Presença marcante

Compositor Nei Lopes, estudioso da cultura negra, monta enciclopédia brasileira da diáspora africana. Obra é fonte de pesquisa sobre a variedade de gêneros e ritmos que por aqui foram moldados a partir da presença africana.

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Alexandre Pavan*




Passados 114 anos da abolição da escravatura no Brasil, 50% da população negra tem renda inferior a dois salários mínimos e apenas 4% chega à universidade. Embora a maioria dos afrodescendentes seja privada do direito pleno à cidadania, o país continua tentando ostentar a falsa imagem de uma nação onde existe igualdade racial.

A estampa enganosa, em parte, é garantida por nossa tão reiterada mistura cultural. Os trabalhos de alguns artistas, intelectuais ou cientistas negros são valorizados, mas esse reconhecimento nunca se traduziu efetivamente em democracia racial. E, do ponto de vista artístico, o mais comum é assistirmos à repetição de estereótipos – como a malandragem do sambista e as cadeiras da mulata -, que embutem preconceito.

Pouco se tem conhecimento da história dos povos africanos, seus costumes e crenças originais. As escolas brasileiras sempre descartaram esse conteúdo. Ensina-se a respeito do Império Romano, mas nada se aprende, por exemplo, sobre os iorubás, povo da África ocidental e que hoje constitui um dos três maiores grupos étnicos da Nigéria.

Recentemente, no entanto, iniciou-se um processo de implementação na educação brasileira, por meio de dispositivos legais, de disciplinas dedicadas à história africana e do povo negro no país. Nesse contexto, em que a bibliografia de referência ainda é escassa, apresenta-se a Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Selo Negro, 720 págs., R$ 129).

Preparado pelo carioca Nei Lopes – estudioso da cultura negra e sambista gravado por nomes como Chico Buarque e Clara Nunes -, o volume revela de um ponto de vista brasileiro as raízes da cultura africana e sua propagação no mundo, principalmente no continente americano, pelas populações negras e seus descendentes.

“Chegado o novo século, a fraca auto-estima da massa afro-descendente, que constitui cerca de metade da população brasileira, é uma triste realidade. E essa circunstância é agravada pela completa alienação dessa massa em relação à sua verdade histórica, à de seus ancestrais africanos e à de seus irmãos nas Américas e no mundo”, escreve Lopes na introdução do trabalho.

Do ponto de vista musical, a Enciclopédia é uma rica fonte de pesquisa sobre a variedade de gêneros e ritmos que por aqui foram moldados a partir da presença africana. Por ser organizada em verbetes, a obra permite uma consulta que, partindo de determinado tema, conduz o leitor por trilhas cheias de ramificações.

A busca pelo termo “batuque”, por exemplo, nos leva aos sons dos povos bantos de Angola e Congo, matrizes dos principais ritmos e danças da Diáspora Africana, como samba, mambo e rumba. A pesquisa do vocábulo “banto”, por sua vez, nos remete às línguas negro-africanas e às religiões afro-brasileiras, e assim por diante. É como se, puxando a ponta de um fio, fosse se desenrolando um novelo fascinante, pouco conhecido, mas revelador de nossa identidade.

Dessa forma, a Enciclopédia de Nei Lopes tem a mesma função de obras clássicas de referência, como o Dicionário do Folclore Brasileiro, do historiador Câmara Cascudo.





*Jornalista e co-autor do livro Populares e Eruditos

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apavan@uol.com.br



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