Primeiros experimentos

Programas de iniciação científica preparam os alunos para a vida acadêmica a partir do desenvolvimento de habilidades como organização do estudo, introdução à pesquisa e ampliação da capacidade de abstração

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Gustavo Morita
Daniel Guinezi: monografia sobre o cineasta Stanley Kubrick

Quem assiste no YouTube à vídeoaula sobre o uso que o cineasta Stanley Kubrick  fez de diversos tipos de lentes na busca de efeitos específicos nos seus filmes não imagina que o trabalho foi realizado por um aluno de ensino médio – a única pista é o símbolo da escola, que aparece logo na introdução. Daniel Guinezi, recém-formado pelo Colégio Móbile, desenvolveu As lentes na sétima arte como resultado de um projeto de iniciação científica na escola. “Normalmente, todos os trabalhos que fazemos são já pré-moldados e só executamos. Com a iniciação, tivemos liberdade criativa pela primeira vez. Fizemos um trabalho mais autoral e que se distingue dos outros dos colegas”, conta Daniel. “Além disso, eu nunca tinha feito uma pesquisa durante meses. Foi bom para ter a experiência do que vamos fazer na faculdade.” Inspirado nesse projeto, ele está prestando vestibular para publicidade e propaganda, com a ideia de produzir vídeos que comuniquem uma mensagem para o público.


A iniciativa do colégio em que Daniel estuda faz parte de um fenômeno que tem aumentado bastante nas escolas particulares e públicas do país. Preocupadas em oferecer aos jovens um preparo para além do vestibular, que abranja a vida acadêmica da graduação e da pós, muitas instituições desenvolveram programas de iniciação científica em diferentes moldes para alunos do ensino fundamental e, especialmente, do médio. Em 2011, o próprio Ministério da Ciência e Tecnologia fez uma recomendação nesse sentido. Criada naquele ano, a Comissão do Futuro da Ciência Brasileira, liderada pelo neurocientista Miguel Nicolelis, tem como objetivo fazer um panorama da pesquisa científica no país e sugerir maneiras de ampliar essa área no Brasil. Uma das estratégias será justamente a de introduzir a pesquisa na escola, com o intuito de criar gosto nas crianças pela ciência desde cedo.


“Essas iniciativas aumentaram muito a partir de 2010, e hoje temos muitas delas disseminadas pelo país inteiro”, afirma Cristiane Braga, coordenadora da etapa Avançado do Provoc (Programa de Vocação Científica), da Fiocruz. O Provoc é a iniciativa do gênero mais antiga no país, criada em 1986 e hoje conveniada com 17 instituições – 11 escolas públicas, três da rede particular e três ONGs. Cada escola parceira faz uma seleção e encaminha 15 candidatos. Em uma primeira etapa, o aluno vivencia durante um ano o dia a dia do trabalho do pesquisador, integrado à equipe, e apresenta um trabalho para a comunidade universitária. A partir disso ele pode se candidatar à segunda etapa, para se aprofundar no tema que começou a estudar, elaborar um projeto de pesquisa e o desenvolver ao longo de 22 meses, com a orientação de pesquisadores da Fiocruz.


Em 2010, a instituição criou, em 2010, o Observatório Juventude, Ciência e Tecnologia para mapear, sistematizar, analisar e difundir informações passíveis de auxiliar alunos da Educação Básica que se interessam pela pesquisa acadêmica e pelas ciências e tecnologia. Parte do projeto consiste em encontrar todos os programas de iniciação científica para escolas de ensino fundamental e médio no Brasil. Até agora foram relatadas 76 delas, a maior parte envolvendo a rede pública.


Uma das justificativas para o crescimento está na criação do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (Pibic-EM), que oferece bolsas de estudo para alunos de nível médio (e, no futuro, ensino fundamental) de escolas públicas, formatado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 2010. “Quando o CNPq abraçou a ideia, criou várias regionais pelo país, e isso espalhou a iniciação científica pelo Brasil”, explica Cristiane. O Pibic-EM permite que os alunos trabalhem durante um a três anos nos laboratórios de universidades pelo Brasil afora. Em dois anos, o programa já ofereceu 5.588 bolsas para 113 instituições.








Gustavo Morita
Estudantes do Colégio Equipe: monografia entra como disciplina obrigatória no currículo
Âmbito privado
Nas escolas particulares, segundo Cristiane, da Fiocruz, a maior parte das iniciativas se concentram na cidade de São Paulo. No Móbile, a iniciação científica não é obrigatória nem faz parte do currículo. Alunos do segundo ano do ensino médio podem se inscrever e se submeter ao processo seletivo, que segue três critérios, semelhantes ao ensino superior: pertinência do tema, desempenho e disponibilidade do aluno (ele não pode ter uma recuperação, por exemplo) e a capacidade dos professores de orientá-lo, pois há um número limitado de vagas.


A partir disso, o processo continua tal como é na universidade, mas com um acompanhamento ainda mais próximo do orientador. O processo inclui levantamento de bibliografia, escolha de fontes de pesquisa, entrevistas, organização de tempo e cronograma. Existem três professores que também desempenham as tarefas de coordenadores de iniciação científica de ciências da natureza e matemática, física e de humanidades. Quando o tema escolhido pelo aluno se desvia muito dessas áreas principais ou quando os coordenadores estão sobrecarregados, outros professores da escola são convidados a orientar.


O diferencial da proposta do Móbile, no entanto, é ter como premissa o compartilhamento dos trabalhos no fim do processo, depois de um ano. Além de fazer e entregar uma pesquisa por escrito, os alunos precisam encontrar uma forma interessante de reproduzir esse trabalho em uma atividade virtual colocada pela escola. No ano passado, foram jogos virtuais. Esse ano são as videoaulas. Com isso, os alunos aprendem não apenas como fazer uma pesquisa acadêmica, mas a dominar uma ferramenta eletrônica como desenvolvedores.


Ponte com a escola
Maria da Glória Martini, professora de física do colégio e coordenadora de iniciação científica de ciências e matemática, explica que os temas, apesar de livres, estão quase sempre ligados ao currículo da escola, mas não são necessariamente abordados pelo saber escolar. Por exemplo: a teoria da relatividade é abordada na sala de aula, mas o professor não necessariamente liga o assunto ao acelerador de partículas desenvolvido pelo Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern). “Eu falo disso na classe? Falo. Mas não com a profundidade que um aluno talvez gostaria, para depois estudar o tópico”, explica, fazendo referência  a um estudante que escolheu justamente esse tema. “Ele entrou no site do Cern, conversou com pesquisadores de Genebra. Para poder ensinar na videoaula, teve de saber ainda mais do que aquilo que estava preparado para falar.” A ideia, segundo ela, é abrir uma janela para que outras pessoas, de outras escolas e outras cidades e estados, possam se aprofundar no tema a partir da apresentação dos alunos.


Essa questão, na verdade, está no cerne de todo projeto de iniciação científica – seja ele feito na universidade ou na Educação Básica: o estudo e aprofundamento individual em um tema especializado. Os alunos aprendem muito com isso, mas a principal intenção da escola é focar o processo e o ato de ensinar a pesquisar: como fazer referências bibliográficas, escolher fontes de pesquisa, organizar o material e o tempo, fazer um recorte pertinente do tema, aprender a desenvolver um texto de fôlego e bem estruturado, lidar com prazos longos.


Tendo isso em vista, o modelo de iniciação científica muda de escola para escola, mas sempre com muita atenção no processo. Uma iniciativa mais comum entre alguns colégios são as monografias feitas de maneira semelhante ao trabalho de conclusão de curso na faculdade. É o caso do Colégio Ítaca, que oferece a monografia como algo obrigatório no segundo ano do ensino médio, sendo que o trabalho vai de abril a novembro. A cada ano a escola propõe um tema amplo e 95 subtemas e os alunos ficam livres, dentro desse contexto, para escolher do que querem falar, podendo se apropriar dos subtemas sugeridos ou não. Esse ano, por exemplo, o grande tema foi a globalização. “Quando pedimos um tema não é para limitar em uma camisa de força, mas para garantir que todos tenham um ponto de partida inicial. São sempre assuntos que estão relacionados de alguma forma à vida deles”, explica Mercedes Ferreira, diretora do ensino médio do Ítaca.


Os alunos escolhem um professor orientador, mas não há uma disciplina reservada para essa atividade. Há muita troca de e-mails e os alunos se encontram com seus orientadores fora do horário de aula, eventualmente usando algumas aulas para tratar do assunto. Na hora da correção, cada estudante faz duas cópias do seu trabalho, que é avaliado pelo menos por dois professores que fazem uma média e aplicam uma nota, e a monografia fica armazenada na biblioteca da escola.


Busca da autonomia
Mercedes explica que o foco da escola é ensinar o passo a passo metodológico envolvido em um trabalho acadêmico formal. Ao longo de seis meses, os alunos devem apresentar, como pequenas tarefas, etapas do desenvolvimento da sua monografia. Primeiro o tema e a justificativa dele, depois uma leitura que o aluno tenha feito e assim por diante. A ideia é construir junto ao jovem uma autonomia e segurança acadêmica e pessoal para o ingresso na universidade. Ela complementa que é um ledo engano as escolas de ensino médio pensarem que o final do curso é o vestibular. “Uma das funções do ensino médio é preparar para uma nova etapa da escolaridade, e não para o vestibular. Isso o cursinho faz muito bem. Preparar uma monografia significa, além de criar autonomia, pensar na questão da formalidade, no longo prazo, fazer um texto sozinho e elaborar uma pesquisa – que é uma iniciação científica.”


Outra questão interessante da monografia é a interdisciplinaridade. Mercedes observa que os alunos passam a compreender melhor que um tema de estudo muitas vezes envolve diversas áreas, e que na verdade todas elas estão conectadas na vida real. “Assim, um aluno apaixonado por futebol, por exemplo, vê que também pode falar com a professora de sociologia, depois com a de matemática, e que muitas vezes as várias ciências se complementam para um resultado”, diz.


No colégio Equipe, a monografia se assemelha à do Ítaca, mas além de obrigatória, é uma disciplina inserida no currículo, com avaliações bimestrais. O projeto é desenvolvido no terceiro, e não no segundo ano do ensino médio. Primeiramente, os alunos estudam a metodologia do trabalho científico, para somente depois se aventurar na tese. Nas aulas semanais de monografia, a turma de 50 alunos se divide em grupos de 10 e recebem orientação de professores voltados para as áreas de estudo de cada um. Levar a experiência para fora dos muros da escola, segundo a diretora escolar do Colégio Equipe, Luciana Fevorin, é algo que parte dos alunos naturalmente. Vão às bibliotecas municipais e universitárias, entram em contato com pesquisadores, se inscrevem em seminários. “Um garoto estava fazendo uma monografia sobre história em quadrinhos e por isso frequentava a biblioteca da Faculdade de Arquitetura da USP. Acabou se interessando por arquitetura e decidiu seguir a carreira”, conta.


No ensino fundamental
O programa de iniciação científica no Colégio I. L. Peretz foi elaborado a partir do relato de ex-alunos que diziam ter dificuldades com trabalhos acadêmicos na faculdade. A experiência começou no ensino médio, em que o aluno aprende as primeiras noções da metodologia de um projeto de pesquisa no primeiro ano e, no segundo, desenvolve todo o trabalho para passar por uma qualificação e banca (de professores) no terceiro. Depois disso, a escola ampliou a iniciação científica para todos os anos do ensino fundamental, a começar pelo quarto. “Percebemos que quanto antes o aluno começava a desenvolver esse pensamento científico, mais fácil era para ele depois, porque vai se acostumando com esse jeito de pensar e de ver as coisas”, afirma Roxane Nascimento, coordenadora de Projetos e Tecnologia do colégio.






Gustavo Morita
No colégio I.L. Peretz alunos participam de iniciação científica a partir do 4° ano do ensino fundamental

Desta forma, os estudantes vão, ao longo dos alunos, adquirindo novas habilidades de pesquisa e pensamento acadêmico por etapas. Se no sexto ano eles aprendem a fazer uma pesquisa básica e a como buscar fontes, no sétimo já trabalham com a elaboração de justificativas, citações e levantamento de problemáticas, e no oitavo e nono ano têm como objetivo fazer uma pesquisa e criar um produto que atenda a uma necessidade real. No fim de cada etapa, a escola incentiva os alunos a divulgar o resultado de suas pesquisas, seja na participação de feiras de ciências, como a Feira Brasileira de Ciência e Engenharia (Febrace), organizada pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), seja na publicação dos trabalhos na internet no formato de revista digital e site.


Roxane coloca que o jovem hoje em dia não tem dificuldade de obter novas informações, por isso o papel da escola no desenvolvimento do pensamento acadêmico é orientá-lo sobre como trabalhar com essa informação abundante. “Eles sabem de tudo o que acontece no mundo, mas precisam de orientação para o que fazer com essa informação, e é esse pensamento que tentamos desenvolver neles”, analisa.


Resultados
O foco dos programas de iniciação científica vai além do vestibular ou do conteúdo programático no currículo. O objetivo é, invariavelmente, desenvolver habilidades que ajudarão os jovens a organizar seus estudos, sua maneira de pensar e de trabalhar, e terão um impacto direto na sua vida acadêmica e profissional. Por isso, é difícil avaliar resultados dessas iniciativas, levando em conta que elas primam pelo desenvolvimento de habilidades que podem ser usadas para a mais ampla gama de atividades, e não pelo simples aumento de proficiência em um assunto.


Exemplo disso é a ex-aluna do Colégio Oswald de Andrade Lívia Gueraldo, 26, hoje analista de recursos humanos sênior de uma grande empresa do ramo televisivo, que escolheu sua profissão de psicóloga por conta da experiência com a monografia obtida no segundo ano do ensino médio. À época, Lívia se aprofundou em psicologia social, mais especificamente na compreensão da mente adolescente, e isso fez com que ela descobrisse diversas possibilidades para a sua vida acadêmica e profissional. “Aquela oportunidade me deu ferramentas para iniciar pesquisas em psicanálise, e me introduziu aos textos básicos da área”, relata.


Daniel Guinezi, o aluno da Móbile do começo dessa matéria, não tem dez anos de formado como Lívia para avaliar o impacto da iniciação científica na sua vida, mas já observa que a experiência mudou a forma como ele trabalha. “A partir do momento em que fiz a iniciação, percebi que se existe um prazo, temos de nos programar com antecedência senão tudo se embola. Eu até conseguia fazer os trabalhos da escola na véspera, mas a partir da pesquisa percebi que um trabalho dessa magnitude a gente não consegue planejar na véspera. Essa parte da organização da rotina foi o principal ganho para mim”, descreve.


Maria da Glória, da Móbile, afirma que um ganho do projeto para os alunos está em aprender a levantar problemas e a buscar caminhos possíveis para a solução. “Para essa busca precisam conceber estratégias, planejar, produzir, e por fim acabam resolvendo esses problemas”, diz. Além disso, dentro da própria escola, nas outras disciplinas, a professora observa que os jovens adquirem certo tipo de abstração, de capacidade de estabelecer relações entre assuntos e de fazer inferências.


Mercedes, do Ítaca, complementa que já na escola os alunos passam a se preocupar mais na redação de textos, trabalho e provas, “porque percebem que não é só o conteúdo que importa”. “Falamos de AM e DM – antes da monografia e depois da monografia – , porque eles ganham status de gente grande e isso faz diferença, porque ficam mais maduros”, diz. A experiência certamente traz ganhos práticos para os alunos na escola, mas os reais resultados para a vida podem ser observados depois de cinco a dez anos, afirma Luciana, do Equipe. “É um momento interessante, em que eles vão se dar conta de objetos de identificação, e isso acaba contribuindo para a futura identidade profissional deles. Tem esse benefício de olhar para o mundo e saber estudá-lo.”


+ Assista à videoaula de Daniel Guinezi sobre o trabalho do cineasta Stanley Kubrick

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