Primeiros experimentos

Assista à videoaula do estudante Daniel Guinezi, resultado de um projeto de iniciação científica para o ensino médio

Compartilhe
, / 1697 0

Quem assiste no YouTube à vídeoaula sobre o uso que o cineasta Stanley Kubrick  fez de diversos tipos de lentes na busca de efeitos específicos nos seus filmes não imagina que o trabalho foi realizado por um aluno de ensino médio – a única pista é o símbolo da escola, que aparece logo na introdução. Daniel Guinezi, recém-formado pelo Colégio Móbile, desenvolveu As lentes na sétima arte como resultado de um projeto de iniciação científica na escola. “Normalmente, todos os trabalhos que fazemos são já pré-moldados e só executamos. Com a iniciação, tivemos liberdade criativa pela primeira vez. Fizemos um trabalho mais autoral e que se distingue dos outros dos colegas”, conta Daniel. “Além disso, eu nunca tinha feito uma pesquisa durante meses. Foi bom para ter a experiência do que vamos fazer na faculdade.” Inspirado nesse projeto, ele está prestando vestibular para publicidade e propaganda, com a ideia de produzir vídeos que comuniquem uma mensagem para o público.

A iniciativa do colégio em que Daniel estuda faz parte de um fenômeno que tem aumentado bastante nas escolas particulares e públicas do país. Preocupadas em oferecer aos jovens um preparo para além do vestibular, que abranja a vida acadêmica da graduação e da pós, muitas instituições desenvolveram programas de iniciação científica em diferentes moldes para alunos do ensino fundamental e, especialmente, do médio. Em 2011, o próprio Ministério da Ciência e Tecnologia fez uma recomendação nesse sentido. Criada naquele ano, a Comissão do Futuro da Ciência Brasileira, liderada pelo neurocientista Miguel Nicolelis, tem como objetivo fazer um panorama da pesquisa científica no país e sugerir maneiras de ampliar essa área no Brasil. Uma das estratégias será justamente a de introduzir a pesquisa na escola, com o intuito de criar gosto nas crianças pela ciência desde cedo.



A reportagem “Primeiros experimentos” pode ser lida na íntegra na edição impressa de Educação ou em nosso site (exclusivo para assinantes).

Primeiros experimentos

Jovens estudantes brasileiros se destacam em eventos científicos e mostram que é preciso mais do que talento para driblar as más condições de pesquisa no país

Compartilhe
, / 0 0





Alexandre Sayad

Para os irmãos goianos Wellington, Nickson e Denys Cabral, o conceito de “reciclar materiais” mudou com o tempo. Quando ainda estavam no ensino fundamental, reciclar para eles era desmontar brinquedos, relógios e rádios antigos e transformá-los em outros objetos. “Volta e meia sobravam umas pecinhas, mas mesmo assim construíamos um novo brinquedo”, brinca Wellington, 20 anos, o mais velho dos irmãos inventores.



Já no ensino técnico, o contato com biologia despertou um outro sentido para o conhecimento que os três haviam acumulado. “A gente se perguntava para onde ia tanto material jogado no lixo todo dia”, lembra o caçula Denys, de 16 anos. Juntos, pensaram em como desenvolver um centro de reciclagem completo.

C

om custo quase zero, aproveitando restos de materiais, os três irmãos criaram uma maquete completa de um centro modelar de reciclagem e ainda um braço mecânico que coleta o lixo. O experimento foi elogiado por especialistas e entidades ambientais brasileiras para os quais foi apresentado.

E

nquanto isso, na pequena cidade de Sarutaiá, interior de São Paulo, dois amigos – um no ensino médio e outro no técnico – começaram a fazer o primeiro projeto conjunto usando uma tecnologia muito parecida com a utilizada pelos irmãos de Goiânia (GO).



Na mesma época, Francisco Selles, 20 anos, estimulado pela feira de ciências da Escola Técnica de Eletrônica de Ipaussu (SP) e aproveitando sua habilidade em programar microcontroladores, desenvolvia o robô-peixe, invenção que iria dar um novo rumo à sua vida.



Queria um robô que se locomovesse, mas programar pernas ainda é um pouco complicado, então, resolvi criar um que nadasse”, explica Selles. O robô, capaz de coletar materiais em profundezas de lagos, rios e mares, tem uma “boca” que funciona como uma mão mecânica.



Para dar um visual moderno ao invento e ao mesmo tempo um formato que facilitasse sua submersão, Selles incentivou o amigo Nei Alcântara, que costumava projetar carros e brinquedos, a participar da empreitada. “Nunca me imaginei um inventor, mas o Francisco me convenceu de que minha participação era importante”, conta Alcântara. O robô ficou mesmo com a cara de um peixe futurista, inteiramente isolado com borracha preta.



Apesar de esses cinco jovens cientistas utilizarem conhecimentos semelhantes e terem interesses comuns, só puderam se conhecer e compartilhar experiências e expectativas graças a duas iniciativas: foram premiados pela Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) promovida pela Escola Politécnica da USP e puderam então ir a Cleveland (EUA), para a Feira Internacional de Ciências e Engenharia (Isef).



Apesar de talento e criatividade serem fundamentais para o desenvolvimento de projetos como esses, a falta de políticas públicas e iniciativas escolares para iniciação científica faz com que a persistência seja uma característica fundamental para não se desistir no meio do caminho. “Muitas escolas ‘estragam’ o aluno e tornam o ‘criativo’ um excluído”, dispara Roseli Lopes, professora da Poli e coordenadora-geral da Febrace, uma das poucas feiras de ciências de âmbito nacional no Brasil.

P

ara ela, o aluno carrega, quando criança, a criatividade e a inventividade e a escola tem um importante papel social ao resgatar isso. “Infelizmente, o que se vê não é isso. São laboratórios trancados. Muitas escolas não deram a mínima para os prêmios recebidos na Febrace, nem ajudaram os alunos na vinda a São Paulo”, lamenta.



Roseli teve a idéia de montar a Febrace devido ao seu contato como jurada na Isef, a maior feira de ciências escolar do mundo. “É uma feira ampla, não engloba só as matérias exatas e biológicas, mas as humanas e as artes”, explica. Segundo Irene Karaguilla, professora que também atua na coordenação da Febrace, a feira encurta a distância entre ensino médio e superior: “O objetivo é também aproximar alunos do ensino médio de estudantes de graduação, pós-graduação, estagiários e professores”, observa.



Sob o mote de
Inovação e Criatividade

, a Febrace premiou, em março, estudantes do Brasil inteiro e selecionou muitos dos projetos que representaram o país na Isef. “Não contemplamos só a metodologia, mas, principalmente, a criatividade, o trabalho em conjunto e a capacidade de aplicar o conhecimento”, afirma Roseli.



O robô-peixe recebeu na Febrace seu primeiro prêmio, o da Marinha Brasileira. “Não esperava esse prêmio. Me lembrei do meu primeiro projeto, um abanador elétrico, e de quando ainda pensava o que fazer com o material que meu pai deixou em sua fábrica quando morreu”, relembra Francisco Selles.



A exemplo dos irmãos goianos, Selles também utilizou sobra de material para a construção do robô-peixe, que acabou custando R$ 400. “Se fôssemos pagar tudo, o robô não sairia por menos de R$ 1 mil e não poderíamos construí-lo”, completa.



A difícil situação financeira dos estudantes paulistas e dos irmãos goianos não os impediu de criar seus inventos, mas por pouco não atrapalhou a ida aos EUA, rumo à Isef. Mesmo com pouca ajuda das escolas, os jovens inventores apertaram o orçamento, driblaram o desconhecimento da língua e conseguiram embarcar.



O evento, patrocinado pela fabricante de microprocessadores Intel, já é uma tradição no país que mais produz conhecimento científico no mundo. Existe há 54 anos e reúne trabalhos de 35 países. Realizada em Cleveland, Estado de Ohio, a edição de 2003 foi a que levou o maior número de estudantes brasileiros. “O melhor é que, no caso brasileiro, os 19 estudantes não se restringem a São Paulo, mas vêm de Goiás, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, entre outros locais”, comemora Rui Castro, gerente de educação da Intel Brasil.



Durante cinco dias, os estudantes brasileiros expuseram seus inventos em estandes no Centro de Convenções de Cleveland, conheceram projetos de colegas de outras partes do mundo, assistiram atentos a debates com astronautas e prêmios Nobel e fizeram contatos com empresários e professores que se interessaram por seus experimentos.



“Muitas pessoas vieram falar com a gente, disseram que gostariam de ver nosso projeto no mercado e perguntavam se já tínhamos patenteado”, conta Selles. Assim como ele, 80% dos participantes não patentearam os projetos devido ao alto custo.



Os irmãos Cabral e o centro de reciclagem com braço mecânico foram personagens de várias reportagens em telejornais americanos. “Apesar da dificuldade com a língua, os goianos deram um baile e encantaram muitos dos outros expositores”, orgulha-se Roseli Lopes. Além da premiação oficial do evento, estimada em US$ 3 milhões, associações, instituições e órgãos do governo americano premiaram alguns projetos com quantias menores, como incentivo científico. O robô-peixe não ficou de fora: a Sociedade Americana de Inteligência Artificial contemplou os estudantes com US$ 500.



Independentemente das cifras e da repercussão internacional, o que ficou gravado na mente dos estudantes brasileiros foram os contatos que surgiram na Isef. “Conheci muitos outros experimentos e vi que tem gente criando em todos os cantos do mundo, não fazia idéia disso”, relata Selles.



O estímulo recebido pela participação nas duas feiras abriu caminhos e perspectivas. Francisco Selles e Nei Alcântara resolveram investir o prêmio recebido em Cleveland em um computador e aulas de inglês. Nei sonha com o Instituto de Tecnologia Aeroespacial (ITA), enquanto Francisco já planeja o próximo invento: “Será um robô feito para localizar e apanhar livros em bibliotecas que têm estantes muito grandes.”



Já os irmãos Cabral, de Goiânia, estão divididos entre seguir carreira em engenharia mecatrônica ou biologia. “Aprendemos mais sobre as duas carreiras quando projetávamos nosso invento”, explica Denys.




Mulheres em peso –

Não foram só grandes cifras da premiação ou mesmo a quantidade de estudantes participantes que causaram surpresa na Isef 2003. Um olhar mais atento aos números e à própria movimentação da feira revelava algo surpreendente: pela primeira vez na história do evento o número de estudantes mulheres quase se igualou aos homens (48% dos inscritos eram garotas).



Para Roseli Lopes, que também foi jurada da Isef, a percepção de que engenharia e ciências exatas são carreiras predominantemente masculinas é uma questão cultural que deve ficar no passado. “Desde os brinquedos existe essa separação; em algumas empresas, as mulheres ainda sofrem muito, mas, aqui, sinto que a participação feminina é cada vez maior”, acredita.



A presença feminina também marcou os grandes premiados do evento, que levaram os cobiçados
Top Prizes

com valores que chegaram a US$ 50 mil. A canadense de origem paquistanesa Anila Madiraju, por exemplo, realizou seu projeto junto a um renomado centro de pesquisa médica. Anila desenvolveu uma técnica para combater as células cancerígenas utilizando RNA (ácido ribonucléico). “O tratamento evita os efeitos colaterais das técnicas atuais”, defende.



No caso brasileiro, o único projeto que recebeu um prêmio oficial também teve a participação feminina. Liliane de Almeida subiu ao palco do Centro de Convenções de Cleveland de mãos dadas com Pedro Castagna, da Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, de Novo Hamburgo (RS), para receber o prêmio pelo quarto lugar na categoria
Projeto Coletivo de Engenharia

. Ambos criaram um programa que analisa profundamente as diferenças de tingimento entre amostras de couro, permitindo ao fabricante aproximar cores e tonalidades. “O couro é a principal atividade de nossa região. Isso nos despertou para a questão e então resolvemos desenvolver o programa”, explica Liliane.



Outro destaque do Brasil, a gaúcha Daniele Matos, resolveu investigar o destino de pilhas e baterias descartadas em lixo comum. Numa análise de três grandes marcas, Daniele percebeu que elas continham mais metais pesados do que a quantidade exigida por lei para que pudessem ser descartadas dessa forma. “A empresa deveria recolher as pilhas usadas; em vez disso, havia selos indicando ‘lixo comum’ na embalagem”, conta. O próximo passo é um estudo mais detalhado de impacto ambiental.



Já a paulista de Araraquara (SP) Tamíris Pereira foi responsável por levar à Isef o invento brasileiro mais divertido, talvez porque fosse a caçula da turma, com apenas 14 anos. Sua caixa genética é como um brinquedo: um jogo de luzes permite que os tipos sangüíneos de um pai e uma mãe sejam registrados no aparelho; a combinação de cores das luzes aponta a probabilidade sangüínea dos filhos daquele casal.



Tamíris ficou intrigada quando seu pai, professor de matemática, propôs a ela a construção de um projeto interdisciplinar que despertasse o interesse de estudantes. “Eu adoro biologia, mas ainda estava na oitava série; meu pai me orientou muito nesse campo.” A genética agora não será problema para ela no ensino médio, onde acaba de ingressar.



Não foram só os estudantes inventores os premiados na Isef. Experiências educativas de professores e instituições também foram reconhecidas no evento. Trata-se da categoria
Excelência em Ensino

, que levou cinco finalistas a Cleveland: dois americanos, um chinês, um russo e um brasileiro.



O prêmio não deixava nada a desejar ao dos estudantes: US$ 5 mil como incentivo pessoal e US$ 20 mil para investimento no trabalho pedagógico. O primeiro lugar foi conferido ao chinês Guashou Zeng, de 59 anos, que leciona na província de Fujian. Em seu trabalho, o educador incentiva os alunos a pensarem projetos científicos de cunho social e ambiental, levanta fundos para a realização e ainda treina professores de outras cidades da região.




Professores premiados –

Os brasileiros Alberto Dalmolim Filho e Hélio Luiz Brochier, representando a Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, de Novo Hamburgo (RS), ficaram com o honroso quarto lugar, entre os mais de 53 inscritos. “Chegamos aqui pela primeira vez porque consideramos a pesquisa um elemento importante no ensino técnico. Não pesquisamos apenas para projetos específicos, mas em todas as disciplinas”, explicou Brochier.



Mesmo sem ter ganhado o primeiro lugar, a América Latina apareceu como um potencial celeiro de projetos educativos e científicos durante um debate que reuniu cinco prêmios Nobel na Isef. Leon Lederman, prêmio Nobel de Física em 1988, afirmou que a falta de investimentos prejudica a performance internacional dos cientistas latino-americanos. “Visitei países da América Latina mais do que qualquer outro lugar do mundo e me impressionei com o que vi”, disse. “Os baixos salários infelizmente não permitem o intercâmbio internacional desses pesquisadores e professores, o que restringe o desenvolvimento da pesquisa.”


Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN