Primeiros passos

Ministro da Educação faz balanço dos primeiros oito meses de governo e aponta seus principais desafios e projetos para os próximos três anos

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Carolina Costa

Enviada a Brasília (DF)

Cristovam Buarque não esquece os desafios que tem até o fim de seu mandato. “A desigualdade na educação entre pobres e ricos de hoje é maior do que entre senhores e escravos no século XIX.” “Cinqüenta e nove por cento dos alunos da 4ª série não sabem ler adequadamente.” As paredes do gabinete do ministro da Educação, em Brasília (DF), estão cheias de cartazes com reproduções de manchetes de jornal. Consciente da impossibilidade de se fazer uma “revolução educacional” em seis meses, Cristovam defende que “não está devendo nada” se comparado ao início da gestão Paulo Renato Souza. Em entrevista exclusiva para
Educação

, o ministro se diz “envergonhado” por ainda não ter conseguido aumentar o valor do Bolsa-Escola e diz que a competência do MEC será medida ao se “investir em educação sem trazer de volta a inflação”.




Revista Educação –
O PT esperou 20 anos para chegar ao poder. O sr. não acha que o partido tinha obrigação de apresentar metas mais claras para a educação?




Cristovam Buarque –



Não se pode cobrar que em seis meses haja uma revolução educacional. Educação é um processo. Você vai fazendo à medida que a idade das crianças vai avançando. A Coréia do Sul levou 40 anos [
para melhorar os índices educacionais

], a Irlanda e a Espanha levaram 30 anos. Nós vamos levar dez, 15, 20 anos para fazer as mudanças que se esperam. Quando se comparam os seis meses desse governo com os seis meses dos outros, você vai ver que não estou devendo nada. Veja o caso das universidades: Fernando Henrique Cardoso, em oito anos, contratou 16.500 pessoas, nós, em seis meses, contratamos 14.500 professores e servidores para as universidades. Pegamos R$ 220 milhões para as universidades, com toda essa crise financeira. Lançamos uma campanha de alfabetização de jovens e adultos que esse país nunca viu; seis meses depois, estamos com 1 milhão sendo alfabetizados. O governo Fernando Henrique, em oito anos, alfabetizou 3 milhões.





O sr. não acha que o atual governo tem um foco muito grande na área econômica?





As pessoas estão vendo que esse governo está conseguindo manter a inflação. É isso que está na mídia. Não se vê gente sendo alfabetizada.





Por quê?





Porque não aparece. Aparece a inflação, é natural. Nos primeiros seis meses do governo Fernando Henrique o que é que aparecia: economia ou educação? Economia, é natural. Vai demorar a aparecer o resultado em educação.





Quando o projeto do Fundeb [
Fundo de Desenvolvimento do Ensino Básico

] será concretizado?





No próximo ano. Na gestão anterior, se viu a criação do Fundef [
Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério

], mas não o resultado. Não por culpa do ministro Paulo Renato, mas porque demora para dar resultado.





O sr. queria aumentar o valor do Bolsa-Escola. Por que não aumentou?





Porque o governo federal deu razões, alegou dificuldades financeiras. E, por outro lado, escolheu, num primeiro momento, o programa
Fome Zero

.





FHC considera o
Fome Zero

um programa demagógico. O que o sr. acha disso?





Eu não vou comentar isso. Desculpe, eu vou comentar, sim. Quando eu li [
a afirmação de FHC

] pela primeira vez, acreditei que não fosse verdadeira. Não existe demagogia quando se procura eliminar a fome; no mínimo, é solidariedade.





O MEC pretende mudar o Provão?





Uma das coisas que eu nunca entendi do pessoal que defende o Provão – e que, portanto, quer avaliar – é não querer avaliar o próprio Provão. Quem defende avaliação avalia tudo. Nós achamos o Provão pouco, é uma avaliação tímida, de quem não queria botar o dedo na ferida. É uma avaliação com um certo fingimento. Avaliação você vai ver é no próximo ano. As pessoas que achavam que o governo Lula ia acabar com a avaliação vão ficar surpresas – e quem queria o fim do Provão vai ficar arrependido.





O vestibular também vai mudar?





A única coisa que eu defendo é vincular a seleção para o vestibular com o ensino médio.





Mas não há vaga para todos.





Nunca vai haver. Isso é uma arrogância da classe média. Não tem sentido a universidade absorver todos. É o mesmo que querer que a seleção brasileira de futebol tenha todos os jogadores. O custo de manter universidade para todos é impossível. Você tem de aumentar vagas, mas nunca acabar com a seleção. Os países que tentaram fazer isso deram com os burros n’água. E, além disso, enganaram o povo. Em vez de fazer a seleção para entrar na universidade, fizeram a seleção dentro da universidade; um sistema muito rígido, que expulsava as pessoas. Ou, então, a estrutura ficou tão inchada que surgiram fora dessas universidades outras que tinham vestibular para escolher quem entrava. Não tem como não fazer seleção. Porque aí você tinha de fechar as escolas públicas para botar o dinheiro na universidade. Ou então fechar tudo o que o país tem e depositar todo o dinheiro em educação. Imagina uma universidade brasileira para 20 milhões.





E a proposta de alunos da rede pública pagarem mensalidade…





Eu nunca disse isso. Eu sou radicalmente defensor do ensino gratuito.





Mesmo para quem pode pagar?





Mesmo para quem pode pagar. Se ele vai ser um médico que está servindo ao país, não tem sentido cobrar depois. Ninguém cobra de quem vai servir ao exército. Médico é tão importante quanto um militar. Agora, ele tem de aprender coisa para servir ao país. Não pode ficar aprendendo coisa que só serve para ele. O que eu disse é que valia a pena debater uma proposta do deputado Padre Roque [
PT

] de cobrar um valor no imposto de renda para os ex-alunos que ganhassem pelo menos R$ 30 mil por ano. Eu sou contra cobrar do aluno. Mas eu acho importante encontrar formas adicionais de financiamento das universidades, além do governo.





Paulo Renato Souza dizia que o sistema de financiamento do ensino superior está quebrado. Qual é a dimensão do problema?





Falta dinheiro. O MEC tem, hoje, R$ 18 bilhões: R$ 5 bilhões vão para o ensino básico, R$ 3 bilhões vão para a Previdência, chegam R$ 10 bilhões para as universidades. Se a gente não tivesse de pagar a Previdência com o dinheiro da educação, esse dinheiro já resolveria o problema da universidade. Mesmo assim, acho que em dois anos faltaria dinheiro de novo.





Investir 5% do PIB brasileiro em educação não é pouco?





A proposta do MEC é que o presidente Fernando Henrique não deveria ter vetado o aumento para 7%. O MEC tem de discutir isso com as autoridades financeiras. Vamos analisar com cuidado, porque o mais importante, hoje, é manter a inflação sob controle.





É mais importante que educação?





Uma das coisas que atrasou por tantas décadas a educação no Brasil foi a inflação. Inflação destrói tudo. Então, o controle deve estar acima de tudo.





Mesmo acima da educação?





Veja bem, mantendo a educação, obviamente. Não trocaria apressar as minhas metas se viesse a inflação. Eu preferiria que elas viessem mais devagar [
as metas para educação

] e não viesse a inflação. A nossa competência vai ser medida entre investir na educação sem trazer de volta a inflação.





O sr. disse que gostaria de ver uma parceria entre MEC e universidades. Como seria isso?





Estou propondo às universidades aumentarmos os recursos para que elas assumam a responsabilidade pela alfabetização por intermédio de seus alunos. O dinheiro que estamos pagando a outras entidades para que alfabetizem nós transferiríamos às universidades, e elas se comprometeriam em transformar cada aluno num alfabetizador. Além de dar dinheiro à universidade, isso melhora a qualidade do aluno. O aluno que for alfabetizador será um profissional melhor, vai viver bem na sua profissão.





Mas os alunos estão preparados?





Nós vamos dar formação para que eles sejam alfabetizadores. Rapidamente se formam esses alunos; eles pegam um semestre apenas, seis horas por semana. É como se fosse uma outra disciplina. Pode-se até tirar uma disciplina. Melhora a formação deles, melhora a imagem da universidade na sociedade e traz dinheiro para a universidade.





Por que o MEC não propõe cotas socioeconômicas nas universidades em vez das cotas raciais?





Eu sou a favor das duas. Mas tem um detalhe: a cota para negros entrarem na universidade não é para beneficiar socialmente. Não vai beneficiar porque é pobre. Até porque, no Brasil, se terminou o ensino médio, tem dente na boca, sapato no pé, já não é tão pobre. Os pobres mesmo, com raras exceções, não terminam a quarta série do primário. A cota para negros é para acabar com a vergonha nacional: um país de origem africana que só tem branco. Hoje, eu recebi aqui, nesse ministério, talvez umas 50 pessoas. Não me lembro de um negro. Isso tem de acabar. A elite brasileira tem de adotar a cor negra também.





As cotas não são discriminatórias?





Mas é o que se chama discriminação afirmativa. Você não é a favor de rampa para os portadores de deficiência? É uma discriminação.





Não, todos podem usar a rampa.





[
Risos

] Boa saída. Mas e uma vaga no estacionamento só para portadores de deficiência? É afirmação para corrigir deficiência. Outro exemplo: quando o presidente Mandela assumiu o governo na África do Sul, só tinha embaixadores brancos. O que ele fez? Disse: a partir de agora, 50% serão negros. Em um primeiro momento, caiu a qualidade. Mas só

os brancos não representavam o ensino. Aqui é assim. A cota não é pra beneficiar o estudante, é para beneficiar o Brasil. Quantas vezes você foi a um médico negro? Não é uma vergonha isso? A cota não vai pegar gente desqualificada. Só vai pegar quem já passou no vestibular, só que não teve vaga. O país precisa mudar a cor de sua elite. Esses meninos e meninas negros que estão entrando por cotas vão ser alguns dos melhores alunos nos seus cursos. Quer apostar? Eu aposto. Porque eles vão ser obrigados a ser bons. A cobrança vai ser grande. Quando eles começarem a tirar boas notas, eles vão envergonhar os outros.

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