“Precisamos ter juízo”

Consultor defende que saberes aprendidos na escola estejam mais próximos das solicitações do mercado de trabalho

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Alceu Luís Castilho*

O consultor de empresas Eduardo Najjar toma a necessidade de educação para o trabalho no Brasil praticamente como um mantra. Professor da Fundação Dom Cabral e da Universidade de Campinas (SP), Najjar vê no sistema de ensino brasileiro e na própria cultura familiar uma ênfase exagerada na educação para o vestibular. Considera que os jovens formados pelas universidades saem sem emprego ou vão trabalhar em funções para as quais não era necessário curso superior. Diante disso, ele defende a aposta no ensino técnico e na parceria entre universidades e empresas. Uma de suas idéias é a de que o adolescente deve estudar matemática ou história entendendo como aquilo pode servir para a vida profissional, como empregado ou empresário. Nesta entrevista à revista
Educação

, Najjar faz críticas à atual política do governo federal e demonstra uma certa idiossincrasia com uma vertente “sociológica” na concepção da educação brasileira.



Revista Educação – Quando perguntado sobre o futuro do trabalho na sociedade, o sr. disse que emprego não vai ter. Como falar em educação profissional com essa falta de perspectiva?




Eduardo Najjar







Em parte, isso se deve a um erro histórico, que é o sistema de ensino brasileiro ser voltado para preparar o pessoal para passar no vestibular, não para a vida. A segunda premissa, também causada por um erro histórico, mas que é um erro, é o comportamento das famílias. Elas também criam seus filhos para que eles passem no vestibular. A família, para se defender, quando a mãe está grávida já vai lá para o Dante Alighieri [
colégio paulistano de elite

] para matricular o filho, em busca de um colégio onde o filho, teoricamente, não vai precisar de cursinho para passar no vestibular. São dois erros que sustentam essa falta de perspectiva. Isso não tem conserto. Então, como faz? O jovem precisa ser preparado para a vida, para o trabalho, e não para um curso de economia e achar que está preparado para o mercado. O jovem que sai do ensino fundamental e vai para o médio tem de começar a ter contato com as realidades do trabalho. Já não basta toda a fase de vida do jovem nessa idade, a bagunça da adolescência, pré-adolescência, nós temos que criar mecanismos que levem esse pessoal para perto do trabalho, não para trabalhar. Uma coisa que em todo início de governo se fala e depois se perde é a importância dos cursos técnicos. Eles já são muito importantes na Europa. E aqui no Brasil as escolas técnicas são importantes, mas não têm muita penetração.





Qual o motivo dessa falta de valorização do ensino técnico?



O mercado educacional, que é outra perna, não dá importância para esse tipo de ensino. E as empresas dão importância. Um outro erro é o mundo da educação desvinculado do mundo do trabalho. Isso é um erro, porque os cursos universitários deveriam bater na porta das empresas e perguntar: “Empresa, como você quer que esta pessoa, de 17, 18 anos, saia da minha faculdade depois de quatro anos?”



Com isso, a educação não ficaria refém da conjuntura?



Primeiro, a base não é obtida na faculdade, o ensino superior vai consolidá-la. Outra coisa é que não dá para preparar um profissional desvinculado da realidade. Por exemplo, você tem escolas dando aulinhas de cálculo 1, cálculo 2, integral. Como você vai usar esse conhecimento numa área específica? Vamos achar um ponto do meio, nem um extremo nem outro.



A questão de um empreendedorismo mínimo não está ainda mais esquecida do que a relação com as empresas, já que com base nisso o jovem poderia caminhar com as próprias pernas?



É um pouco por aí, mas mais do que isso. O ensino médio tem de despertar no aluno essa coisa para o trabalho. Não importa se ele vai ser empregado, ser patrão, ser parceiro. Só não pode ser como é até hoje. As escolas formam pessoas para ser empregadas, para ter emprego, não para ter trabalho. Você não tem lá dentro um motivador, um “vai atrás, vai vender cachorro-quente”. É muito importante despertar essa consciência do trabalho na moçada. Porque, senão, fica uma coisa assim “eu vou estudando e quando der eu volto para trabalhar”. E aí você cai mais ou menos no que está acontecendo na Europa, estudando até os 30 anos. Só que é outra realidade. No nosso ambiente é necessário esse contato com o mercado. Tem muita física e química, pouca filosofia. O estudo de filosofia seria importante para a moçada estudar um pouco o que é a vida. Quem concluir que quer ser empregado pode ter sua vaga. Quem tem impulso em criar o próprio negócio, com ou sem parceiro, tem como dar vazão a isso.



Que implicação teria essa interação com o mercado nas disciplinas?



Essa interdisciplinaridade é necessária. Você quer ser um pesquisador em biologia, ok. Mas como isso vai trazer o pão nosso de cada dia e como isso pode ajudar a trabalhar mais tarde num instituto de pesquisas? Você não está estudando biologia, ou química, física, matemática, só para fazer conta. Ou para conhecer bichinhos, que é bonito. Isso pode lá para a frente se tornar uma profissão se você se interessar por ela.



E o ensino de história, por exemplo?



Você pode ser um antropólogo, trabalhar na história empresarial. O que acontece hoje é que se estuda história do Brasil ou história geral e não é dada a visão de que isso pode desaguar futuramente no campo de trabalho. O campo de trabalho que o jovem vê é o pai e a mãe cansados, “esse trabalho me mata” – ele põe na cabeça que trabalho é ruim.



Mas há quem defenda um ensino de história que estimule mais a transformação social.



Nós estamos vendo o que a esquerda faz no poder. É a mesma coisa que a direita faz. Ainda que se formem sociólogos, políticos, o mercado brasileiro é muito jovem, tem 100, 200 anos. Nosso mercado exige formação de técnico. Isso é uma grande saída para não sei quantos milhões de jovens colocados no mercado atualmente, saindo das faculdades. Você coloca milhões de pessoas e coloca 100 mil vagas de trabalho. Nosso mercado ainda precisa de uma quantidade enorme de técnicos em várias áreas, até porque a inovação tecnológica vem disso, não do sociólogo. O que não impede que a pessoa siga nessa carreira. Mas nem para todo mundo é oferecida essa visão: você precisa da grana, estudar um pouquinho, começar a trabalhar rápido e depois vai se aperfeiçoando ao longo do tempo.



Mas o presidente sociólogo foi FHC. Hoje, temos um presidente que fez inclusive curso técnico.



Ele está mal assessorado. Você vê que não tem proposta. Ou pior, a proposta para o ensino é de uma década. E eles não pararam de brigar desde que assumiram, há dois anos. Entrou um, veio outro, agora quer colocar vaga paga nas escolas, não sei o que da diversidade, dos negros, dos pobres. Não é por aí. Faz mais de uma década que a gente está discutindo isso, ou desde Anísio Teixeira, e não põe na prática. Para mim, a tese do ensino técnico é muito prática, exeqüível a curto prazo e vai mostrar resultado não só na empresa, mas na família. Porque esse jovem está precisando trabalhar. Várias questões podem ser resolvidas sem muito viés sociológico. Temos um problema emergencial. Podemos abrir paralelamente um canal de discussão política, mas usaríamos uma coisa que já existe, um ensino técnico de alta qualidade. Só para se ver na prática, a USP tinha há dez anos um curso confinado em Cubatão [
SP

]. Era uma parceria com uma universidade canadense, onde se estudava três meses e trabalhava três meses. E não podia repetir empresa. Foi um sucesso. As empresas esperavam esse jovem se formar. Você começa a ter uma convivência ainda cedo com o trabalho, que vai sendo complementada com o ensino conceitual.



Como lidar com a diversidade tendo em vista que a educação em massa implica uma mínima necessidade de unidade conceitual?



Participei muito tempo da Uniemp, uma ONG que fazia parceria entre universidade e empresa para gerar emprego. As empresas que se aproximam da universidade são empresas minimamente organizadas – ou [
nas quais

] o dono da empresa tem uma cabeça acima da média. Primeiro, você vai ter inicialmente um número menor de empresas se aproximando, aquelas de alta tecnologia, mais engenharia, desenvolvimento de produtos. Com o tempo isso vai se espalhando por outras áreas. Em muitas empresas que têm práticas obsoletas, muitas delas familiares, os donos são levados pelo que está acontecendo no ambiente dos amigos empresários.



Com essa ênfase no ensino técnico, as empresas não deixariam de lado o investimento na educação como um todo?



Acho que são coisas diferentes. A formação de base está acontecendo e é muito legal. A participação no ensino técnico é outra mão de direção, “vou melhorar a qualidade do pessoal que está trabalhando lá em casa; essa molecada vou pôr num ensino técnico que tenha qualidade razoável; e os próximos, vou contratar”. São movimentos separados, esse e o do terceiro setor.



Como definir qual empresa é essa que vai fazer parceria com o ensino?



No Brasil, você tem já boas práticas. No Nordeste há pólos de atração de indústrias de alta tecnologia, de tecelagem. Se você pegar o centro-oeste, é agronegócio em peso. Tirando a agricultura familiar, o agronegócio está experimentando um
boom

. E são empresas razoavelmente grandes, que vão se parceirizando, você tem cooperativas, grandes bolsões de qualidade onde se pode levar ensino também. Salta aos olhos que se tem qualidade não só nas grandes empresas, mas nas pequenas e médias. Aliás, um modelo de futuro para o Brasil são as pequenas e médias.



E são exatamente elas que geram emprego. Como fazer integração do sistema educacional com uma microempresa?



A convivência com essas pequenas e médias empresas mostra que elas são mais permeáveis a essas idéias de educação. Elas têm um contato muito mais próximo entre todo mundo da empresa, diferentemente de um conglomerado. Sim, nosso modelo não privilegia e por muito tempo não privilegiará o apoio às pequenas e médias. Mas eu vejo a barreira é no oferecimento de políticas públicas que privilegiem o negócio, não vejo por parte do empresariado que não queira a educação. O problema é que se montou um esquema em que a educação superior virou uma mina de ouro, que não gera produtividade a curto prazo.



O sr. acredita então que a longo prazo isso acarretaria um crescimento sustentável no Brasil?



A longo prazo é preciso uma discussão de mais fôlego. Hoje, em termos de educação, a gente vende o almoço para comprar o jantar. Você faz uma ação aqui, outra ali, aí volta, não era bem isso, troca. Precisamos ter juízo. No momento, é mais sorte que juízo. Juízo para criar, a longo prazo, um ensino que pense a educação como vasos comunicantes. E não “vou pensar o ensino fundamental, o médio, o superior”. Se você freqüentar o meio escolar, os empresários estão de cabelo em pé. É uma concorrência acirradíssima. Os que não vêem ainda uma faculdade no seu complexo estão loucos para abrir, porque é onde dá dinheiro. Eles não sabem o que vai acontecer, temos banco vendendo banco para comprar escola. Onde queremos chegar?





*Da Agência Repórter Social



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