Provas e outros arcaísmos

As medidas de política educativa não logram emancipar-se do sarro da velha escola

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Em entrevista recente, um eminente filósofo e educador sentenciou: a escola precisa distinguir o que vem do passado e deve ser protegido daquilo que precisa ser deixado para trás porque é arcaico. As medidas de política educativa – reformas, programas, projetos, assessorias, pactos… –, naturalizam o insucesso, não deixam para trás o que é arcaico. Confesso a minha perplexidade perante tentativas de melhorar o que já não pode ser melhorado. Um sistema dominado pela burocracia sempre liquidou movimentos renovadores. Ao longo do século 20, falharam as nobres tentativas de mudança tentadas por Lauro, Maria Nilde, Freire e tantos outros grandes mestres. E a saga continua…

Uma escola, que quase se libertou de arcaísmos, irá receber da secretaria municipal de Educação uma “proposta de retorno às avaliações bimestrais”. Alegando o “baixo rendimento” da escola (que, aliás, se provou ser falso argumento), a secretaria exige uma “prestação de contas, como já ocorre nas demais escolas municipais” (leia-se: prova, provinha e outros arcaísmos).

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É perigosa a crença nas virtudes das provas, que “não são capazes de avaliar nem um décimo do que é a escola”. É preocupante saber que ainda há secretarias que acreditam na “objetividade” de um teste e o consideram “instrumento de análise do nível de qualidade do ensino”. É confrangedora a ingenuidade pedagógica de quem confia nos índices de “decoreba” na educação básica. Temo pelas escolas à mercê de quem se atreve a avaliar projetos que não entende.

Resta saber quem avaliará arcaicas secretarias de Educação. Quem assumirá a responsabilidade dos nefastos efeitos de uma política pública desastrosa, que produz um Ideb pífio, evasão maciça, o desperdício anual de R$ 56 bilhões e 30 milhões de analfabetos?

Sob a égide do Ministério da Educação, participei de muitas avaliações externas e reconheço a sua importância. Acompanho secretarias de Educação e técnicos competentes, que não foram totalmente possuídos por burocráticos cinismos. Aprendo com universitários, para os quais a educação não virou ciência oculta. Apoio professores, que não se instalaram num comodismo acéfalo. Solidarizo-me com pais, no seu afã de libertar os seus filhos de uma educação arcaica. Mas o mês de maio trouxe más notícias…

Na mesma semana em que uma escola era caluniada, recebi duas mensagens decepcionantes. A primeira dizia: “infelizmente, não tenho boas notícias. O prefeito não quer desenvolver o projeto aqui. Também puxaram meu tapete e, depois de muito sofrimento e reflexão, decidi solicitar minha saída da secretaria da Educação. Percebi que a secretaria está cercada por pessoas incompetentes e más e não quero mais ficar num lugar onde eu não tenho espaço, apoio e autonomia para trabalhar”. A segunda mensagem confirmava o fim de outro projeto, que consumiu muitos dos meus solidários dias: “sinto-me envergonhada e triste por ver que a premência do secretário está em resolver coisas burocráticas e deixar a educação em segundo plano. Não sei o que mais precisará acontecer em nosso país para que os educadores decidam empunhar a bandeira da transformação urgente”.

Onde estão os educadores? Por que consentem que perdure o que é arcaico?

*José Pacheco
Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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