Públicas e privadas

A educação nunca será monopólio de governos: as pessoas devem ter o direito de pagar por um ensino diferenciado

Compartilhe
, / 820 0


A ideologização do debate educacional gerou a demonização das escolas privadas. São chamadas de bunkers isolacionistas das classes média e alta, fábricas de diplomas, máquinas de fazer dinheiro massacrando o ensino. O clima que prevalece parece ser: como ousam esses corsários se apropriar deste bem público que é a educação?

Não faz sentido. Bem público, na definição formal, tem de reunir duas características: que o usufruto do bem por uma pessoa não impossibilite o usufruto de outra, e que não se possa excluir ninguém do usufruto do bem. Pense no ar que você respira, nas águas de mar e rios, e na defesa nacional: são bens públicos. Pense na educação. Posso excluir alguém de seu usufruto? Claro. É só colocar um guarda na entrada da escola e pronto. Não é um bem público, portanto. Traz benefícios públicos, mas nunca será monopólio de governos – as pessoas devem ter o direito de escolher onde educar seus filhos e de pagar por uma educação diferenciada.

De 1ª a 4ª série, o Brasil tem 9,5% de seus alunos em escolas privadas. Nos países da OCDE, industrializados, são 11,5%. De 5ª a 8ª, 10% pro Brasil e 14% na OCDE. No ensino médio, 12% pro Brasil e 20% pra OCDE. As privadas são melhores do que as públicas, então é normal que pais com dinheiro queiram colocar seus filhos nas melhores escolas. Tenho certeza de que todos aqueles que praguejam contra as escolas privadas colocariam seus filhos nelas caso tivessem recursos (aliás, muitos o fazem: discursam em público uma coisa, fazem outra em casa. Hipocrisia pura).

O que faz o pessoal babar de raiva mesmo são as universidades privadas. É verdade que o Brasil tem taxa de matrícula privada (70%) mais alta do que a maioria dos países desenvolvidos (mas menor que Coréia e Japão, por exemplo). Isso é culpa do governo, oras. Há uma megademanda por ensino universitário e as universidades públicas têm, segundo os últimos dados disponíveis, apenas 1,1 milhão de alunos matriculados. São caras, ineficientes e elitistas (salvo as honrosas exceções de sempre). É melhor que os alunos fiquem sem universidade ou que vão para uma escola privada? Que vão para a privada! (Sem trocadilho.) Temos mais é que agradecer às instituições privadas, que carregam nas costas o grosso do sistema universitário. Ah, dirão os puristas, mas não dá pra chamar a maioria dessas instituições de universidades! São pocilgas, enganam os pobres desesperados por uma vaga no mercado de trabalho. Sempre que me dizem que está se enganando quase 3 milhões de pessoas, número de alunos da rede privada, acho que quem está se enganando é o falante. Vamos aos números, cacoete incorrigível dos economistas. Os resultados do finado Provão de 2003 foram divulgados não apenas em conceitos (A, B,C…), mas em escala absoluta de pontuação, de 0 a 100. Calculei as médias de todos os cursos. Resultado: universidades federais, 37,7; estaduais, 31,7; municipais, 30,0; privadas, 33,2. Quer dizer, as privadas se saíram melhor que estaduais e municipais, e só um pouco pior que as federais. Fábrica de diploma? Ahã.

Puristas e ideólogos, tremei!




Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico com especialização em economia da educação.

E-mail:


desembucha@uol.com.br


Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN