Profissão de fé

A abordagem das religiões na escola divide educadores e pais, mas o respeito à diversidade se impõe como princípio comum

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Tolerância religiosa também se aprende na escola. Quando o assunto é o ensino de religião, essa talvez seja a única unanimidade. Opiniões divergentes surgem das respostas a qualquer uma das perguntas fundamentais sobre o tema. Devem as escolas oferecer aulas específicas de religião? Essas aulas devem ser obrigatórias? Que formação precisa ter um professor para lecionar a disciplina? Se o estado brasileiro é laico, por que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê a obrigatoriedade do ensino de religião na rede pública?

Apesar da polêmica, vem crescendo nos últimos anos o número de escolas dispostas a falar sobre educação religiosa e a inseri-la no currículo. Nas confessionais, a regra é clara: cada uma fala da sua religião. Os próprios educadores admitem, nesses casos, que é difícil ser imparcial. Nas laicas, a proposta costuma ser mais ambiciosa: pretende-se dar ao aluno uma visão geral das religiões para que ele possa fazer sua opção. Em ambos os casos, no entanto, coordenadores e professores sabem que a escolha da escola será determinada pela orientação religiosa da família.

Foi assim com a família Nasser. De formação católica, os pais decidiram matricular os três filhos — Júlia, 7 anos, Roberta, 4, e João Marcelo, 3 — no São Luís, tradicional escola de origem jesuíta de São Paulo. “Somos religiosos, vamos à missa e acho importante que esse tipo de formação também ocorra na escola”, afirma Maria Cristina, a mãe. “Meu marido estudou no São Luís e não tivemos dúvidas. Queríamos uma escola com forte formação religiosa porque acreditamos que as crianças precisam crescer com esses princípios. Não adianta apenas a família dar orientação.”

O debate é acirrado. A socióloga e pedagoga Neide Nogueira, coordenadora geral da equipe que preparou os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), discorda dessa concepção. “O ensino religioso é uma obrigação da família e das igrejas, que têm seus catecismos e escolas dominicais, por exemplo. Para nós, da equipe dos PCNs, não é direito do professor dar aula de religião.”

Neide conta que a discussão a respeito do assunto foi intensa durante a elaboração dos parâmetros. Por fim, chegou-se ao consenso de que o currículo deveria ser dirigido para uma escola regular laica. “Acreditamos que os valores democráticos devem ser ensinados pelas escolas e sugerimos esses debates nos temas transversais. Mas, de acordo com o nosso ponto de vista, religião é uma questão de foro íntimo.”

Os temas transversais, explica Neide, devem expor questões sociais, e não privadas. “Orientação sexual, por exemplo, deixou de ser uma questão privada para se tornar de saúde pública. Mas a educação religiosa não”, afirma. “Além disso, é impossível ser imparcial em uma aula sobre o tema.”

A imparcialidade é mesmo difícil, acredita o teólogo e filósofo Ceciélio Dias Cortes, professor de Ensino Religioso e Assuntos de Formação Cristã do Colégio São Luís. “O ensino religioso é o ensino segundo o referencial cristão, segundo a identidade cristã, portanto não é imparcial”, diz. “Mas educar segundo a ética cristã não quer dizer impor a fé ao educando. Ela não impede o diálogo com os outros, mas se torna condição para respeito e consideração daquilo que é diferente, seja religiosa, cultural ou socialmente.”

No São Luís, ensino religioso é disciplina obrigatória em todas as séries e tem conteúdo programático, método e objetivo, como qualquer outra matéria tradicional. “Por meio dessa disciplina, formamos o aluno segundo os valores éticos cristãos. É tão necessária quanto a aula de biologia ou história.” O professor conta que pais e alunos, ao procurar pelo São Luís, não querem apenas a excelência acadêmica, mas também a humana. “Essa é a meta da escola e, nessa dimensão, está inserida a aula de ensino religioso.”

Quem ministra as aulas de religião são professores graduados em teologia e geralmente com formação também em filosofia ou pedagogia. “Queremos que o aluno aprenda a pensar e a refletir sobre os dons e características que nos distinguem e nos definem como humanos, como filhos de Deus. Assim, ele aprende ainda a assumir as diferenças religiosas e culturais como naturais ao humano e a respeitá-las, já que são obras de Deus”, afirma Cortes.

No Colégio Madre Alix, ensino religioso também é disciplina obrigatória, mas o programa varia de acordo com a faixa etária de cada turma. “As aulas, que são dadas por professores com formação teológica, podem ser na classe, no pátio ou na capela, depende do tema abordado”, explica a irmã Angélica Maria Afonso, orientadora de ensino fundamental do colégio. “O importante é oferecer ao aluno a oportunidade de conhecer a fé cristã e ajudar na sua formação para a solidariedade e para a fraternidade.”

Os pais que procuram o Madre Alix são informados sobre o currículo religioso antes da matrícula. “Nunca tivemos problemas porque as famílias que nos procuram desejam esse tipo de formação. Elas jamais são pegas de surpresa”, conta. “Além disso, ensinamos nossos estudantes a respeitar as crenças de cada um.” Para a irmã Angélica, é possível manter a imparcialidade da aula de religião conhecendo e respeitando a formação e as crenças de cada aluno.

Conhecer a religião dos estudantes também é o ponto de partida para a discussão do tema na Escola Nossa Senhora das Graças. Lá, não existe ensino religioso, mas o assunto é abordado em diversas disciplinas. “Trabalhamos com a diversidade cultural e, sempre que o tema surge na sala de aula, os alunos têm liberdade para manifestar suas opiniões”, afirma Ruth de Moraes Pitombo, professora da 3.ª série do ensino fundamental.

É nessa etapa da educação que os pais são informados de que o colégio oferece, na 4.ª série, uma disciplina extracurricular de catecismo para as famílias católicas que desejarem a primeira comunhão de suas crianças. “Os interessados entram em contato conosco e organizamos as turmas”, explica. “O curso é dado por um catequista e acompanhado por uma mãe voluntária.”

Analice Moura Ignácia, mãe de Frederico, 9 anos, nunca se preocupou com educação religiosa na hora de escolher uma escola, mas considera “prático” o catecismo oferecido pelo Nossa Senhora das Graças. “Acho que esse tipo de formação é mais papel dos pais e da igreja. Nem me lembrei de perguntar sobre a catequese”, diz. “Só no fim do ano passado, quando o Frederico estava na 3.ª série, fiquei sabendo do curso. Conversei com ele e o inscrevi.” De família católica “não muito praticante”, ela tem gostado das aulas. “Mas continuo achando que não é obrigação da escola oferecer ensino religioso. Neste caso, é apenas uma facilidade para os pais.”

O teólogo Ciro de Figueiredo, diretor do Colégio Friburgo, já foi pastor, mas deixa as crenças de lado quando o assunto é aula de religião na escola. “Não tenho dúvidas de que esse não é o papel da escola. Sempre que ela oferece educação religiosa, acaba sendo tendenciosa e sectarista. Não dá para falar sobre todas as religiões.”

A discussão sobre religiosidade, no entanto, não pode ser banida da escola. “Ela deve estar presente em diversas aulas – de artes, geografia, atualidades, filosofia. Todo dia o tema aparece nos jornais e nas revistas, mas precisa de contextualização.” No Friburgo, os alunos do ensino médio podem optar durante um semestre por uma disciplina da área diversificada, Estudos de Problemas Filosóficos e Teológicos Contemporâneos, em que são abordadas questões atuais que envolvem discussões religiosas, como guerras, pena de morte ou aborto.

Os temas polêmicos também são motivo de discussão em duas escolas paulistanas reconhecidas por suas comunidades religiosas. No Renascença, tradicional colégio judaico, os judeus são maioria entre os estudantes, mas não há aulas de religião. “Abordamos o assunto e suas polêmicas em outras disciplinas. As únicas matérias específicas que os alunos têm são hebraico e cultura judaica – que explica a história e os costumes, mas não entra no ensino religioso”, explica Carmia Kotler, orientadora de estudos judaicos do colégio.

A preparação para o
bar-mitzvá

(quando o adolescente faz 13 anos e atinge o status de adulto, segundo o judaísmo), por exemplo, não é feita na escola. “Cada família contrata o seu professor para orientar seus filhos.” A sinagoga não é freqüentada durante o período de aulas. “Os alunos podem visitá-la com suas famílias.” Apenas as cantinas são especiais. “Temos duas lanchonetes, uma vegetariana e outra
kasher

(com alimentos preparados segundo os preceitos judaicos) e não há uma preferida. Os alunos revezam suas preferências.”

Já na Escola Islâmica Brasileira há aulas de religião e de árabe, mas elas não são obrigatórias. “A maioria dos estudantes as freqüenta porque são de famílias islâmicas”, conta o sheik Mohammed Amame, responsável religioso da escola. “Mas temos vários alunos de outras religiões, cujas famílias desejam um ensino de qualidade e uma formação moral forte.”

Os estudantes que seguem o islamismo são liberados para praticar orações nas duas salas que a escola mantém especificamente para esse uso. “Seguimos os preceitos. Assim, os meninos ficam na frente, depois vêm as meninas.” As alunas de famílias tradicionais também são liberadas para usar véus e as festas típicas da religião são comemoradas no colégio.

“Temos espaço para todos: os mais conservadores, os mais liberais, os que não seguem a religião. Falamos sobre todos os profetas e acreditamos que uma escola deve, acima de tudo, educar para um mundo sem preconceitos”, afirma o sheik. “O importante é que cada família busque a escola que acredita ser melhor para sua criança, seja ela religiosa ou não.”



Material de apoio tem proposta ecumênica




Uma coleção de livros didáticos sobre religiões e um jogo que tem como tema os missionários bíblicos chegam ao mercado com a proposta de ajudar os professores que abordam a educação religiosa na sala de aula.
Todos os Jeitos de Crer

, de Alessandro Cesar Bigheto e Dora Incontri (Editora Ática), reúne quatro volumes direcionados ao segundo ciclo do ensino fundamental, abordando diversas religiões – catolicismo, protestantismo, judaísmo, islamismo, budismo, hinduísmo, espiritismo, confucionismo e taoísmo, entre outras – e seus principais expoentes.

“A maioria dos livros didáticos fala apenas de uma religião. Queríamos fazer uma coleção que desse uma visão geral sobre várias delas”, explica Bigheto. “Não havia nada desse tipo publicado no Brasil. Sentimos que era um anseio dos educadores e dos estudantes.” Além de apresentar as religiões, de mostrar seu contexto histórico-político e sua produção científica, artística e filosófica, os livros propõem uma análise crítica sobre cada uma delas. “O objetivo é que o estudante se aprofunde no tema e tenha elementos para debater e até escolher sua religião”, afirma. “O ensino religioso não pode ser dogmático, tem de ser amplo para não cair no preconceito.”

Evitar o preconceito é também o objetivo de Rodrigo Bertozzi, autor do recém-lançado
Missionários – Missão Egito

. Em forma de tabuleiro, o jogo pede que os participantes combatam os sete pecados capitais no papel de personagens bíblicos. “O jogo é cristão, não católico ou evangélico, e pode ter participantes de qualquer idade a partir dos oito anos”, diz. “Queríamos trabalhar valores como o bem e o mal, presentes em outros brinquedos, de uma forma mais profunda, com sentido.”

Para atrair as crianças e os jovens, Bertozzi criou personagens em forma de desenhos modernos, no estilo dos mangás (desenhos japoneses). “Não queríamos fazer um jogo bobo. O tema está ligado à fé, à oração e à religiosidade, mas não é nada antiquado”, conta. “Tenho certeza de que os jovens vão se identificar.” O material vem acompanhado de um livro e pode ser utilizado nas escolas. “É uma forma leve e divertida de ensinar história, geografia, filosofia ou religião”, acredita. “Quando um aluno entra em contato com um mundo novo, envolvente e colorido, fica curioso para saber mais e o jogo é um bom ponto de partida para isso.”







Reportagem: Daniela Tóffoli




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