Professor não é mal pago e isso não importa

Estudos mostram que não há relação significativa entre salário dos docentes e performance dos alunos

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Tenho duas notícias boas para o país e péssimas para os professores: os professores brasileiros não são, em média, mal pagos; e isso não faz muita diferença, porque não há evidência empírica que sugira que salários maiores geram educação melhor. Não rasgue nem cuspa na página, por favor. Me dê cinco minutos para uma rápida explicação.

Sempre fiquei intrigado com essa história de que salário de professor fosse baixo, porque é uma das carreiras mais populares do país e seu número não pára de crescer. Excluindo-se o masoquismo em massa, não há nenhuma razão para se imaginar que tantas pessoas continuariam a entrar em carreira de salário discriminatório. Não faz sentido.

Fui à cata de dados a respeito para meu último livro e confirmei essa impressão. Primeiro, temos de definir os termos. Quando se diz “mal pago”, se quer dizer “pago injustamente mal”. Em valores absolutos, quase toda a humanidade acha que trabalha mais do que deveria e recebe menos do que merece. Pra que a análise não seja totalmente subjetiva, precisamos comparar horas trabalhadas e as variáveis pessoais do profissional, especialmente idade e nível educacional.

Quando essa comparação é feita (os estudos mais completos que eu conheço são de Emiliana Vegas e Xiaoyan Liang), nota-se que há bolsões de salários baixos – especialmente nas áreas rurais e do Nordeste – mas, na média, não há diferença entre os professores e não-professores. Quando se leva em conta tempo de férias, estabilidade no emprego e plano de pensão, observa-se que os professores têm salários maiores do que os não-professores com o mesmo perfil educacional e etário. 11% a mais, pra ser exato, segundo Liang. O que faz mais sentido, dados a popularidade da carreira de professor e seu contínuo aumento no país. E não quero dizer aqui que os professores ganham o que merecem: ganham menos do que deveriam, mas por viverem num país pobre como o Brasil, não por serem professores.

Felizmente, isso não importa muito. Porque a maioria dos estudos, tanto para países desenvolvidos (os de Eric Hanushek são os mais conhecidos) quanto para subdesenvolvidos (Fuller e Clarke ou Velez, Schiefelbein e Valenzuela) e para o Brasil (alguns dos melhores e mais recentes estudos vêm de Francisco Soares e Elaine Pazello e Naércio Menezes Filho), mostram não haver relação positiva e significativa entre salário de professores e performance dos alunos. Quando essa relação aparece, é preciso um enorme aumento de salários para uma melhoria minúscula nos resultados dos alunos.

Isso é bom pro Brasil porque somos um país pobre. Se fosse indispensável dar salários altos pra se obter qualidade de educação, estaríamos ferrados. O que é ruim é que professores, diretores, sindicatos, secretários e ministros vêm martelando há tantos anos que o problema da educação brasileira é o baixo salário dos professores que todos se convenceram. Fica todo mundo choramingando que com esse salário não dá. O que é sempre uma boa forma de se eximir do seu próprio fracasso e de suas próprias incompetências.

A culpa é, claro!, do FMI.




Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico com especialização em economia de educação.

E-mail:



desenbucha@uol.com.br



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