Coordenador pedagógico deve fazer ponte entre escola e família

Uma das responsabilidades desses profissionais é explicar aos pais as fronteiras entre a cultura familiar e a instituição escolar

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A ideia de que a escola é a “extensão da casa” das pessoas e que os professores devem ser chamados de “tios” ou “tias” ainda permeia o imaginário de muitas famílias e gera mal-entendidos que nem sempre podem ser desfeitos com facilidade. O coordenador do Ensino Fundamental II do colégio Albert Sabin, Laércio Carrer, conta que esse conceito foi muito difundido na sociedade brasileira durante as décadas de 1970 a 1980 gerando, no decorrer dos anos, frustrações para os dois lados.

Carrer considera que os coordenadores devem ter em conta esse histórico para entender a lógica que está por trás do raciocínio de algumas famílias, evitando situações de embate. Principalmente nas escolas particulares, ele acredita que há uma pressão maior para a instituição se adaptar à cultura familiar e, como exemplo disso, menciona os pedidos dos pais para que o calendário escolar seja adaptado em função de viagens, quando o correto seria o contrário. “O coordenador precisa entender essa lógica e trabalhar educativamente com os adultos”, aconselha.

Do lado das escolas públicas, José Cerchi Fusari, pesquisador da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, avalia que os coordenadores devem ter em mente que a função primordial da escola é fomentar o desenvolvimento da aprendizagem dos alunos. “É preciso ter clara essa responsabilidade, para que a instituição não queira se tornar ‘redentora da humanidade’, assumindo funções para além do seu papel”, opina.

Apesar disso, Fusari avalia que é preciso trazer a família para dentro da escola e também educá-la, para não dar a impressão de que os pais são um “mal necessário”. “A escola pode introduzir conhecimentos na cultura familiar, algo muito importante, por exemplo, em assuntos relativos à tolerância religiosa, violência e educação sexual”, afirma.

Beatriz Gouveia, coordenadora de projetos no Instituto Avisa Lá e professora da pós-graduação no Instituto Vera Cruz, concorda com Fusari ao defender a participação dos pais em eventos relacionados aos projetos desenvolvidos em sala de aula, entre eles a formação leitora dos alunos. “A presença da família em saraus e rodas de leitura, por exemplo, pode colaborar com o desenvolvimento dos estudantes”, pondera.

Sem baixar a guarda

No que diz respeito a esse relacionamento, aproximar a família do processo de aprendizagem faz parte das preocupações de Catia Marina, coordenadora pedagógica do Colégio Estadual Chico Anysio, no Rio de Janeiro. Para isso, cada aluno recebe um caderno, no qual consta o plano de estudos de todas as disciplinas a serem oferecidas no bimestre. Nesse documento, o estudante deve apontar o que mais gostou naquele assunto e o que poderia ser feito para melhorar seu aprendizado na área. “Com esses registros, o conhecimento passa a ter um sentido à vida dos alunos e os pais conseguem acompanhar as matérias que são dadas na escola”, conta.

Por outro lado, Beatriz, do Avisa Lá, defende que a escola tenha clareza dos seus princípios e jamais fique vulnerável aos desejos de interferência pontuais dos pais. “Se a família apresenta alguma queixa, o coordenador deve ter abertura para escutar, mas nunca ferir o projeto político-pedagógico”, resume.

Nesse sentido, Patricia Regina Infanger Campos, orientadora pedagógica da rede municipal de Campinas e autora do livro Ensinar e aprender – Coordenação pedagógica e formação docente, considera positivo as escolas que se abrem à participação dos pais, mas somente quando esse envolvimento serve para ajudar na elaboração de objetivos e demandas comuns da comunidade escolar. “Há um limite delicado para essa interferência, pois muitos pressionam a escola, por exemplo, por conta do vestibular, algo que nem sempre é compartilhado por toda a comunidade”, alerta.

Para evitar mal-entendidos entre escolas e famílias, Adriana Stella Pierini, pedagoga e pesquisadora colaboradora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada (Gepec) da Faculdade de Educação da Unicamp, orienta que o projeto político-pedagógico da instituição seja apresentado às famílias logo na primeira reunião. De acordo com ela, há questões que são óbvias aos educadores, porém não às famílias. “Explicar, por exemplo, por que é importante que as crianças usem todos os espaços da escola ou se relacionem com os alunos maiores deixa os pais esclarecidos e respalda o trabalho do professor”, detalha.

 “Estamos lidando com uma nova tendência: A FAMÍLIA INTERESSADA”
© Gustavo Morita

Juliana dos Reis Domingos, coordenadora pedagógica na rede municipal de São Paulo

“Apesar de a participação dos pais na construção do projeto político-pedagógico estar prevista por lei, são raros os casos em que esse envolvimento ocorre de fato. No começo deste ano, fui surpreendida por um pai ávido por conhecer o PPP da escola. Há uma tendência nova: as famílias querem saber o que é feito com seus filhos no tempo que eles passam na instituição, buscando participar de atividades que vão além das festas juninas e dias dos pais. A escola deixou de ser vista como um depósito de crianças. Porém, esse envolvimento deve ser organizado. No começo do ano, por exemplo, quando já foi feito um balanço em relação às metas do período anterior, acho importante convidar as famílias para retomar a discussão sobre os objetivos propostos pelo PPP para o ano em curso. Depois, nas reuniões periódicas para atualização desses objetivos e desafios, também se deve escutar toda a comunidade escolar e inclusive discutir e ponderar alguns anseios particulares de cada família. Somente em reuniões para discussão de partes mais técnicas do PPP, acredito que as famílias não devem participar, sendo que a equipe gestora pode levar as questões mais relevantes e resumidas aos pais em futuros encontros.”

 

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