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Defendida como solução para acelerar o processo de formação inicial de docentes, a educação a distância cresce no Brasil. Mas está longe de ser consensual

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O Brasil tem um problema sério em educação, que ninguém desconhece: a falta de eficiência no aprendizado de seus alunos. Isso pode ser constatado no dia-a-dia de quem lida com questões de ensino ou mesmo por leigos que simplesmente acompanham o noticiário por jornais e pela TV, já que o assunto é recorrente. Mas pode ser verificado também em números como os apresentados no Relatório de Monitoramento Global produzido em 2004 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no qual, entre 127 países, o Brasil aparece em 72º lugar no Índice de Desenvolvimento do Educação para Todos (IDE), que funciona como um sinalizador da situação mundial da educação. E se entre os itens que fazem parte do IDE o Brasil ocupa a 32ª posição no que se refere à educação primária universal, está em 87º em termos de qualidade de ensino.

Os motivos dessa medíocre posição nacional – pelo mesmo indicador estamos em 10º lugar entre os 16 países da América Latina – são muitos e diversos. O relatório Escassez de professores no ensino médio: propostas estruturais e emergenciais, produzido por uma comissão da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE) e divulgado em maio de 2007, revela que, nas escolas públicas de ensino médio, apenas em língua portuguesa, biologia e educação física mais de 50% dos professores possuem licenciatura específica das disciplinas nas quais atuam. Em física, o índice é de 9%, química, 13%, e em matemática, 27%. O mesmo estudo aponta outra fonte do problema: a necessidade de novos docentes. Só na rede pública do ensino médio, o déficit é de 235 mil professores. Os casos são graves em todas as áreas, mas principalmente em física e química, que tiveram apenas cerca de 7 mil e 13 mil licenciados entre 1990 e 2001, respectivamente. Esses números fazem parte do diagnóstico da deficiência do sistema educacional público brasileiro, que detecta também, entre outros fatores, os pobres investimentos governamentais na área e os baixos salários pagos aos docentes.

Entre as muitas medidas emergenciais e estruturais sugeridas às autoridades governamentais pelo relatório do CNE para sanar o problema, há a instituição de uma política nacional de formação de professores, diversas formas de incentivo à docência, mais investimentos na Educação Básica e o estabelecimento de um piso salarial para os professores. E também uma recomendação ao Ministério da Educação (MEC) para que amplie a oferta de cursos de licenciatura a distância como meio para formar professores, “principalmente devido ao grande déficit atual e às dimensões continentais do Brasil”. Mas, adverte, “é preciso verificar e garantir o sucesso e a eficiência desses métodos”.


Regina Vinhaes, professora da UnB e conselheira do CNE: “melhor uma formação a distância bem feita do que nada”

Hora da inflexão

A sugestão da comissão do CNE chega no momento em que o MEC vem apostando alto na modalidade educação a distância, ou EAD. O ministério conta com um departamento específico, a Secretaria de Educação a Distância (Seed), situada no mesmo nível hierárquico de secretarias como as dedicadas à Educação Básica e à Educação Superior, que dá suporte a programas de implantação de tecnologia do MEC, entre os quais os de ensino a distância. Ao mesmo tempo, fortalece a Universidade Aberta do Brasil (UAB). Subordinada à Coo­r­­­­­­de­nação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a UAB é voltada para a graduação por EAD, principalmente na capacitação de professores para o Ensino Básico em municípios do interior sem oferta de educação superior pública. A Universidade Aberta vem recebendo atenção especial e investimentos significativos, o que sugere uma posição estratégica para a EAD na política educacional do governo federal.

Apesar do nome, a Universidade Aberta não é uma universidade, e sim uma articuladora nacional de cursos a distância oferecidos por instituições públicas de ensino superior em convênio com governos estaduais e municipais, que são parceiros no financiamento da infra-estrutura dos pólos onde são ministradas as aulas presenciais. No segundo ano de funcionamento, a UAB conta com 291 pólos, 181 cursos coordenados por 30 universidades federais e dez centros federais de educação tecnológica (Cefet), 35 mil alunos, dos quais 23,5 mil de pedagogia e licenciaturas (27,1% do total). Espera alcançar 100 mil estudantes em dezembro de 2008, que passarão a freqüentar também os 271 pólos recém-criados, onde serão oferecidas mais 201 opções de cursos.
 

Solução discutível


Se o MEC joga suas fichas na EAD, a modalidade não é vista unanimemente por especialistas em educação como método para a formação de professores que deve ser aceito sem discussões.

“A formação inicial deve ser sempre presencial”, afirma Regina Vinhaes­, doutora em Educação e professora da Universidade de Brasília. No entanto, Regina avalia que “na educação continuada, ou seja, naquela em que o professor já é professor, ele precisa, como qualquer profissional, de constante atualização. Essa atualização, um novo olhar que se pode colocar sobre a educação em termos de novas tecnologias e novos mecanismos de processos educativos, pode e deve ser feita a distância”. E abre exceção também para locais onde a formação presencial não é possível. “Por exemplo, na região amazônica, onde pequenas vilas precisam de professores e cujo acesso é de barco, durante dias. É impossível que uma instituição superior possa se deslocar para esses lugares. Então, nesses casos específicos, uma formação a distância cabe. Porque é melhor uma educação a distância bem feita do que nada”, diz.

A posição de Regina Vinhaes sobre a EAD é semelhante à do Conselho Nacional de Educação, do qual faz parte. Segundo a educadora, “o conselho sempre se pronuncia favoravelmente à formação inicial presencial. Mas tem algumas resoluções e pareceres sobre a possibilidade de se ter formação de uma maneira indireta semipresencial para casos específicos”.
 


É preciso planejar os momentos presenciais para que o curso a distância tenha significado para o educando, diz Rita Lino, da Abed

Integrante da diretoria da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), entidade que promove essa modalidade de ensino no país, a pedagoga e doutora em Semiótica e Lingüística Geral, Maria Rita Lino, vê a EAD para a formação de professores sob duas óticas. Pelo lado positivo, como um meio de levar conhecimento para as localidades mais distantes. “Com isso, é possível que o professor tenha alguma fundamentação, algum conhecimento para auxiliar outros na sua aprendizagem”, afirma. Por outro lado, diz: “A gente constrói o perfil do professor a partir das nossas experiências. No ensino presencial eu vou vivenciando, sentindo como as coisas acontecem na sala de aula, e isso faz com que eu reflita e construa o perfil do professor”. E conclui que se a formação é apenas a distancia, não haverá esse diferencial. Por isso, defende Maria Rita Lino, os encontros presenciais precisam ser muito bem planejados. “No curso de formação de professores, é preciso uma proposta muito bem elaborada que objetive a troca de experiências, a condução de conhecimento, que permita ao aluno vivenciar as situações presenciais de modo que ele possa construir o referencial para a prática educativa presencial que terá com seus alunos.”

Maria Rita Lino, que também coordena os cursos do núcleo de educação a distância da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), vê vantagens no uso da tecnologia de EAD, na medida em que exige uma maior participação do aluno. “Na nossa história da educação, a gente percebe que o aluno sempre cumpriu um papel mais passivo na sala de aula. O professor chega, dá aula e determina um tempo para as atividades. Quem dá as regras do jogo, do processo, é o professor. No ensino a distância, a gente tem uma situação diferente. Eu preparo todo o processo, mas quem decide como realizar o processo é o aluno.”

A EAD pode formar alunos iguais ou até melhores dos que os do ensino presencial. Essa é a conclusão que o diretor de Educação Básica Presencial da Capes, Dilvo Ristoff, expõe no artigo Resposta à Exclusão – Educação a Distância se Consolida no Brasil, de 2008. Comparando dados das últimas edições do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), Ristoff mostra que, em 2005 e 2006, de 13 áreas analisadas, os alunos de cursos a distância tiveram notas superiores em nove em relação aos dos cursos presenciais. Inclusive nos de Normal Superior e Pedagogia. Quando se avalia o desempenho médio de ingressantes e concluintes, a vantagem da EAD cai um pouco, dos nove para sete cursos analisados.

O diretor da Capes adverte que, pelo pouco tempo de existência no Brasil, a comparação fica prejudicada, mas de qualquer forma que os alunos a distância não ficam atrás dos presenciais. “A cada dia fica mais evidente que a educação a distância, pelas novas metodologias e técnicas didático-pedagógicas à sua disposição com o advento das novas tecnologias, facilita a apropriação dos conteúdos que devem ser estudados nas várias áreas do conhecimento”, diz Ristoff em seu artigo. E conclui: “Se a educação a distância brasileira seguir a trilha da Open University [universidade a distância inglesa, considerada uma das cinco melhores do país], como os dados dos dois últimos Enades parecem sugerir, não deverá tardar o dia em que os rankings das universidades brasileiras incluirão a Universidade Aberta do Brasil (UAB) entre as melhores. Teremos então dado uma resposta contundente à exclusão e mais um passo significativo rumo ao que todos desejamos: combinar a qualidade acadêmica com a democratização do acesso”.


Roberto Leão, da CNTE: “Quem vai lidar com a vida dos jovens pode ter uma formação de dois, três anos?”

Dedicação individualizada

A EAD pode ser uma oportunidade para democratizar oportunidades na formação de professores, principalmente em regiões isoladas do país, afirma Justina Iva de Araújo Silva, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). No entanto, ela acredita que, para esse fim, o ensino presencial é preferível. “O conhecimento se dá também por meio da troca, da interação, da discussão coletiva. E quando eu estou em uma sala de aula, tenho a oportunidade de aprender com os outros, todos aprendem um pouco. É possível explicitar dúvidas, divergências, enfim, crescer coletivamente. É diferente de um curso que faço sem ter alguém ao meu lado com quem possa dialogar, discutir, trocar idéias, tirar dúvidas”, afirma Justina Iva.

A presidente da Undime acredita também que estudar isoladamente, além de constituir um processo menos estimulante, pode ter conseqüências negativas. Dando como exemplo um curso de gestor educacional, oferecido no Rio Grande do Norte, Justina Iva conta que a taxa de evasão foi elevada. “Era um curso a distância e uma grande parte dos alunos desistiu. Eu creio que se estivessem juntos, apoiando-se mutuamente, estimulando um ao outro, discutindo, crescendo juntos, quem sabe esse índice de abandono poderia ser menor”, afirma.

A pedagoga e ex-professora de língua portuguesa na rede municipal de São Paulo, América dos Anjos Costa Marinho, considera a interação direta entre o formador e formando “uma experiência imperdível”. De acordo com América, que atua há 26 anos na formação de professores, coordenadores pedagógicos e multiplicadores – aqueles que terão a função de também capacitar docentes -, o contato pessoal proporcionado pelo ensino presencial é muito importante. “Nada como o olho no olho, poder olhar, tocar a pessoa, mostrar como se faz. Mesmo que seja para ela fazer diferente. No mundo virtual, por mais que você use todos esses mecanismos [da tecnologia], sempre tem um distanciamento.”


Para América Marinho, do Cenpec,”a comunicação instantânea limita as possibilidades do que você pretende ensinar”

Interação capenga

Profissional há 13 anos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), ONG dedicada à valorização do ensino público, América Marinho participa de programas de aperfeiçoamento de professores que utilizam a comunicação via internet como uma ferramenta. Durante dois anos coordenou uma comunidade virtual de um dos projetos do Cenpec. Segundo ela, os fóruns, “que eram para levantar uma questão polêmica e discutir com todos os participantes, nunca funcionaram direito. Mesmo os bate-papos, mediados ou não, que a gente fez para discutir algumas questões, sempre tiveram poucos participantes, embora a gente os divulgasse bastante”. De acordo com a educadora, sua experiência demonstra que existem problemas na utilização da web. “Essa questão da comunicação instantânea limita as possibilidades do que você pretende ensinar, do que você pretende discutir, porque as pessoas ainda não estão familiarizadas. Os jovens funcionam muito bem. Eles já estão mais familiarizados. Mas as pessoas que estão por volta dos 30, 40 anos, que é a média dos professores com quem a gente trabalha, têm mais dificuldade. E quanto mais velhos, maior a dificuldade. E quanto menor o lugar onde elas vivem, também essa dificuldade aumenta. Aí é dificuldade técnica mesmo. São lugares onde a comunicação não chega e que não têm banda larga.”

A representação sindical dos professores, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), acredita que a educação a distância só deve ser aplicada em casos muito excepcionais, como na formação continuada, e mesmo assim por instituições públicas. “Mas na formação inicial entendemos que é imprescindível ao futuro professor o relacionamento com outros que serão também professores. A troca de impressões, a possibilidade de eles terem suas dúvidas e seus questionamentos sanados imediatamente pelos professores podem suscitar um debate muito interessante que auxiliará na formação. Isso para nós é fundamental. Achamos que o futuro professor precisa ter essa formação presencial”, afirma Roberto Leão, presidente da entidade.

Para Leão, também professor da rede estadual de São Paulo, o ensino a distância para a formação de docentes é uma amostra de como a educação é tratada no país: “Quando uma pessoa se forma em qualquer outra profissão, temos a formação presencial. Não se pode ter médico formado a distância, engenheiro, nem veterinário. E por que um profissional que vai lidar com crianças, com jovem, com adolescente, que vai lidar com gente e contribuir na formação e ter influência na formação desse futuro cidadão ou cidadã, pode ter uma formação aligeirada, sem aprofundamento?” E acrescenta, em tom veemente: “Com todo o respeito que temos pela vida dos seres irracionais, a formação de um veterinário demora quatro ou cinco anos. E por que quem vai lidar com a vida dos nossos filhos, dos nossos jovens, pode ter uma formação de dois, três anos? Tem algo errado aí. A solução é uma formação de qualidade e presencial”.


Indicadores


Uma das questões fundamentais para balizar quanto a expansão da modalidade a distância pode ser eficaz é a criação de um indicador similar ao Ideb, utilizado na Educação Básica. Ou seja, além de medir o desempenho por meio de avaliações como o Enade, é preciso também avaliar os números de fluxo da EAD para ter uma dimensão mais exata da evasão.
Na graduação presencial, por exemplo, em 2006 houve um total de 4,6 milhões de alunos inscritos, contra 753 mil que desistiram ou trancaram matrícula, o que representa 16,1% do total. No caso da EAD, não há números confiáveis. O último anuá­rio da Abed aponta os mesmos 16%, mas a amostragem é inexpressiva (95 questionários). Representantes do setor acreditam que o percentual seja até três vezes maior do que isso.


Veja também:


Suor em dobro



A inspiração



Os rumos da EAD pública

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