Precisa-se de especificação

Cursos de licenciatura formam número muito aquém da demanda por professores
de áreas específicas

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Stéfanie Telles
“Simplesmente ser professora.” É o que Sheron Freitas quer após terminar o curso de história na Universidade de Passo Fundo (UPF)

O número absoluto de estudantes matriculados nos cursos de licenciatura é maior a cada ano, o que não significa que o interesse dos jovens pela docência em áreas específicas do conhecimento esteja aumentando. Se comparadas com os números gerais do ensino superior na última década, as licenciaturas apresentam desempenho bem menos animador. Enquanto o número total de matrículas nos cursos de nível superior cresceu 99% entre 2002 e 2012, nas licenciaturas o crescimento foi de 73%.

Esse ritmo não garante que o país possa superar a escassez de profissionais aptos a ensinar disciplinas específicas. Estima-se que o déficit de professores formados nos cursos de licenciaturas esteja na casa dos 200 mil. Se considerado também o número de docentes que hoje atuam nas redes lecionando educação física, química, biologia, história, sociologia e as demais matérias sem a formação específica, esse déficit pode passar à casa do milhão.


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Olhando as estatísticas em detalhe, é possível perceber uma queda na demanda pelos cursos de licenciatura. Em 2002, de cada 100 estudantes que ingressavam no ensino superior, 22 optavam pelas licenciaturas. Em 2012, a proporção caiu para 17 em cada 100. A procura cada vez menor também fica evidente com o fechamento de cursos, especialmente na rede privada. Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), cinco licenciaturas – Ciências Biológicas, Física, Geografia, Letras/Francês e Letras/Espanhol – deixaram de ser ofertadas no vestibular 2014. Em Curitiba, quatro cursos foram encerrados este ano: Letras/Português e Letras Português e Espanhol na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e Artes Visuais e Ciências Biológicas na Universidade Tuiuti do Paraná.

Os problemas para que os alunos formados em licenciatura cheguem à sala de aula não se resumem a uma porta de entrada aparentemente estreita. Entrar para um curso que, em tese, forma professores não significa para muitos estudantes querer dar aula, mas sim ter interesse naquela área específica. Na pesquisa realizada pelo professor Cláudio Nogueira com alunos de oito cursos de formação de professores – sete licenciaturas e o curso de pedagogia – da UFMG, o número de alunos que responderam ser “importante” o curso formar para outras áreas que não a docência foi muito alto.

Concorrência desleal
A adesão, no entanto, não é completa. O número de formandos nas licenciaturas também vem caindo, com queda de 7% entre 2009 e 2012. Além disso, as possibilidades abertas pelas formações específicas se mostram mais atraentes para os estudantes: postos de trabalho no mercado financeiro para os formados em matemática, emprego na indústria para os químicos e físicos.

Para o professor do programa de pós-graduação em Educação da Unesp, Alberto Albuquerque Gomes, a concorrência entre a sala de aula e empregos tidos como mais promissores cria um novo processo de seleção que também ajuda a rebaixar a qualidade do trabalho docente nas escolas. “Aqueles que vão para a sala de aula também acabam sendo os menos preparados porque os melhores alunos dos cursos são recrutados para trabalhar em outras áreas.”

A concorrência com outras possíveis carreiras também tira da sala professores de disciplinas específicas. Pesquisa de Sérgio Rykio Kussuda para a sua dissertação de mestrado, realizado na Faculdade de Ciências da Unesp-Bauru, entre egressos do curso de licenciatura em Física na mesma universidade apontou que um em cada quatro dos que entram na rede de ensino como professores desiste da carreira. Entre os pesquisados, menos de um terço trabalha na Educação Básica.

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