Questão de método

Leia aqui a matéria de capa de agosto de 2001, sobre métodos de alfabetização, citada no mosaico da edição 108

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Eficiência do construtivismo no processo de alfabetização é questionada por defensores do antigo método fônico




Kristhian Kaminski e Patrícia Gil




A precariedade da alfabetização no País é uma realidade demonstrada não só na falta de letrados como no excesso de números negativos. O Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) mostra que o desempenho dos estudantes da rede pública, que já não era dos melhores, está piorando. Esses indicadores educacionais, nos próximos anos, vão engrossar as fileiras de trabalhadores sem qualificação, desempregados e sem perspectivas sociais. O fracasso das sucessivas tentativas do governo federal em superar essa deficiência é um desafio já resolvido em muitos países desenvolvidos. No Brasil, a polêmica pode estar apenas começando e – dentro das carências estruturais típica de um cenário de subdesenvolvimento – parte da culpa pode estar no método de ensino e na sua falta de adequação à realidade socioeconômica do país.

Até então considerado o que havia de mais moderno e eficaz entre as teorias de ensino, o construtivismo passou a ser alvo mais freqüente de ataques. Mesmo os seus mais fiéis adeptos reconhecem que seu emprego na educação básica brasileira vem sendo, no mínimo, distorcido. O conceito preconiza que é preciso levar em consideração a bagagem cultural adquirida pela criança antes de ingressar na escola. A técnica consiste em apresentar o mundo letrado ao aluno diretamente por meio do texto, mesmo antes que ele seja capaz de decodificar cada palavra.

Pois é exatamente aí que se encontra a raiz do problema brasileiro: os que pregam a concepção construtivista muitas vezes ignoram que esses estudantes-mirins trazem de casa uma bagagem bem mais vazia do que se esperava. Eles herdam dos pais uma história de defasagem educacional. “É a mesma coisa que pegar um texto em alemão, entregar a alguém que não conhece a língua e pedir para ler. Ou pegar uma partitura de Chopin e dar para um iniciante em música”, comenta o professor Fernando Capovilla. coordenador do Laboratório de Neuropsicolingüística Cognitiva Experimental (Lance), do Instituto de Psicologia da USP.

Capovilla afirma que o construtivismo condena as crianças de classes menos favorecidas ao fracasso escolar. Além de questionar a validade da concepção usada no Brasil, ele é um dos mais ferrenhos defensores do emprego do método fônico. Taxado de antiquado por educadores ligados ao Ministério da Educação, o método prevê o básico: ensinar às crianças a correspondência entre sons (fonemas) e letras (grafemas).

Para Telma Weisz, supervisora do programa de alfabetização do MEC, o método fônico sempre teve defensores e sempre terá: “Mas o mundo mudou e ele continuou como era na década de 20. Sempre haverá gente com uma visão mais tecnicista do ensino e para estas o método fônico é mais adequado”. Por aí dá para se ter uma noção do abismo que separa os entusiastas de cada uma das linhas de alfabetização.

A concepção construtivista surgiu em meados da década dos 80, baseada nos estudos de psicogênese da língua escrita apresentados pela educadora argentina Emília Ferreiro. Em 1996, essa linha de ensino foi institucionalizada no Brasil, a partir da publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). No entanto, ao longo da sua implantação ocorreram alguns desencontros entre teoria e prática. O primeiro foi a falta de preparo de muitos professores para lidar com a nova situação. Estes, por sua vez, põem a culpa no sistema. Reclamam, entre outras coisas, que são impedidos de corrigir os erros dos alunos. Isto porque a teoria prega, entre outras coisas, que nas séries iniciais o importante é que a criança exercite a escrita a seu modo e somente numa etapa mais avançada é que se deve introduzir conhecimentos de ortografia e gramática.

Outra distorção é acreditar que o construtivismo é incompatível com métodos de ensino tradicionais. A Espanha é prova de que isso não é verdade. As escolas espanholas também se orientam pela linha construtivista, mas sem deixar de lado o método fônico, empregado para reforçar a capacidade de leitura dos estudantes.

No Brasil, o construtivismo esbarra num grande complicador. Ao se apoiar na bagagem cultural de cada criança, a tendência é de que estudantes oriundos de famílias menos letradas enfrentem dificuldades. Essa lógica é confirmada pelos resultados do Saeb de 1999. Filhos de pais que nunca freqüentaram a escola estão na faixa de desempenho abaixo da média nacional (170 pontos) na prova de Língua Portuguesa, numa escala que vai de 0 a 500. As crianças da quarta série do ensino fundamental nesta condição atingiram 161,3 pontos, contra 200,2 dos filhos de pais com nível superior de escolarização. Segundo o censo educacional de 2000, a média de estudo do brasileiro é de 5,7 anos.

A renda familiar é outro fator que contribui para que uma criança tenha um desempenho melhor ou pior, já que interfere diretamente no grau de acesso da família ao conhecimento, como a compra de livros, por exemplo. De acordo com dados do IBGE, cerca de 60% da população brasileira tem renda familiar média de até cinco salários mínimos.

Pode-se supor com base nesse cenário que o construtivismo teria melhores resultados em países em que a população é mais culta. No entanto, boa parte deles adota métodos considerados ultrapassados pelos que defendem o construtivismo. Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Itália, Canadá e Portugal, para citar alguns exemplos de países desenvolvidos, empregam o método fônico antes de partir para a compreensão e interpretação de textos. Ele, porém, não é aplicado isoladamente, mas como parte essencial de um amplo programa de leitura e escrita (veja quadro). O resultado: segundo números da Unesco, esses países têm taxas de reprovação que não chegam a 5%. Na Alemanha, cujo sistema está centrado no método fônico, a taxa de repetência é de apenas 2%.

É claro que não é só o método o responsável por esses resultados, mas sim toda uma estrutura socioeconômica. No entanto, no grupo de países em desenvolvimento, também há quem aplique o método fônico, integrados a outras ferramentas, com bons resultados. O Chile é um exemplo. Cuba, com uma taxa de repetência de 3%, é outro.

A discussão em torno do método de ensino brasileiro está só no começo. Mas nos Estados Unidos o debate é tão acalorado que vem sendo chamado de reading wars, o que traduzido ao pé da letra seria algo como “guerra na leitura”. Por causa dessa briga, o National Institute of Child Health and Human Development (Instituto Nacional de Saúde da Infância e Desenvolvimento Humano) fez, entre 1997 e 1999, a pedido do Congresso norte-americano, o mais completo levantamento já produzido naquele país sobre métodos de alfabetização. Batizado de National Reading Panel (Painel Nacional de Leitura), a pesquisa tinha como objetivo descobrir se a abordagem fônica era realmente eficaz.

Para executar o trabalho, foi formada uma comissão composta por pesquisadores, representantes de escolas, professores e pais. Numa primeira etapa, o grupo identificou cerca de cem mil estudos sobre alfabetização realizados no país desde 1966 e selecionou os mais relevantes. Foram realizadas diversas audiências públicas, nas quais o tema foi amplamente debatido. A partir desse levantamento, a comissão elaborou um relatório, apresentado ao Congresso em fevereiro de 1999.

A conclusão da pesquisa foi de que as crianças alfabetizadas por meio de métodos fônicos desenvolvem melhor a compreensão e interpretação de textos, além de melhorar a expressão oral. “As descobertas mostraram que ensinar as crianças a manipular fonemas foi altamente efetivo sob uma variedade de condições de ensino e uma variedade de alfabetizandos de diferentes séries e idades”, atesta o estudo. Os participantes do painel destacam que o treinamento em consciência fonética não constitui um programa completo de leitura. “No entanto, ele dá à criança conhecimento essencial sobre o sistema alfabético. É um componente necessário a um completo e integrado programa de leitura”, afirma o relatório.

Outras entidades, como a International Reading Association (Associação Internacional de Leitura), dos Estados Unidos, também defendem a utilização do método fônico. Segundo dados da instituição, 98% das escolas norte-americanas utilizam o sistema em seus programas de alfabetização. “O ensino de fonética, que foca a relação entre sons e símbolos, é um importante aspecto no começo da alfabetização. Porém, uma instrução fônica efetiva deve estar encravada num contexto de leitura e linguagem”, defende a associação. A Educational Resources Information Center (Centro de Informações em Recursos Educacionais) também prega que nenhuma técnica isolada tem bons resultados, mas considera o método fônico parte integrante de um bom sistema de alfabetização.

O Ministério da Educação, a quem cabe elaborar as diretrizes do ensino no país, não admite a hipótese de que o baixo desempenho dos alunos do ensino fundamental e médio no Saeb possa estar associado ao modelo. Aliás, rejeita a redução do construtivismo a um método, no que está certo, mas não aceita a possibilidade de que o sistema talvez precise ser reavaliado.

Para Telma Weisz, o método fônico ignora o que a criança já sabe e reduz o aprendizado a um processo mecânico. Mas ela reconhece que há um movimento “ainda incipiente” que prega mudanças no atual sistema e que, dentro deste quadro, apenas o método fônico tem sido reafirmado como uma alternativa válida. “A minha crítica é que ele reduz o ensino à associação de sons e letras, continua ignorando que a língua não é apenas isso.” Telma ressalta que o construtivismo é um conjunto de práticas, nas quais o ensino é concebido dentro de um modelo de resolução de problemas. “Não há como compará-lo com o método fônico, embora muita gente queira emplacar essa comparação”, critica. Na avaliação da supervisora de alfabetização do MEC, as taxas de repetência no Brasil sempre foram muito altas e, portanto, os métodos de alfabetização tradicionais vinham se mostrando “inadequados desde sempre”.

Países da Europa e os Estados Unidos, segundo ela, só não vinham enfrentando problemas com o método fônico até agora porque sempre tiveram uma população bastante homogênea. Ou seja, em sociedades mais letradas, qualquer técnica de alfabetização tende a ter sucesso. Com o aumento da imigração nos países desenvolvidos, o sistema até então bem sucedido tende a dar sinais de esgotamento. A avaliação de Telma inverte os argumentos dos educadores que acusam o construtivismo de elitista.

O professor Capovilla discorda da posição do MEC. “O Brasil posa de moderno, mas diversos países desenvolvidos usam o método fônico com bons resultados. O Brasil continua na pré-história”, acredita. Para ele, o construtivismo roubou do professor a função de ensinar, ao pregar que o texto seja introduzido desde o início da alfabetização. O método fônico, diz, não impede a introdução de textos no aprendizado, mas prevê que isso ocorra somente depois que o aluno tiver capacidade para decodificá-lo.

Como prova do fracasso do construtivismo entre alunos de classes mais baixas, ele cita uma escola pública de Marília (SP) que, após constatar que as crianças chegavam à 4.ª série do ensino fundamental sem saber ler e escrever, decidiu voltar a empregar o método fônico e conseguiu reverter a situação.

De acordo com especialistas, existem alguns riscos de se introduzir um texto para uma criança que não sabe ler. Um deles é de que ela passe a adivinhar o significado das palavras em vez de compreendê-las e faça associações equivocadas. Um exemplo: se a criança conhece a palavra formiga, ela pode passar a confundir termos parecidos, como formigamento ou formigueiro. Dados do Lacen-USP indicam que o percentual de crianças com dificuldades de leitura gira em torno de 4% no mundo. No Brasil, chega a 10%, fato atribuído por Capovilla ao sistema de ensino brasileiro.

Para a maioria dos estudiosos da área educacional, ainda é possível apostar no construtivismo, desde que ele passe por uma reavaliação. “A questão fundamental é a má interpretação que se faz do construtivismo. Um grande erro é afastar totalmente o método e deixar que a criança aprenda sozinha”, diz a lingüista Magda Becker Soares. Para ela, não se pode voltar ao passado, quando o professor tinha a receita pronta e bastava aplicá-la. “No construtivismo não se dá receita, mas sim meios para acompanhar o processo e interferir na hora adequada. Para isso, o professor tem que conhecer fonologia, além da teoria da aprendizagem e questões de linguagem.”

Na avaliação de Magda, abandonar o construtivismo não é a solução, mas é preciso rever alguns pontos. “Em certos momentos é preciso trabalhar com o método fônico, em outros o método silábico é mais adequado. Há muito exagero dentro das correntes do construtivismo, como abrir mão do material didático, por exemplo.”

A lingüista Idmea Smeghini-Siqueira, professora da Faculdade de Educação da USP, também defende um meio termo. Ao contrário do que se pensa, comenta, o professor continua sendo fundamental. Mas ele precisa conhecer o processo de aprendizagem e a real situação do aluno, que ainda não sabe ler. Para ela, o grande entrave ao processo está em mudar a cabeça de quem ensina. “Alguns entraram em contato com o construtivismo de forma muito superficial e não souberam aplicá-lo. Nesse caso, essa concepção acaba ficando como adorno porque não tem efeito.”

O problema dos baixos níveis de aprendizagem toma contornos mais graves se levarmos em conta que junto com a concepção construtivista muitas escolas adotam processos de progressão continuada. Ou seja, o aluno passa a ser avaliado no final de um período (geralmente ao final da quarta e da oitava séries do ensino fundamental) e até chegar lá vai sendo aprovado mesmo que não tenha aprendido todos os conteúdos necessários.

As pesquisas do MEC, entre elas o Saeb, mostram que o aluno tem melhor desempenho quando está entre colegas da mesma idade. Um estudante da terceira série, por exemplo, tem mais chances de progredir se passar para a quarta série do que se repetir o ano. O sistema de ciclos, porém, acaba por mascarar um problema: a defasagem idade-série está sendo substituída pela defasagem de conhecimento. “O que não pode acontecer é o professor constatar que o aluno chegou à quinta série, por exemplo, sem saber ler, e querer insistir em ministrar o conteúdo previsto”, avalia Ruben Klein, consultor da Fundação Cesgranrio.

Esse tipo de teimosia tem muito a ver com a história do construtivismo no Brasil. Não que a culpa seja toda do modelo. Mas pode estar na insistência cega em não rediscutir um sistema que ainda não demonstrou ser capaz de sozinho melhorar os indicadores de qualidade.

(Colaborou: Silo Meireles)




De mal a pior


Taxa de aprovação pode ser ainda menor nas próximas pesquisas, ao serem considerados os índices de evasão



Os resultados do Saeb de 1999 mostram que os níveis de desempenho dos alunos das quarta e oitava séries do ensino fundamental e da terceira série do ensino médio estão numa tendência de queda se comparados aos de 1997. No caso dos alunos da quarta, a média mínima exigida para Língua Portuguesa varia de 150 a 200 pontos. Apesar de estar dentro dessa margem, a nota média dos alunos caiu de 186,5 em 1997 para 170,7 em 1999. No caso da oitava série, cuja média deve ficar entre 200 e 250, a nota baixou de 250 para 232,9. E entre os estudantes do ensino médio, cujo padrão exigido vai de 250 a 300 pontos, a nota média caiu de 283,9 para 266,6.

Quando se fala em médias gerais, até pode parecer que a situação não é das piores. Mas Ruben Klein, da Fundação Cesgranrio, faz um alerta: “O Saeb mostra que boa parte dos alunos tem um déficit de conhecimento preocupante, que vai aumentando ao longo dos anos. Muitos alunos de quarta série apresentam nível de conhecimento compatível com os de segunda. No caso dos alunos de oitava, eles estariam num nível de quinta. E na terceira série do ensino médio o atraso é ainda maior: muitos estariam num nível de sétima série”.

Klein faz duras críticas ao sistema de progressão continuada e diz que o aluno deve sim ser avaliado. “Não é proibido aplicar testes. Quando se proíbe isto é um desastre. Os testes não são para punir o aluno com a reprovação, mas sim para avaliar o processo, para ver se o conteúdo que está sendo ministrado precisa ser revisto”, afirma.

Segundo ele, as taxas de evasão escolar continuam altas. Em 1999, elas eram de 18%, o que equivale a 6,5 milhões de estudantes. Para Klein, a maior parte destes abandonou a escola porque não estava aprendendo. Por causa da evasão, os índices de aprovação devem piorar nos próximos levantamentos. Até agora, ao calcular o número de alunos que passavam de ano, o MEC ignorava os que deixavam a escola – distorção que já está sendo corrigida. “A alteração no cálculo pode dar uma diferença de até 20%. Uma escola com taxa de aprovação de 70%, ao considerar a evasão, pode ver esse número cair para 50%”, argumenta.

Na média geral, a taxa de reprovação no ensino público brasileiro gira em torno de 20%. De acordo com o MEC, a repetência em 1999 chegava a 35% na primeira série do ensino fundamental. O índice é alto também entre os alunos da segunda série, chegando a 22%. Ele cai para cerca de 15% na terceira e quarta séries e volta a subir na quinta, quando atinge 24%. Para se ter uma idéia, países vizinhos como a Argentina e Chile têm taxas de repetência de apenas 5%.




Revolução conservadora


Escola da periferia de Marília contraria recomendação do MEC e adota com sucesso o método fônico




Localizada na periferia do município de Marília (SP), a Escola Municipal Fundamental Professor Nelson Gabaldi era um retrato do fracasso do ensino público. Há dois anos, de uma turma de quarenta alunos matriculados na quarta série, dez não sabiam ler e escrever. Na primeira série, a situação era ainda pior: metade dos alunos terminava o ano sem estar alfabetizada. “Aqui nós não aplicamos o construtivismo de jeito nenhum. O sistema dá certo para aluno rico, não para as nossas crianças, que não tem um livro sequer em casa”, diz a diretora Ilza Seabra.

A escola, com 650 alunos, passou a empregar o método fônico e, segundo a direção e os professores, está conseguindo alfabetizar os alunos. “A Secretaria de Educação adota a linha construtivista, mas nos deu uma espécie de liberdade vigiada para mudar de tática”, explica Ilza.

Para corrigir as deficiências dos alunos, foi preciso realfabetizá-los. “Pegamos os estudantes de todas as séries que não sabiam ler e recomeçamos do zero com o método fônico”, afirma a diretora. A professora Pedra Bertazzi de Camargo, da quarta série, diz que acompanhou na escola crianças alfabetizadas pelo construtivismo e pelo método fônico e notou que a diferença é grande em favor das últimas. Hoje, apenas dois alunos entre quarenta não sabem ler e escrever adequadamente, média cinco vezes menor do que há dois anos. “Com crianças carentes, sem estrutura, não dá para aplicar o construtivismo”, comenta.

A professora Ana Cláudia de Souza, da primeira série, vai mais longe: “No meu primeiro ano aqui na escola eu trabalhei na concepção construtivista, na qual eu até acreditava na época. Mas depois que passei a usar o método fônico e vi os resultados, percebi o mal que tinha feito com meus primeiros alunos.”





O ABC das correntes de ensino





Tradicional

: É uma proposta de educação centrada na figura do professor. O princípio é a transmissão de conhecimentos por meio da aula, freqüentemente expositiva, numa seqüência pré-determinada e fixa que enfatiza a repetição de exercícios com exigência de memorização. Muitas vezes não leva em consideração o que a criança aprende fora da escola.


Montessoriana:

Criada em 1907, na Itália, pela fisioterapeuta e educadora Maria Montessori, essa concepção prega a auto-educação dos alunos com apoio de materiais didáticos. O professor assume um papel de observador e incentivador. A aprendizagem automotivada e individualizada é a essência do método.


Renovada:

Trata-se de uma concepção que inclui várias correntes, as quais defendem a chamada Escola Nova ou Escola Ativa. Prega a valorização do indivíduo como ser livre, ativo e social. O centro da atividade escolar não é o professor nem o conteúdo disciplinar, mas sim o aluno, como ser ativo e curioso. O mais importante não é o ensino, é o processo de aprendizagem. O professor é um facilitador. A idéia do ensino guiado pelo aluno, em muitos casos, acabou por desconsiderar a necessidade de um trabalho planejado sobre o que deve ser ensinado e aprendido.


Tecnicismo:

Nos anos 70, surgiu um conceito batizado de “tecnicismo educacional”. O que é valorizado nesse conceito é a tecnologia empregada. O professor passa a ser um especialista na aplicação de manuais e sua criatividade fica subordinada aos limites da técnica utilizada. Instituiu uma prática pedagógica altamente controlada e dirigida pelo professor.


Libertadora:

No final dos anos 70 e início dos anos 80, ocorre uma intensa mobilização dos educadores por uma educação crítica a serviço das transformações sociais, tendo em vista a superação das desigualdades. A pedagogia libertadora tem suas origens nos movimentos de educação popular que ocorreram no final dos anos 50, interrompidos pelo golpe militar de 1964. Nesta proposta, a educação está centrada na discussão de temas sociais e políticos. O professor é um coordenador de atividades que atua conjuntamente com os alunos. O método Paulo Freire pode ser enquadrado dentro desta linha.


Crítico-social:

A pedagogia crítico-social, que surge no final da década de 70, aparece como uma reação de alguns educadores à corrente libertadora, considerada omissa em relação ao chamado “saber elaborado”. A concepção defende que não basta apenas discutir questões sociais da atualidade, mas que é necessário também enfatizar o conhecimento histórico.


Piagetiana:

Surge com maior evidência a partir dos anos 80, baseada nos estudos de psicologia genética conduzidos por Jean Piaget. Nesta concepção, o enfoque está centrado no caráter social do processo de aprendizagem. Considera que além do domínio dos conhecimentos formais para uma participação crítica na sociedade, também é necessária uma adequação pedagógica às características de um aluno que pensa. Esse enfoque trouxe para a educação aspectos relevantes, principalmente no que diz respeito à forma de entender a relação entre desenvolvimento e aprendizagem.


Construtivista:

É a linha atualmente seguida pelas escolas públicas brasileiras, preconizada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Surgiu em meados dos anos 80, a partir de estudos sobre a psicogênese da língua escrita, conduzidos por Emília Ferreiro e Ana Teberowsky. Enfatiza o conhecimento que a criança já tem antes de ingressar na escola. O processo de alfabetização está focado principalmente na língua escrita, ou seja, na leitura. Em alguns casos, no entanto, existem distorções na aplicação do conceito. Uma delas é a de que não se deve corrigir os erros dos alunos. Outra distorção é confundir o construtivismo com um método ou afirmar que ele é incompatível com outras técnicas.


Método sintético:

Termo utilizado para se referir à maneira como se alfabetiza a criança nesse processo. É mais usado em escolas que adotam metodologias e posturas tradicionais. A alfabetização é feita a partir de elementos mais simples – letra, fonema ou sílaba – que são combinados, formando as sentenças. Pode ser alfabético, fônico ou silábico.


Método global:

Tem como ponto de partida elementos significativos, unidades de sentido – palavras, sentenças ou pequenos textos -, que são usados para levar ao conhecimento dos elementos fonéticos. Pode ser dividido em palavração, sentenciação ou unidades de experiências, dependendo do elemento que se emprega na alfabetização. Existe ainda o método chamado de analítico-sintético, que mescla todos os elementos.





Método fônico funciona


Algumas conclusões do National Reading Panel a respeito da eficácia do método empregado nos Estados Unidos:

· A manipulação de fonemas é altamente eficaz sob as mais variadas condições de ensino. A consciência fonológica amplia significativamente a capacidade de leitura da criança, mais do que qualquer outra técnica que desconsidera aspectos fônicos.

· O método fônico não é uma técnica completa de ensino, embora forneça às crianças conhecimento fundamental do sistema alfabético. Mas é parte essencial num programa de alfabetização de sucesso. É preciso, porém, desenvolver a consciência fonológica, ou seja, não ficar limitado ao ensino da relação letra/som e sim aplicar os ensinamentos à compreensão de textos.

· A aplicação sistemática do método fônico produz benefícios em estudantes do jardim de infância à sexta série (acima disso ficou comprovado que a técnica pouco acrescenta aos estudantes) e para crianças em geral com dificuldades de leitura. O estudo também verificou que o desempenho dos alunos é pior em classes que usam menos o método fônico.

· Alunos que foram alfabetizados por meio do método fônico demonstram melhor capacidade para decodificar textos e ler em voz alta.

· Os efeitos do método fônico são mais substanciais nas etapas iniciais (jardim de infância e primeira série) e, portanto, ele deve ser implementado nestas séries.





Países e métodos



Brasil: Construtivismo –

 Concepção que se apóia no conhecimento adquirido pelo aluno antes de ingressar na escola. O texto escrito é a base do programa de alfabetização. A criança é incentivada a ler desde o começo e a reconhecer palavras que fazem parte do seu cotidiano. Não está associada a outras técnicas de ensino.


Alemanha: Método misto –

Os estudantes têm liberdade para opinar sobre as ferramentas que serão utilizadas e não há um método fixo. O método fônico, baseado num conjunto de cartões em que são associas letras a imagens, é aplicado nas séries iniciais. Até que a criança esteja apta a decodificar um texto, a leitura é sempre feita com a ajuda deste sistema.


Itália: Método misto –

Desde 1995 o país deixou de adotar apenas um método de ensino e passou a empregar uma concepção chamada de natural. O sistema italiano trabalha simultaneamente com instrução fônica, técnicas visuais e leva em conta também a experiência prática da criança a partir dos seis anos de idade.


Chile: Método holístico –

O modelo utiliza o método fônico, mas não parte dos sons das letras isoladamente e sim das sílabas. O ensino baseado nos fonemas vem diretamente associado à compreensão do texto escrito, como forma de estímulo à leitura.


Israel: Método fônico –

 A maioria das escolas israelenses utiliza material didático que se apóia no ensino da relação entre sons e letras. No entanto, muitas são as escolas que usam ao mesmo tempo métodos alinhados à concepção construtivista.


Espanha: Construtivismo –

As escolas espanholas partem do princípio que o texto integral deve ser usado desde o início da alfabetização e que a bagagem das crianças deve ser considerada. No entanto, as escolas utilizam diversos métodos, entre eles o fônico, para melhorar o desempenho dos alunos na compreensão de textos.


Inglaterra: Método fônico –

 O sistema de ensino inglês defende que a criança não aprende a ler simplesmente sendo colocada em contato com textos, sem a introdução de conhecimentos fônicos. O método prevê passos: primeiro a criança aprende a associar sons e letras, passa para o aprendizado de palavras e sentenças, para depois ter contato com textos integrais.


Portugal: Construtivismo –

 A exemplo da Espanha, Portugal também adota a concepção construtivista, tendo o texto como ponto de partida na alfabetização, sem deixar de lado o método fônico e cartilhas didáticas.



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