Questão de inclusão

Um ideal de educação inclusiva traz em seu cerne o direito de todos à educação, independentemente das dificuldades do aprendente por Eugênio Cunha No …

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Um ideal de educação inclusiva traz em seu cerne o direito de todos à educação, independentemente das dificuldades do aprendente

por Eugênio Cunha

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No Brasil, o tema inclusão tornou-se bastante discutido e abraçado por diferentes segmentos da sociedade. Muito se fala da inclusão escolar, social, para o trabalho e, mais recentemente, da inclusão para o mundo digital. No que tange à educação, os movimentos inclusivos começaram a ganhar força a partir da segunda metade do século 20. Anteriormente, o ensino era ministrado em instituições especiais para crianças e jovens que não podiam ter acesso à escola comum, pois se acreditava que não conseguiriam avançar no processo educacional. A educação especial era um sistema paralelo ao ensino comum.

No entanto, movimentos pelos direitos humanos representariam o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas e comportamentais, que afetariam a sociedade de uma maneira irreversível, sensibilizando seus membros quanto aos danos que a segregação e a marginalização dos grupos minoritários traziam. Danos não somente morais para as minorias, mas também econômicos para os governos, pois era visível o elevado custo desses programas.

Assim, a partir da década de 1960, um novo modelo, que ficou conhecido como “integração”, pretendia inserir alunos com deficiência no ensino regular, usando meios normativos para adaptá-los aos comportamentos considerados adequados. Apesar de ser um avanço, todavia, o princípio pressupunha um conjunto de normas comportamentais que deveriam atender a um padrão considerado ideal, segundo critérios estabelecidos. Dessa forma, para o aluno ter sucesso no processo educacional, era necessária a sua adaptação a esses padrões comportamentais.

Na prática, a integração de alunos com necessidades especiais não era um processo fácil. Fatores, principalmente de natureza acadêmica, contribuíram para a discriminação desses educandos. A integração na sala de aula era apenas física, pois os estudantes “integrados” tinham menos oportunidades de aprendizagem. Para que a classe regular fosse um ambiente menos restritivo seria necessário capacitar os professores para lidarem mais eficazmente com os problemas acadêmicos e sociais do aluno da educação especial.

A partir daí, a busca por uma integração efetiva ganha força e respeito à diversidade, exigindo mudanças no papel da escola para responder melhor às necessidades do corpo discente. Começava a surgir a partir do ano de 1990 o conceito de inclusão, que defendia a adaptação de todos os sistemas de ensino para atender às especificidades dos alunos da educação especial.

Assim, a educação especial passou a ser vista como uma modalidade de ensino definida por uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especiais, organizados institucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades de todos os educandos. Na educação especial, o ensino de surdos e de cegos conta com algum respaldo educacional, no que tange a metodologias de ensino e formação docente, como a realização de cursos de Libras ou braile. Mas os professores encontram grande dificuldade na educação de alunos com deficiência intelectual, autismo e outros transtornos comportamentais, em que não há formação nem metodologia específicas.

De fato, encontramos, sim, alunos com deficiência sensorial no ensino médio e também no superior, bem como alunos com deficiência física, desde que haja adaptações arquitetônicas nas instituições que favoreçam a acessibilidade. No entanto, o ideal da inclusão ou da educação inclusiva traz em seu cerne o direito de todos à educação, independentemente do nível de ensino e das dificuldades do aprendente.

Se as condições de aprendizagem acadêmica de um aluno com deficiência intelectual são limítrofes e notórias, há, contudo, estudantes com autismo, TDAH, dislexia, transtorno afetivo bipolar e outras, que poderiam cursar uma faculdade, mas que não conseguem porque os sistemas de ensino não estão preparados para recebê-los e nem prepararam seus docentes para educá-los. Algumas ações que dariam a esses discentes maiores condições para continuarem seus estudos no ensino superior poderiam ser facilmente implantadas, tais como: uma maneira de ensinar adaptada ao aprendizado de cada um; avaliação contextualizada à realidade do aluno; currículo flexível e atua­lizado às demandas da diversidade educacional; rejeição de um modelo de ensino que tenha por base exclusiva o diagnóstico médico, mas que se amplie para um modelo funcional de aprendizagem; e a criação de grupos colaborativos interdisciplinares etc.

Isto não é querer muito, é apenas estender para alguns um direito que é de todos: o direito à educação. É pertinente para a educação a compreensão de que nós temos traços particulares que ao mesmo tempo nos distinguem e nos aproximam. São elementos da diversidade, características indissociáveis da condição humana. As nossas diferenças são as nossas semelhanças.

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