Prova prática

Em alguns colégios particulares, etapas do processo seletivo envolvem avaliação sobre o domínio didático do docente

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Ao criar meios para tentar garantir que os melhores professores sejam selecionados para fazer parte dos quadros das redes municipais e estaduais, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) torna pública uma preocupação que, aparentemente, é mais frequente nas escolas particulares. Por razões diversas, nas quais se incluem questões trabalhistas, a autonomia dessas instituições, de natureza privada, é maior nos processos de contratação, avaliação do desempenho profissional e demissão de professores (seja por não corresponderem ao perfil desejado, seja por problemas de caixa das escolas). Isso faz com que a discussão sobre as habilidades e conhecimentos desejados para um professor esteja mais em pauta, especialmente em função das cobranças de famílias ativas em relação à educação dos filhos. O que, em muitos casos, também ocorre nas escolas públicas de bons resultados.

A contratação de um professor em muitas escolas particulares passa, necessariamente, pela avaliação do trabalho em sala de aula – quando não em contato com os alunos, diante de uma equipe que vai avaliar a capacidade de ensinar o conteúdo e dominar o ambiente de formação. No Colégio Positivo, de Curitiba, a experiência prática e o comportamento em sala de aula são alguns dos requisitos observados para a contratação.

Segundo o diretor-geral do colégio, Carlos Dorlass, o fato de o processo de admissão da instituição ser baseado em diferentes etapas diminui a margem de erro das escolhas. "Nosso processo seletivo ajuda para que acertemos na contratação. E o processo de acompanhamento é importante para que a rotatividade seja muito baixa", diz. Mesmo com esse processo seletivo mais extenso, que envolve análise de currículo, avaliação do conteúdo e das práticas, simulação de aula e uma entrevista final, o professor recém-contratado tem o acompanhamento de um tutor para orientá-lo sobre a cultura da escola e auxiliá-lo em eventuais impasses e dúvidas. "Não é trocando constantemente de professor que vamos resolver os problemas que surgirem", ressalta.

A observação das atividades práticas da profissão como parte do processo seletivo também pode apontar para aqueles candidatos que estão mais alinhados aos valores da escola. No caso da Escola Móbile, de São Paulo, os candidatos passam por dinâmicas de grupo que envolvem debates e atividades sobre como lidar com conflitos e discordâncias em classe. Em seguida, após nova seleção, apresentam uma aula para coordenadores e outras equipes. "Queremos observar questões educacionais, sobre como o professor se posiciona em relação a situações de sala de aula. O professor precisa também ser educador, preocupado com questões de desenvolvimento e relações sociais. Um professor de geografia, por exemplo, não pode ensinar somente a geografia", explica a diretora pedagógica do colégio, Cleuza Vilas Boas Bourgogne.


Prova rigorosa


O processo de seleção no Móbile é bastante concorrido, o que exige rigor no processo. De acordo com a diretora, quando é aberta uma vaga para professor de língua portuguesa, por exemplo, a escola chega a receber cerca de 700 currículos. O primeiro passo para essa seleção é análise curricular, em que se observa a formação e a experiência do candidato, para em seguida aplicar uma prova escrita com questões que diferem de acordo com a série. No caso da educação infantil, o peso maior é para questões relacionadas ao desenvolvimento da criança, motricidade e aprendizagem. Já para as primeiras séries do fundamental, a prova exige mais questões de
conteúdo, como português e matemática. "A prova teórica é extensa e muito seletiva. Não podemos contratar um professor que escreva mal, se expresse mal ou tenha um texto que não seja lógico", diz Cleuza.

Segundo ela, a instituição procura observar alguns pré-requisitos para selecionar um bom professor. Ele precisa saber ler e escrever muito bem, conhecer a fundo o conteúdo, dominar o universo da aprendizagem, ter um conteúdo cultural amplo para poder estabelecer relações em sala de aula e ter a consciência de seu papel de educador. "Procuramos alguém com esses quatro pilares de formação: acadêmica, social, cultural e ética", afirma a diretora.

Em relação ao universo da carreira docente, tanto rigor na seleção tem uma compensação financeira: atualmente, o salário de um professor do ensino fundamental no Móbile está em torno de R$ 4,5 mil. A escola também incentiva a mobilidade entre os níveis, de modo que o professor possa passar a ser coordenador pedagógico ou assessor de alguma área. De acordo com Cleuza, além do tempo de aula, o professor também tem quatro horas semanais de capacitação, divididas entre aprofundamento de conteúdo e discussões pedagógicas com coordenadores sobre situações do dia a dia de classe.

No Colégio Positivo, a preocupação com a atualização do professor em relação aos conteúdos e conhecimentos pedagógicos se reflete nas possibilidades oferecidas para o professor, como pós-graduação dentro da universidade pertencente ao mesmo grupo. Por outro lado, o comprometimento com a melhoria constante é uma exigência: "Um professor que não tem domínio do conteúdo compromete a formação do aluno. Por isso nossos professores precisam passar por um constante processo de atualização e também por avaliações semestrais", afirma o diretor Carlos Dorlass. Hoje um professor iniciante da educação infantil do colégio recebe em torno de R$ 2 mil, mais benefícios.
Ainda na instituição paranaense, as aulas dadas por professores polivalentes vão até a 3ª série do ensino fundamental – a partir daí, são professores especialistas, que mesmo sem formação específica têm aptidão para determinada área. "Dessa maneira procuramos garantir que os conceitos sejam bem aplicados. Hoje todos os professores das séries iniciais são acompanhados por professores especialistas, de 5ª a 8ª séries", afirma o diretor. 
(GJ)

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