Que educação é esta?

O discurso poético proporciona uma experiência educativa cuja base é a experiência, já que ensina o leitor a ouvir, tocar e degustar o mundo

Compartilhe
, / 978 0

A leitura atenta da poesia nos faz pensar. Essa experiência pensante está em conexão com emoções e imagens, com sonoridades e metáforas. O leitor atento mergulha no discurso, permite que as imagens penetrem em sua imaginação, que os sons passeiem em sua mente, que as emoções transbordem em seu coração, que as metáforas atuem sobre sua visão de mundo. E por isso aprende coisas novas.

O poema nos leva de volta para o cotidiano de uma forma inusitada. É o paradoxo da poesia. Esta fuga – como dizia Mario Quintana – em direção à realidade. Entramos no poema e, em vez de perder o rumo, reencontramos o caminho de volta.

O corpo do poema nos ensina a colocar nosso corpo dentro da realidade, a colocar os dois pés no mundo, a ver, ouvir, tocar e degustar o mundo. Para a poesia, nada é imundo. A poesia abre nosso apetite para conhecer e viver mais intensamente.

Dentre os poetas brasileiros contemporâneos, destaca-se Afonso Romano de Sant’Anna. Seu primeiro livro,
Canto e palavra

, é de 1965. São quase cinquenta anos de constante produção poética, dialogando com a realidade brasileira, com as perplexidades do indivíduo e da sociedade, com os sofrimentos e alegrias do nosso tempo.


Aprendizados poéticos



E desse diálogo poético surgem iluminações. No seu livro
Textamentos

(de 1999), em que textos e testamento se fundem, um dos poemas chama-se
Aprendizados

:

Uns aprendem a nadar
outros a dançar, tocar piano,
fazer tricô e a esperar.
Na infância cai-se
para se aprender a andar,
cai-se do cavalo e do emprego
aprendendo a viver e a cavalgar.
Em alguns aprendizados
chega-se à perfeição.
Em alguns.
No amor, não.

Em seu despojamento, o poema nos assegura que o ser humano é perfectível. Conseguiremos atingir a excelência, a expertise, em certas atividades, destacando-nos na vida profissional, no campo artístico, na prática esportiva. Trata-se de um longo trajeto, em que as quedas acabam se tornando boas lições, impulsos para acertar. No aprendizado amoroso, porém, seremos sempre imperfeitos. O aprendizado sempre incompleto na arte de amar não elimina nossa capacidade de aperfeiçoamento. O amor é exceção que confirma nosso desejo de perfeição. Essa limitação é positiva, na medida em que contrasta com a infinitude do amor.

Nas provas de amor seremos constantemente reprovados. E teremos de refazer essas provas, cada vez mais exigentes e sutis.

Outro aprendizado se encontra no poema
Que país é este?

, de 1980. O Brasil começava a sair de um tempo de censura e medo. Era preciso perguntar outra vez sobre a realidade nacional:

Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.
Uma coisa é um país,
outra um regimento.
Uma coisa é um país,
outra o confinamento.
[…]
Uma coisa é um país,
outra um fingimento.
Uma coisa é um país,
outra um monumento.
Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.
[…]
Uma coisa é um país,
outra uma cicatriz.
Uma coisa é um país,
outra a abatida cerviz.
Uma coisa é um país,
outra esses duros perfis.

Para saber a resposta, Afonso Romano elimina o que não pode ser um país livre. Trilhando o não, quer delinear o sim. Partindo do intolerável, projeta a utopia. Essa “coisa” ainda indefinida, mas que será mais amável, surgirá aos poucos, à medida que a “outra coisa” for exorcizada.

Esconjurando o país como mero ajuntamento ou aglomeração, invoca o país da união, da solidariedade. Negando o país como regimento, em que o cidadão é reduzido a soldado, vislumbra um país voltado para a paz. Repudiando o país dos perfis insensíveis, anseia por um país de rostos serenos e alegres. Vai compondo, portanto, à força de contrastes, sem nomeá-la ou descrevê-la, uma pátria que lhe parece melhor.

O raciocínio dos versos pode inspirar outras especulações e buscas. Em lugar de querer saber que país é este, poderíamos nos perguntar… que educação é esta?



A educação e outras coisas


Uma coisa é a educação, outra a exclusão. Uma coisa é a educação, outra a intimidação. Uma coisa é a educação, outra a falta de opção.

A rima em “ão” ajuda a reflexão. O poeta que cada um de nós é encontra nessas rimas agudas uma forma de entender a situação crônica. Uma coisa é a educação, outra a enganação.

Afonso Romano oferece uma forma de escrever/refletir sobre temas que têm a ver também com a identidade nacional, com a redescoberta de um país. Opondo uma coisa a uma não coisa, ao seu contrário, abre espaço para coisas renovadas. Que educação é esta? Esta, que aí está, é a educação que um país merece?

Imitando o modo, aprendemos a refazer poesia. Aliás, foi o que o poeta nos ensinou em outro poema seu – O leitor e a poesia (em A catedral de Colônia, 1985):

Poesia
não é o que o autor nomeia,
é o que o leitor incendeia.
Não é o que o autor pavoneia,
é o que leitor colhe à colmeia.
Não é o ouro na veia,
é o que vem na bateia.
Poesia
não é o que o autor dá na ceia,
mas o que o leitor banqueteia.

O poeta espera do seu leitor participação e invenção. O discurso poético torna-se discurso político, discurso de elucidação. Não é um conjunto de promessas vazias, a poesia. Poesia é linguagem em que o tom, a pontuação, o ritmo, a rima, tudo isso gera significado.

E temos aí outro aprendizado. O corpo docente, seja o corpo do indíviduo, seja a corporação de uma instituição de ensino, geram educação. Esses corpos são a própria educação…em ação. Rimas ecoantes, insistentes. Sem medo de experimentar a poesia na prosa do dia a dia.

*
Gabriel Perissé

(
www.perisse.com.br

)
é doutor em Filosofia da Educação (USP), pesquisador do NPC – Núcleo Pensamento e Criatividade

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN