Profissão perigo

Professores que enfrentaram problemas de saúde apontam condições adversas de trabalho e buscam alternativas para viver melhor

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Patrícia Gil

Quando entra na passarela do samba, a passista Elaine Maria Suzart, de 41 anos, sente uma energia explodindo no peito. “O corpo inteiro segue o toque vibrante da bateria e esqueço o resto”, relata. Nada mais sobra sob os pés dessa professora de educação infantil na creche da Universidade de São Paulo. É então que ela extravasa qualquer aflição que a incomoda no conturbado dia-a-dia entre escola, trabalho e família. “O samba me põe para cima. De tempos em tempos, preciso me soltar na quadra da escola [
Mocidade Alegre, campeã do grupo especial no carnaval de São Paulo (SP) em 2004

].”




A vida não é fácil para Elaine. Ela lidera, todos os dias, uma turma de crianças com 3 anos. Trabalha apenas na creche da USP, onde está há 12 anos, mas nem sempre foi assim. Em outros tempos, acumulava atividades em duas escolas. Hoje, corre durante o dia e, às vezes, à noite em cursos voltados a seu aprimoramento profissional. Ao chegar em casa, os dois filhos esperam por ela, assim como uma nova jornada de trabalho doméstico.




Desde os 6 anos, Elaine já desfilava na avenida quando sua escola ainda era um cordão e sua mãe seguia logo adiante como rainha da bateria. Manter o samba sob os pés – assim como o bolero e outras danças de salão que ela pratica com o marido – é a maneira que Elaine descobriu para reduzir o peso das tensões cotidianas. O resultado é uma professora mais animada e criativa em sala de aula, com auto-estima e força capazes de driblar os riscos inerentes à profissão de educador.




Os riscos, aliás, não são poucos, ainda que mal retratados como doenças decorrentes verdadeiramente do trabalho. Assim como Elaine, outros professores têm tentado, com as possibilidades que têm a seu alcance, driblar os problemas de saúde próprios da ocupação. Suas histórias podem servir como exemplo e estímulo a colegas. A revista
Educação

foi a campo para apresentá-los aqui como uma lição de ânimo. Você os conhecerá ao longo das próximas páginas, porém, sem perder de vista os caminhos árduos que perseguem o trabalhador da educação e comprometem sua qualidade de vida.



Drama de reconhecimento –








Sim, é perigoso ser professor. Assim uma educadora de Brasília (DF) qualifica seu ofício de driblar, dia após dia, ora o pânico da violência nas escolas das cidades satélites, ora as dores físicas provocadas por esforços repetitivos. Ela não é a única a vivenciar os problemas de saúde ocupacional que vitimam profissionais da educação pelo Brasil, mas estão fora de dados estatísticos mais amplos.





A dificuldade de se obter informações abrangentes sobre a questão esbarra principalmente numa atividade que é inerentemente cheia de riscos. Ser professor é estar numa roda-viva entre o gozo de fazer parte do aprendizado e, de tanto buscá-lo sob condições adversas de trabalho, ser impedido de continuar em sala de aula. Em muitos casos, o corpo pede simplesmente para parar.




E quando isso acontece, o educador brasileiro enfrenta o drama do reconhecimento. Pesquisa realizada pela Universidade de Brasília (UnB) e divulgada agora com exclusividade pela revista
Educação

mostra a desigualdade com que o professor é tratado tanto pelo empregador quanto pelo sistema de seguridade social. A importância de esses dados serem trazidos à tona está exatamente em seu ineditismo. Representam uma luz sobre a questão, dada a inexistência de qualquer pesquisa similar nos Ministérios da Educação, da Saúde e do Trabalho e Emprego, que seja relacionada à rede pública e capaz de detonar a implantação de políticas específicas na área.




O Laboratório de Saúde do Trabalhador

da Universidade de Brasília, coordenado por Anadergh Barbosa-Branco, comparou as licenças concedidas em 2002 pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) a seis ramos profissionais em regime celetista (com vínculo regulado pela Consolidação das Leis do Trabalho) em todo o Brasil. Foram analisados especificamente os afastamentos por motivos de doença por mais de 15 dias. As discrepâncias são nítidas. Por exemplo: a cada mil vínculos empregatícios no ramo de fabricação de produtos de metal, 63,63 obtiveram a licença reconhecida, o que representa três vezes mais que os benefícios concedidos aos trabalhadores da educação.



Sem benefícios –








A pesquisa foi mais longe e mostrou que, entre esses poucos educadores que buscam o direito da licença, é quase nulo o número dos que recebem benefícios acidentários (ou seja, os que têm no INSS o reconhecimento de que realmente foram vítimas de doenças decorrentes do trabalho, o que lhes garante direitos como estabilidade de até 12 meses após o fim da licença e depósito de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço durante o afastamento). Para cada benefício concedido a um educador, 11,02 trabalhadores foram contemplados no setor de fabricação de produtos de metal, a categoria com mais registros desse tipo.





Para Anadergh, esses indicadores apontam para duas explicações. A primeira dá conta da própria relação do professor com seu ofício. “Por medo de não encontrar seu emprego de volta e pelo vínculo afetivo com os alunos, ele só se afasta quando é praticamente impossível permanecer em sala”, diz. Quando ele se licencia, a escola deve providenciar sua reposição imediata. A situação é de total instabilidade.




A segunda explicação da pesquisadora é um golpe sobre a organização sindical dos educadores. Para ela, é fraco o movimento de classe, o que leva o profissional a lutar sozinho para que a causa de sua doença seja reconhecida como problema de trabalho. Os números, por si só, dispensam controvérsias quanto a isso. Basta nos restringirmos aos afastamentos por problemas nas cordas vocais. Os professores são o grupo que mais sofre das chamadas laringopatias, chegando a registrar 3,2 vezes mais casos que os bancários em estabelecimentos privados. Estes, por sua vez, tiveram nada menos que quatro vezes mais benefícios reconhecidos como acidentários do que os professores em 2002, o que nos remete à organização política desse grupo.



Urgências demais –



É fato que os sindicatos estão preocupados com outras urgências e que não levantam, em suas bases, a questão da saúde do professor, reconhece Juçara Dutra Vieira, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). “Mas é preciso ir à causa do problema.”




São justamente as outras “urgências” dos sindicatos que interferem na qualidade de vida do educador, como os baixos salários que empurram o profissional a até três jornadas de trabalho. Faltam tempo, dinheiro e disposição a ele para se dedicar a outras atividades capazes de amenizar essa carga. Além disso, alguns estados acabaram por instituir prêmios de assiduidade ao professor. “Para não perder essas vantagens, muita gente vai trabalhar muito mal”, complementa Juçara.




É difícil para os sindicatos se apropriarem dessa discussão, argumenta Maria Elizabeth Barros de Barros, do programa de pós-graduação em psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Os dirigentes se concentram nas campanhas salariais e em outras grandes causas da categoria. Alguns defendem que pouco adianta falar em saúde se persistir a causa do problema, que são as condições de trabalho. Mas para Maria Elizabeth, as organizações sindicais precisam assumir aquelas ações que apresentam “certo grau de governabilidade”. Ela explica que isso pode fortalecer a classe para outras lutas. “Só não dá para esperar a solução chegar.”



Pelos sindicatos –








As conseqüências de uma rotina de trabalho assim desgastante são geralmente percebidas após dez anos de profissão, afirma Raimunda de Souza Gomes, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Amazonas (Sinteam). Ela cita a falta de estrutura acústica nas salas de aula e o continuado uso do giz como complicadores para a voz e para problemas alérgicos, que são as principais queixas de professores em seu estado.





De acordo com os sindicatos ouvidos pela revista
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não há relação geográfica com os principais motivos para afastamentos das salas de aula. Algumas particularidades do Rio de Janeiro (RJ), entretanto, são decisivas. Problemas psicológicos despontam de maneira preocupante. “A violência em torno das escolas cria um estresse profissional generalizado. É um caso de difícil tratamento porque não está ligado estritamente às condições de trabalho, mas ao tráfico de drogas”, lembra Gesa Linhares Corrêa, coordenadora-geral do Sindicado Estadual dos Professores do Rio de Janeiro (Sepe-RJ).




Um levantamento do Sindicato dos Professores do Distrito Federal, em 2002, mostra que 44,3% dos associados afirmaram já ter sentido algum sintoma de doença profissional. Entre eles, o principal diagnóstico médico (38,7%) foi o de estresse ou estafa. Apesar da percepção local dos sindicatos quanto ao crescimento de problemas psicológicos entre professores, a pesquisa realizada pela UnB demonstra que as chamadas doenças mentais estão no fim da lista dos motivos de benefícios acidentários.



Prevenção –








A gravidade dos números se choca ainda com a ausência de programas estruturados de prevenção e apoio ao educador, com raras exceções. Médicos reunidos no 3



o



Consenso Nacional de Voz Profissional, realizado no Rio de Janeiro, em agosto, argumentam que o Brasil perde cerca de R$ 150 milhões ao ano com afastamentos e readaptações de professores com problemas no aparelho fonador, os quais têm de ser substituídos. Eles defendem que pelo menos parte dessa cifra seja investida em programas que levem à melhoria das condições de trabalho.





Na opinião de Wilson Kraciunas, diretor do Sindicado dos Professores do ABC, são tímidas as iniciativas de escolas públicas e particulares nesse sentido. Quase sempre, elas se resumem a palestras realizadas fora do horário de trabalho do professor, quando ele já está esgotado demais. Não há interferência no processo de trabalho. Na rede pública, diz ele, “falta comando de governo”.


Já para o médico Arlindo Gomes, diretor científico da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), uma das entidades promotoras do Consenso de Voz, “o professor se vê tão vocacionado para a função que acaba atuando como um sacerdote, sem se atentar muito para onde ou como trabalha”.


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