Que cor é essa

Cabe à escola identificar o daltonismo e ajudar nas dificuldades enfrentadas pelos portadores da doença

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Jéssica Torrezan*



Decorar os números dos lápis de cor para não confundir as cores, precisar de ajuda na hora de comprar roupas, pintar a bandeira do Brasil de roxo e vermelho. Esses exemplos ilustram algumas dificuldades enfrentadas por alunos daltônicos. E é na escola que se descobre a maioria dos casos.




Doença hereditária, manifestada principalmente em homens, o daltonismo causa dificuldade ou total incapacidade em diferenciar cores (
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), mas não chega a ser um empecilho para as pessoas que nascem com o problema.




A maioria dos casos geralmente é detectada nas primeiras séries do ensino fundamental, quando a criança começa a trabalhar com as cores. Foi o caso do psiquiatra Douglas Calderoni, que descobriu ser daltônico aos 6 anos. “A professora da escola me mandou ao psicólogo e minha mãe foi chamada, pois meus desenhos eram esquisitos”, lembra. “Quando minha mãe viu os desenhos, logo percebeu que eu era igual ao meu avô, e não louquinho como a professora achava.”




Foi o caso também de Gabriel Cardial Pucci, de 9 anos. “O problema dele ficou evidente quando percebemos as trocas de cores e as dificuldades que ele tinha na escola” afirma a mãe, Karen Cardial. Gabriel lembra que uma vez pintou uma árvore de cores pouco convencionais: “Eu inverti as cores, pintei o tronco de verde e as folhas de marrom.”




Segundo Marcos Sampaio, presidente da Sociedade Brasileira de Visão Subnormal e coordenador do Serviço de Baixa Visão do Hospital das Clínicas, da USP, em São Paulo, as formas mais leves de daltonismo tendem a passar despercebidas. “As pessoas reconhecem as cores, mas de uma forma diferente da nossa”, explica. Sampaio afirma que a retina dos daltônicos não trabalha bem, “é um defeito na visão das cores, eles as distinguem por meio das matizes”.




Calderoni ilustra essas dificuldades de percepção. “Várias vezes já comprei isqueiros e canetas rosas achando que eram azuis, descobri que o chiclete era rosa no terceiro ano da faculdade, para mim sempre foi azul. E comer presunto cinza?”




Para Fabiana Tonelo da Graça, que também é daltônica e tem várias pessoas na família com o mesmo problema, o desafio é diferenciar os tons pastel: “São um enigma para mim, por exemplo, amarelinho, verdinho, beginho, laranjinha, rosinha.”




Números dos lápis -Calderoni recorda até hoje dos números dos lápis de cor que usava na escola. “Na terceira série, eles davam o nome da cor em inglês e eu tinha que pintar com o lápis correspondente, então, eu associava o nome ao número do lápis”, conta. “Vermelho 12, verde 33.”




Fabiana lembra das aulas de educação artística. “Tinha problemas com a identificação das cores para fazer trabalhos na aula, mas dava um jeito e me adaptava com os números estampados nos lápis”, conta.




A mãe de Gabriel ajudou o filho nesse problema: colou uma etiqueta com o nome da cor em cada lápis, canetinha e giz de cera que ele leva para a aula. “Foi uma sugestão da escola”, explica Karen. “Fica mais fácil, o Gabriel não se confunde.” Ela conta que o apoio da escola foi fundamental para minimizar os efeitos do daltonismo. “Assim que eles detectaram o problema, começaram a apresentar soluções que ajudavam o Gabriel”, afirma.




Mas nem sempre a escola é tão prestativa. Fabiana ainda lembra quando a professora pediu para ela pintar um desenho. “Pintei um semáforo verde de laranja”, conta. “Enxergar o giz vermelho na lousa verde é impossível”, explica Calderoni. “Meus amigos se divertiam escrevendo coisas ao meu respeito na lousa com giz vermelho, e eu sem saber de nada.”




Além dos problemas na escola, os daltônicos têm alguma dificuldade para fazer coisas simples, como se vestir para sair de casa ou comprar roupas na loja. “Uma vez, quando ainda tinha vergonha de perguntar a cor aos vendedores, comprei uma calça vermelha pensando que fosse marrom”, explica Fabiana. “No trabalho, tento evitar fazer gráficos com muitas cores, afinal, como poderei explicar ou apresentar sem poder fazer as identificações necessárias?”, completa. “Na faculdade de medicina tive problemas, pois eles usam corantes roxo e rosa para diferenciar as partes de uma célula”, aponta Calderoni. “Para mim era tudo azul e não via nada.”




Apesar dos contratempos, o daltonismo não prejudica a ponto de impedir que as pessoas desempenhem normalmente suas atividades, segundo Sampaio. “Os daltônicos acabam desenvolvendo outros mecanismos para superar os problemas com as cores, como marcar a posição do semáforo”, explica o médico.


“Não acho ruim ser daltônico. Dirijo, sou psiquiatra, trabalho em pronto-socorro também, sem problemas” afirma Calderoni. Karen, cujo pai também é daltônico, concorda. “Meu pai nunca teve problema nenhum devido ao fato de ser daltônico”, explica. “Acredito que o Gabriel também não vai ter.”




*Agência Repórter Social


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