca, mais facilmente reconhecível na figura de um ovo frito.

Quando foi lançada nos países da América Latina, a obra foi classificada como infantil, embora o autor não tenha feito tal recomendação. Aliás, em uma entrevista, Sclavo declarou que somente os adultos poderiam entender certas brincadeiras e ironias, desfazendo assim o sentido do rótulo. “Os olhos ficaram assim, meio abatidos, por causa dos remédios que tomou em certa ocasião. A palidez é de nascimento”, diz o poema sobre o agente secreto, caracterizado por um grande guarda-chuva aberto sob o qual flutuam dois olhos fundos.

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Os amigos imaginários, por Fidel Sclavo (V&R, 66 págs., R$ 36,90)

O traço infantil é uma das marcas e também uma das conquistas de Sclavo. Ele não procura imitar propriamente as crianças, mas sim recriar o momento de encontro delas com o papel em branco. É nessas ocasiões que o desenho se manifesta em sua forma mais pura, sem a contaminação do olhar dos adultos e das convenções sociais e estéticas, declarou certa vez.

Desenhar e pintar como uma criança significa, portanto, despojar-se de toda a bagagem acumulada ao longo dos anos e que acabam por condicionar, direta e indiretamente, a produção do artista. Por isso, quando ouve alguém dizer que uma criança poderia ter feito seu trabalho – frase que ouve com certa frequência -, Sclavo aceita a declaração como um elogio, da mesma forma que aceita de bom grado quando decidem vender seus livros na seção infantil das livrarias.


Outras leituras

Não derrame o leite!, de Stephen Davies e Christopher Corr
(Pequena Zahar, 32 págs., R$ 39,90)
Com ilustrações vibrantes, o livro narra as aventuras da garota Penda no interior de um vilarejo africano. Cruzando dunas, rios escuros e montanhas muito altas, a garota vai ao encontro do pai para lhe entregar uma tigela de leite em um gesto de afeto e retribuição pelos cuidados recebidos.

O jardim, de Carlos Drummond de Andrade
(Companhia das Letrinhas, 48 págs., R$ 43,90)
Obra construída a partir de trechos de várias crônicas e poemas do escritor mineiro sobre as belezas da natureza e, em particular, dos jardins. O mérito da edição também se deve às belas ilustrações do artista plástico ATAK, que, além de valorizar as palavras de Drummond, instigam a sensibilidade dos leitores.

Tapajós, de Fernando Vilela
(Brinque-Book, 40 págs., R$ 32,30)
Cauã e Inauê vivem às margens do Jari, um pequeno canal que liga o rio Amazonas ao rio Tapajós. Os irmãos vivem em uma casa de palafitas em meio à floresta com os pais e Titi, o jabuti de estimação da família. Mas o personagem principal do livro é, na verdade, o próprio cenário da pequena vila.

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