Quebra de resistência

Alunos do Colégio 12 de outubro, em São Paulo: alunos "nativos digitais" e professores que abdicaram das aulas expositivas A implantação de tecnologia nas …

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Alunos do Colégio 12 de outubro, em São Paulo: alunos "nativos digitais" e professores que abdicaram das aulas expositivas

A implantação de tecnologia nas escolas brasileiras é irreversível. Programas e investimentos governamentais buscam universalizar o uso da informática nas instituições públicas e as particulares vão se equipando até como estratégia de mercado. Enquanto isso, educadores, que já atuam num ambiente de ensino permeado pelos recursos digitais, refletem sobre os métodos pedagógicos e buscam soluções para aperfeiçoá-los.

De acordo com dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), em 2003, a partir de uma amostragem de 229 escolas públicas, privadas e rurais, o Brasil tinha em média 23 computadores por escola, dos quais 11 disponíveis para os alunos, 8 para a administração e 5 para os professores. Além disso, 42% das instituições estavam conectadas à internet por banda larga.

O Ministério da Educação tem investido para ampliar a "inclusão digital" na Educação Básica pública. O Programa Nacional de Tecnologia Educacional (Proinfo) já instalou 180 mil computadores, capacitou professores e distribuiu conteúdos por meio de DVDs, portais na internet e pela TV Escola. O programa Banda larga na escola tem como objetivo implantar acesso rápido à internet em cerca de 57 mil instituições, 24 mil das quais já equipadas. O mais audacioso, porém, é o programa Um computador por aluno, para a distribuição de notebooks, 150 mil em processo de licitação. Em paralelo, governos estaduais e municipais mantêm seus projetos de informatização, alguns em parceria com o MEC.

Empresas especializadas em tecnologia educacional têm investido no desenvolvimento de produtos para acompanhar. A Positivo Educacional, a maior do setor no país, já forneceu notebooks, lousas multimídia e portal de conteúdo na internet para cerca de 2,7 mil escolas privadas e cerca de 11 mil públicas. De acordo com André Caldeira, vice-presidente do braço educacional da Positivo Informática, a empresa parte do princípio de que é preciso sincronizar o ensino à atual era digital. Ele considera que a implantação de tecnologia na sala de aula dinamiza as aulas, tornado-as mais atraentes para os alunos. "Perante o professor, há ganhos que podem significar uma maior disciplina dentro da sala de aula porque os alunos, mais engajados e motivados, vão ficar mais focados e prestar mais atenção", diz.

O Colégio 12 de Outubro, situado na cidade de São Paulo, mantém laboratório de informática desde os anos 1990, e em 2008 resolveu incrementar a oferta de recursos tecnológicos aos alunos. Entre as aquisições estão notebooks usados pelos alunos em  atividades como pesquisas, elaboração de textos e avaliação on-line. De acordo com a diretora pedagógica Adriana Silveira Garcia e a coordenadora do fundamental I, Ana Maria Cavaleiro Mastrandonakis, a adoção desses equipamentos teve como objetivo acompanhar as mudanças e inovações tecnológicas da sociedade: "Nossos alunos estão inseridos nesse contexto, são nativos digitais, já nasceram na era digital". A chegada das máquinas não criou nenhum conflito com os professores, uma vez que o uso de computadores já fazia parte da rotina pedagógica do 12 de Outubro. Mas, para tirar melhor proveito dos notebooks, "foram realizados encontros de sensibilização para enfocar as possibilidades do uso dessa tecnologia, explorando todos os ambientes do colégio", afirmam as educadoras.

"Hoje já temos um público de professores abertos, interessados e confiantes no uso de tecnologia. Até dez anos atrás a gente enfrentava muito mais resistência", afirma Neide Tavares, pedagoga e consultora na área de tecnologia educacional. Para ela, essa mudança de atitude se deve à popularização da informática e à vivência que os docentes tiveram em seus cursos de graduação.

A pedagoga afirma que há variadas mídias que podem ser usadas no processo de aprendizagem além da informática, entre as quais filmes, rádio e material impresso, como livros, apostilas, gibis e revistas. E que todas elas propõem uma mudança de postura na sala de aula. Para Tavares, "o professor não vai mais dar uma aula expositiva, vai dar espaço para o aluno buscar o seu conhecimento e produzir". Caso contrário, explica, "o aluno vai embora, nem olha mais para o professor".


Oportunidade e oportunismo


Com mais de 20 anos de experiência como professor de português e literatura do ensinos fundamental II e médio, Marcelo Donatti de Jesus afirma que alguns professores "forçam a barra" para usar novidades tecnológicas em aulas, não por necessidade mas como uma forma de atrair alunos e pais. Além disso, acrescenta: "Muitos projetos pedagógicos estão sendo criados para que alguma tecnologia dos dias atuais apareça na escola de modo a transmitir a idéia para a sociedade de que os colégios são inovadores. Então entendo que é muito mais uma questão oportunista que educacional e pedagógica".

Donatti utiliza alguns recursos em suas aulas e acredita na tecnologia como ferramenta para facilitar a prática de propostas predefinidas. Ele conta que ao longo de sua prática descobriu caminhos facilitadores para a realização de projetos. Uma experiência que considera positiva foi propor aos alunos "a exposição de um texto literário de forma criativa com o objetivo de despertar o interesse e a curiosidade do espectador". Depois de conversas com os alunos, resolveram que  produzir "clipes poéticos" seria o mais adequado para alcançar os fins. Segundo o professor, conforme a idéia foi se desenvolvendo, os próprios alunos foram em busca de meios para facilitar a comunicação, como a utilização de imagens e sons, e de um software editor de vídeos. "Quando a proposta foi oferecida aos alunos, eles não tiveram previamente nenhuma indicação para a tecnologia a ser usada. A tecnologias foram buscadas a partir das necessidades que apareceram ao longo do processo", conta. No final, avalia Donatti, o resultado foi surpreendente: "Eles subverteram o que antes era sabido e comunicaram para os espectadores visões que passavam despercebidas nos textos".

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