Próximo destino: Marte

A busca terráquea pelo Planeta Vermelho sempre esteve atrelada ao desenvolvimento científico. Agora, os primeiros humanos começam a preparar suas malas para se mudarem para lá

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© NASA
Imagem da nave Viking 1 mostra a fina atmosfera de Marte

Há 50 anos, os humanos olham para Marte com um misto de curiosidade, fascinação, e uma esperança: talvez ali, no Planeta Vermelho, residam muitas das respostas às perguntas que nos intrigam na Terra. Após cinco décadas de exploração espacial, as pesquisas científicas sobre aquele planeta estão chegando a um novo patamar. Em março último, a Nasa anunciou que Marte teve, em algum momento, um oceano tão grande quanto o Ártico. E, se tudo correr como planejado, em dez anos o planeta abrigará a primeira missão humana de colonização extraplanetária.

O interesse pela pesquisa espacial deixou de ser exclusividade de potências como Estados Unidos, Rússia, Europa e, mais recentemente, China e Índia, mas também de empresas privadas. Empresas como Virgin Galactic, SpaceX e XCOR desenvolvem atual­mente missões de viagem espacial, um privilégio para pouquíssimas pessoas dentre as mais ricas do mundo.

Mas nada parece ser tão polêmico quanto o projeto Mars One, da ONG holandesa de mesmo nome, que pretende instalar uma colônia humana em Marte a partir de 2025. A inédita missão iniciou com um processo seletivo aberto ao público, com cerca de 200 mil pessoas participando da primeira fase, o preenchimento de um minucioso questionário.

“É uma missão de colonização, então o perfil não é o mesmo de um astronauta normal. Por isso abriram para qualquer pessoa que tiver habilidades e interesse. Eles querem uma pessoa que tenha alguma coragem, que tenha resiliência e uma alta capacidade de adaptação, que saiba trabalhar muito bem em grupo e que possa confiar nas outras pessoas – porque você vai estar em situações em que sua vida vai depender do outro. Também temos de apresentar as razões pelas quais gostaríamos de participar”, disse à BBC Brasil Sandra Silva, de 51 anos, professora e moradora de Porto Velho, Rondônia, uma das selecionadas pelo projeto até o momento.

Depois da primeira fase, dos 200 mil inscritos sobraram 1.058 pessoas. A fase seguinte foi uma série de exames médicos bem específicos, em que, ao final, restaram 600 candidatos. A terceira etapa, uma entrevista ao vivo pelo Skype com o doutor Norbert Kraft, que já selecionou astronautas para a Agência Espacial Japonesa e para a Nasa, diminuiu para cem o número de pessoas que seguirão disputando as 24 vagas finais. Sandra Silva é a única brasileira entre as 100 candidatas dispostas a integrar a primeira colônia terráquea em Marte. Uma viagem só de ida, sem volta. Nada que a desanime.

“Acho que vai ser muito divertido. Fazer pesquisa, poder ter experiências que nenhum outro ser humano vai viver. O fato de ter de se inserir em um ambiente completamente diferente, onde você terá necessidades completamente distintas das que tem agora, modifica a forma como você raciocina. Espero que inserida no ambiente marciano eu consiga até ser mais criativa. Vai ser fantástico”, projeta a professora universitária de administração e sistemas de informação ao falar à BBC.

A professora Sandra ainda não tem muitas informações sobre a próxima etapa da seleção. Acredita que haverá trabalhos em grupo e que os 24 escolhidos passarão por algum tipo de participação do público. Depois de selecionados, os futuros humanos extraterrestres ainda farão um longo período de treinamento de oito anos. E só então estarão aptos para colonizar o Planeta Vermelho.

Água diferente

A iniciativa da missão de colonização da Mars One, por mais polêmica que seja, só é possível ser aventada em decorrência dos últimos 50 anos em que o homem se dedica a investigar e explorar o Planeta Vermelho, com resultados significativos. A última grande descoberta foi divulgada na primeira semana de março, na qual a agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa, anunciou que Marte teve, em algum momento, um oceano tão grande quanto o Ártico. Analisando a atmosfera marciana, os cientistas também anunciaram que o Planeta Vermelho perdeu 87% da sua água no ar.

Encontrar indícios de água em Marte sempre foi uma das prioridades das missões espaciais enviadas ao planeta vizinho devido a sua condição vital para a existência da vida tal qual a conhecemos. Publicado na prestigiada revista Science, o artigo afirma que quando Marte ainda era úmido (ao contrário da aridez com que se apresenta hoje), há cerca de 4,5 bilhões de anos, havia água o suficiente para formar um oceano cobrindo a metade do hemisfério norte do planeta, com até 1.600 metros de profundidade.

A revelação trouxe à tona uma forma d’água talvez pouco conhecida entre os estudantes brasileiros – a água deuterada. Ao contrário da água como a conhecemos, formada por dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio, a água deuterada é composta quando um dos dois átomos de hidrogênio é substituído por deutério. O resultado é uma água mais pesada, de comportamento diferente, inclusive no que se refere à evaporação. Ao estudar a atual razão entre deutério e hidrogênio na atmosfera marciana, cientistas vislumbram que poderão estimar a quantidade de água que o planeta costumava ter. Graças aos dados coletados por potentes telescópios na Terra nos últimos sete anos, as proporções entre água deuterada e a água normal encontradas em certas regiões de Marte foram até sete vezes superiores às dos oceanos da Terra. Isto é interpretado pelos cientistas como um indício de uma grande quantidade de água perdida pelo planeta ao longo do tempo.

Em busca da vida

A descoberta de que Marte já teve um oceano não é a primeira evidência de água no planeta. Em dezembro de 2013, também na revista Science, pesquisadores da Nasa anunciaram que o robô Curiosity encontrara um local que já fora um lago em condições de abrigar e reproduzir vida, como micróbios do tipo quimiolitoautotrófico. O lago teria existido próximo à Cratera de Gale, local em que o Curiosity – sonda do tamanho de um carro pequeno – aterrissou em agosto de 2012. A cratera tem aproximados 150 quilômetros de diâmetro e surgiu depois do impacto de um asteroide há cerca de 3,5 bilhões de anos.

Na ocasião, a Nasa anunciou que o Curiosity encontrara amostras de rochas sedimentares indicando a existência do lago na cratera durante dezenas ou centenas de milhares de anos. Suas águas exibiam elementos-chave em termos biológicos, como carbono, hidrogênio, oxigênio, enxofre, nitrogênio e fósforo, provavelmente tinham pH relativamente neutro e baixo nível de salinidade. Segundo os cientistas responsáveis pela missão da sonda Curiosity, a presença desses elementos tornaria o lago capaz de abrigar micro-organismos.

Em dezembro de 2014, outra forte evidência de vida veio à tona. A sonda Curiosity captou altas emissões de metano na atmosfera marciana, um gás que na Terra está diretamente associado à vida biológica. Por quatro vezes num período de dois meses, a sonda mediu um aumento súbito no nível do gás, com picos até dez vezes maiores do que havia sido detectado até então.

Os cientistas ainda não são capazes de afirmar a razão das altas emissões de metano, tampouco bater o martelo em sua origem biológica, já que por enquanto não se pode descartar uma origem geoquímica (proveniente de fenômenos geológicos como, por exemplo, quando a radiação ultravioleta do Sol atinge resíduos de carbono deixados no planeta pelo impacto de objetos, como meteoritos ou fragmentos de cometas, ou ainda como reações decorrentes da interação de água com alguns tipos de formações rochosas).

A descoberta foi anunciada em uma entrevista coletiva transmitida pela internet do Sindicato Americano de Geofísica, em São Francisco, Califórnia. Na coletiva, os cientistas da Nasa também informaram que o Curiosity encontrou compostos orgânicos, ricos em carbono, em amostras de rochas coletadas por uma furadeira robótica. Evidências de clorobenzeno foram encontradas num pedaço de rocha extraído de um lamito (tipo de rocha sedimentar). O clorobenzeno é um anel de carbono com cinco átomos de hidrogênio e um átomo de cloro ligados. Os cientistas também não sabem dizer se o elemento químico estava especificamente presente no lamito ou se foi derivado do aquecimento durante a análise. Confirmar a existência de compostos orgânicos é uma descoberta relevante, pois a vida que conhecemos só pode existir onde há capacidade de troca de moléculas de carbono.

Enquanto segue a procura de vida biológica em Marte, a brasileira Sandra Silva e outras 99 pessoas continuam dispostas a serem os primeiros seres humanos a colonizar o Planeta Vermelho.

 Corrida espacial
■ 1964: Os Estados Unidos lançam a Mariner 4, primeira missão bem-sucedida a Marte. Antes dela, a Mariner 3 e outras cinco missões da antiga União Soviética falharam na tentativa de chegar ao Planeta Vermelho. A nave não tripulada ficou oito meses em órbita ao redor da superfície de Marte, sendo responsável pelas primeiras 22 imagens em close-up do planeta.

■ 1969: Os Estados Unidos enviam outras duas sondas: a Mariner 6 e 7. A primeira orbitou em volta da linha central de Marte, enquanto a segunda se deteve na região polar sul. Ambas tiveram como objetivo coletar informações da temperatura atmosférica, da composição molecular da superfície e da pressão atmosférica marciana.

■ 1971: Primeiro pouso bem-sucedido na superfície do Planeta Vermelho pela sonda Mars 3, enviada para fazer análises de temperatura e composição atmosférica, num momento em que Estados Unidos e União Soviética se revezavam no envio de outras naves ao planeta.

■ 1976: As naves Viking 1 e 2, lançadas novamente pelos Estados Unidos, voltam a tocar o solo marciano.

■ 1997: Após uma longa ausência de 21 anos, a sonda Mars Pathfinder desce no planeta. Muitas outras engenhocas foram enviadas a Marte nos anos seguintes, como satélites para orbitar ao redor do planeta ou veículos para aterrissar.

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