“Quem perde é a sociedade”

Para psicóloga, diagnósticos de TDAH não têm método

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Enquanto 58% das crianças e adolescentes encaminhadas ao Programa de (Re)Habilitação Cognitiva e Novas Tecnologias da Inteligência da Faculdade Ruy Barbosa, em Salvador (BA), usavam metilfenidatos para tratar o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, apenas 20% deles são portadoras da doença. Foi o que mostrou pesquisa realizada com 101 pacientes, entre 5 e 17 anos, atendidos entre 1999 e 2004.





Para realizar a pesquisa, foram feitos testes psicológicos e de neuropsicologia, que seguiram os conceitos do educador e pesquisador bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) e do neuropsicólogo russo Alexander Luria (1901-1978), tais como prova de atenção voluntária e de sintaxe. Foram também realizadas provas psicomotoras.





Os resultados mostram – na avaliação da coordenadora da pesquisa, a psicóloga Taya Soledade, especialista em neuropsicologia luriana – que os instrumentos e a metodologia que normalmente são utilizados para realizar o diagnóstico são ineficazes. “Apenas os sintomas aparentes no comportamento da criança são avaliados, não o funcionamento neuropsicológico.”
 

Em entrevista a
Educação

, Taya critica o excesso de prescrições dos metilfenidatos e a influência dos laboratórios sobre o meio médico.







A que você atribui tal quantidade de diagnósticos equivocados?









Os instrumentos e a metodologia que normalmente são utilizados para realizar o diagnóstico são ineficazes. O questionário do DSM-IV, ou as escalas direcionadas aos pais e aos professores, são falhos na diferenciação de síndromes neuropsicológicas que apresentam sintomatologias semelhantes e que, entretanto, são completamente distintas. Apenas os sintomas aparentes no comportamento da criança são avaliados, não o funcionamento neuropsicológico da criança.








 









O que se sabe hoje com relação aos efeitos do uso do metilfenidato?








Há pesquisas que apontam para problemas no crescimento, disfunções sexuais e problemas no funcionamento cerebral como fazendo parte da lista de efeitos colaterais resultantes do uso duradouro do metilfenidato. Nos EUA já se pode encontrar crianças com um ano de idade fazendo uso da medicação. Fica, então, a questão: como é feita a avaliação de crianças tão novas? Como os médicos conseguem chegar a um diagnóstico tão precoce? Qual serão os efeitos da utilização dessa droga desde uma idade tão tenra? É isso o que queremos para as crianças do nosso país?






 








Quais poderiam ser as causas para tantas prescrições?









O poder econômico dos laboratórios de remédios é muito grande. Eles patrocinam muitos eventos relacionados a temas médicos. Inclusive, há livros que são usados como referência no que diz respeito ao TDAH e que foram financiados por laboratórios, como
No Mundo da Lua

(
do psiquiatra
Paulo Mattos, publicado pela Editora Lemos




)


.








 









Qual a visão da neuropsicologia luriana sobre o TDAH?








Para a neuropsicologia luriana, o TDAH seria uma disfunção neuropsicológica que acontece quando a linguagem não consegue exercer sua função reguladora, ou de controle do comportamento. Isso causa um problema na antecipação e no planejamento do ato voluntário, ou seja, a ação conscientemente orientada para um objetivo específico. O transtorno não-verbal do aprendizado, por outro lado, apesar de ser também um problema na ação voluntária, não afeta a capacidade de antecipar e planejar, mas dificulta o ato no momento de pô-lo em curso, de executá-lo. Dessa forma, é preciso que a avaliação investigue esse funcionamento e detecte onde há problema: se na antecipação ou na execução, e se a linguagem exerce sua função reguladora. A intervenção deve ter como objetivo fazer com que a criança consiga controlar o próprio comportamento utilizando a linguagem e seu poder de regular a ação. Esta é introduzida em cada ato consciente, de modo a estimular na criança o seu uso no momento de organizar e controlar suas atitudes. Pesquisas produzidas pelos psicólogos Luis Quinatanar e Yulia Solovieva, professores de um curso de mestrado da Universidade Autônoma de Puebla (México), divulgam que a utilização do metilfenidato não só não ajuda no tratamento do TDAH, como também atrapalha os resultados da intervenção neuropsicológica.






 








Então, vocês são contra o uso do medicamento?








Não. Na verdade, há casos que encaminhamos ao neurologista sugerindo a introdução do metilfenidato. O que questionamos é a metodologia de avaliação geralmente utilizada. Pedimos métodos mais eficientes e responsáveis de avaliar e somos contra, isto sim, a utilização indiscriminada da droga. Nós queremos que a população (os pais especialmente) tenham pelo menos a possibilidade de optar, coisa que os médicos não têm permitido. Na verdade, curiosamente, alguns os profissionais de Salvador que trabalham na área têm dito que as idéias de Luria estão ultrapassadas. Bom, dessa forma o uso do metilfenidato continua sendo a única alternativa ao tratamento do TDAH e os laboratórios continuam enriquecendo e financiando interesses individuais. Quem perde é a sociedade.




 


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