Primeiro invento

Feiras científicas brasileiras crescem, se internacionalizam e estimulam estudantes a usar criatividade e aplicar conhecimento

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Alexandre Sayad



 



Cada nome citado no microfone como premiado antecede uma explosão de gritos, abraços, lágrimas e comemorações, como uma torcida organizada com a vitória do time favorito. Mas o que comemoram os estudantes, empolgados, é a conquista sólida de conhecimento. A cena é muito comum nas premiações de feiras de ciências, que reúnem estudantes de todo o Brasil, e alguns do exterior. São imagens que nem de longe remetem à escola de todos os dias.





 


Os eventos são encontros importantes, onde os jovens cientistas apresentam seus trabalhos em pequenos estandes, fazem contatos com empresas, universidades e outros colegas que têm o mesmo interesse de pesquisa. No fim, concorrem a prêmios – que vão de bolsas de estudo a passagens aéreas para encarar uma experiência internacional, para muitos deles, a primeira da vida.




A temporada 2003/2004 desses grandes eventos científicos brasileiros terminou em março com a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), realizada pelo segundo ano consecutivo pela Escola Politécnica de Engenharia da Universidade de São Paulo. A feira envolveu projetos de estudantes das redes pública e particular de todo o Brasil, em diversas categorias dentro da engenharia e das ciências.




“É muito importante que a USP abra essa porta aos estudantes de ensino médio para que eles apresentem a construção de conhecimento aplicada à solução dos problemas do dia a dia”, explica Roseli Lopes de Deus, organizadora da Febrace. Exemplo disso é a engenhoca criada pelo estudante carioca Wesley Tito. Preocupado com mortes súbitas em bebês, ele criou um sensor que identifica os sintomas que precedem as crises. “O sensor fica preso no berço e identifica a falta de oxigenação e a respiração problemática da criança”, explica Tito, aluno da Escola Técnica Rezende Rammel, um dos pólos de incentivo à aplicação de ciência, no Rio de Janeiro (RJ).




Segundo Tito, o diagnóstico rápido faz com que um aparelho avise a mãe da criança ou a enfermeira, facilitando a aplicação das medidas de emergência. “É importante que a mãe da criança se informe com o pediatra quais são essas medidas, pois provavelmente não há tempo para esperar um especialista e qualquer erro pode ser fatal”, ressalta o estudante, eufórico com a possibilidade de apresentar o evento em outra cidade.


Inclusão –




Para muitos jovens cientistas, a problemática social – em particular a questão da inclusão social de portadores de deficiência – foi o grande tema para desenvolvimento de projetos. É o caso de outros estudantes da Escola Rezende Rammel que criaram uma cadeira de rodas infantil automática que funciona por sopro e comando de voz. “Nosso objetivo é englobar na cadeira o máximo de capacidades”, afirma Rafael de Freitas, um dos criadores do aparelho. Direcionada a crianças tetraplégicas, a cadeira possui duas funções: giro à esquerda e giro à direita, um comandado por voz e outro por sopro, em um compartimento próximo do rosto.



Além dos recursos para essa movimentação, a cadeira possui sensores nas rodas que não permitem que ela fique desgovernada. O paciente pode também utilizar um suporte preso na cadeira para encaixar o controle da televisão ou do som. “Caso aconteça algum problema com a tecnologia, as rodas podem ser destravadas e usadas como uma cadeira de rodas comum”, explica. Segundo Freitas, não existe no mercado brasileiro uma cadeira automatizada para crianças.




Pensando em melhorar a vida dos portadores de deficiência visual, estudantes gaúchos da Escola Técnica Estadual Monteiro Lobato de Taquara desenvolveram um software de baixo custo financeiro e apresentaram na Febrace. O objetivo é promover inclusão social e digital dos portadores de necessidades especiais e possibilitar o acesso à cultura e ao trabalho. O programa funciona por método braile e circuito de voz. “O objetivo é oferecer uma tecnologia de qualidade por um preço acessível”, diz Felipe Pohren, um dos criadores do programa. Se depender do desempenho dos estudantes, ele será em breve alcançado: o projeto foi um dos premiados.

Um dos inventores irá a Portland, no estado de Oregon (EUA), com passagem paga para participar, ainda este mês, da International Science and Engenieering Fair (Isef), a maior feira de ciências do mundo. “Nem pude acreditar quando ouvi meu nome como selecionado para a Isef”, emociona-se Pohren.

A Isef é também a mais antiga feira internacional de ciências, com 55 anos de existência e, para muitos dos estudantes brasileiros, um grande sonho. Para se ter uma idéia de sua dimensão, a feira causará um impacto de US$ 8 a 10 milhões na economia da cidade de Portland. Serão, este ano, 1.300 projetos inscritos que estarão expostos no Centro de Convenções de Oregon,



que tem o tamanho de dois campos de futebol. Os prêmios aos estudantes chegam a US$ 100 mil em bolsas de estudo e material, financiados pela fabricante de microprocessadores Intel.

No Brasil, a maior e mais antiga feira de ciências, que juntamente com a Febrace selecionou os nove projetos participantes da Isef, realizou sua 18ª edição em novembro de 2003, na cidade de Novo Hamburgo (RS) (
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). A Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec), realizada por uma fundação pública estadual, a Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, recebeu cerca de 140 projetos de quase todos os estados brasileiros e ainda de países como Argentina, Chile, Paraguai, Turquia, México, Espanha, França, Portugal e Estados Unidos.




Um dos destaques da edição de 2003 foi o projeto da dupla de estudantes gaúchos Márcio Henff e Cháris Martins. Eles desenvolveram um software para deixar mais prazerosas as aulas de física. “Eu gosto de física e não me conformava com o fato de os outros alunos a acharem chata”, conta Cháris.



Para apresentar a disciplina de uma maneira mais interessante, a dupla realizou uma pesquisa entre alunos e professores que confirmou o que Henff e Martins já imaginavam: todos os ouvidos gostariam de um recurso a mais que aproximasse teoria e prática e deixasse o conhecimento menos “etéreo”. “Dentro da física, percebemos na pesquisa que a cinemática era a área mais incompreendida, considerada mais difícil”, explica Henff.




Após estudos sobre que linhas pedagógicas aplicar, a dupla desenvolveu um programa que mistura animações em Flash (tipo de programa), vídeos e exposição de textos focados em assuntos da cinemática. Para medir o impacto da utilização, os estudantes aplicaram outra pesquisa, que indicou um melhor aproveitamento dos alunos na cinemática além da aprovação da totalidade dos professores. O sonho maior agora é expandir a utilização do programa. “Só utilizamos recursos de fonte aberta. Para nós, quanto mais pessoas usarem, melhor”, acredita Martins.


Mudança –

Embora numa realidade ainda bem distante dos vizinhos sul-americanos como o Chile e a Argentina, que tem verdadeira tradição em feiras de ciências, exemplos brasileiros como a Febrace, a Mostratec, ou ainda o concurso
Cientistas do Amanhã

, promovido pelo Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (Ibecc), crescem ano após ano em tamanho, abrangência e importância na vida dos futuros cientistas.

Aos poucos, o Brasil começa a entrar no circuito internacional de feiras. A Milset, por exemplo, considerada a segunda do mundo, realizará sua versão latino-americana pela primeira vez no Brasil, em Fortaleza (CE), no segundo semestre deste ano. Os projetos selecionados participarão da versão mundial que acontecerá em 2005, em Santiago, Chile.

Resta torcer para que os nove representantes do Brasil na Isef tragam consigo algum prêmio oficial, ou então voltem com muitas idéias e a agenda recheada de contatos.







Primeira feira aconteceu em 1978






Quem acredita nos milhares de “Brasis” que compõem um só país confirma sua teoria ao conhecer a realidade da Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, fundada em 1967 e localizada em Novo Hamburgo (RS). Financiada em 90% com recursos públicos, a escola forma, anualmente, cerca de 3 mil alunos em cursos técnicos.




A Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec), realizada pela Fundação, é a mais antiga feira de ciências do país, com 18 anos de existência. “Começamos bem pequenos, com muito esforço, sem dinheiro”, relembra o professor Alberto Dal Molin, quem deu os primeiros passos da Mostratec.




Em 1978, a feira se chamava Feicit e já contava com 240 trabalhos inscritos; em 1984 ganhou caráter nacional e mudou o nome para Mostratec. “Vimos que os alunos vindos de outras cidades e até de outros Estados só acrescentavam qualidade aos projetos”, afirma Dal Molin.




Em 1994, a Mostratec se tornou internacional. “Começamos a participar de feiras nos EUA, Turquia e Chile. Mandávamos alunos e recebíamos os de lá, como fazemos até hoje”, continua o professor. O ano foi também importante para o Brasil no exterior: um projeto da fundação representou a América do Sul, pela primeira vez ganhando o primeiro lugar em química na Isef.





Por não contar com recursos suficientes, um detalhado plano de captação na iniciativa privada é colocado em prática um ano antes da Mostratec acontecer. Alguns ex-alunos, hoje com suas empresas próprias, ajudam no patrocínio do evento.




 




Serviço






Cientistas do Amanhã




Site:


www.cientistasdeamanha.net






Febrace




Site:


www.lsi.usp.br/febrace






Intel Isef




Site:


www.intelisef2004.org






Milset




Site:


www.milset.org






Mostratec




Site:


www.liberato.com.br




 


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