Poucas palavras

Tratamento adequado e compreensão de professores podem contribuir para melhoria da fala de alunos gagos

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Jéssika Torrezan

A escola era um tormento para Márcia da Silva Adão. “Era horrível, as pessoas riam de mim, faziam brincadeiras, e os professores não ajudavam”, lembra-se. “Cada dia de escola era traumático.” Ler em voz alta, fazer apresentações de trabalhos na sala de aula, participar de peças de teatro, falar em público. Essas atividades que constituíam um martírio para Márcia compõem o dia-a-dia de quem lida com um problema bastante conhecido, mas que ainda gera preconceito: a gagueira.



O filho de Márcia, Carlos*, hoje na segunda série do ensino fundamental, também é gago. “Acho que ele sofre um pouco menos, porque nós buscamos ajuda de profissionais, e as professoras que ele teve estavam mais preparadas para lidar com isso.” Mesmo sem ser alvo de preconceito, a criança ainda se sente mal perante os colegas na sala de aula. “Ele sempre me fala: quero parar de ser assim, não quero mais gaguejar, mas eu não consigo”, conta Márcia.




Dados da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostram que 1% da população apresenta gagueira, em diferentes graus de severidade. Destas, cerca de 10% apresentam gagueira grave e 6% muito grave.




Segundo a fonoaudióloga Sandra Merlo, presidente da Associação Brasileira de Gagueira (AbraGagueira), é muito comum que crianças e adolescentes gagos apresentem um comportamento irrepreensível na escola, só para não terem que falar com colegas ou professores. “Muitas não brincam, não conversam e fazem todas as tarefas, só para o professor não pegar no pé”, explica. “Em dias de prova oral ou apresentação de trabalho, muitas ficam doentes de verdade só de pensar que vão ter que falar em público.” Sandra sabe bem o que está falando: ela é gaga, e só descobriu tratamento depois de ter entrado na faculdade.




Preconceito – A história é conhecida: os outros alunos na escola fazem brincadeira, tiram sarro e ficam imitando as crianças e os adolescentes que gaguejam. Estes ficam muito nervosos e acabam gaguejando mais. “Toda pessoa gaga, quando não se sente cobrada, não gagueja”, explica Sílvia Friedman, fonoaudióloga e membro do Comitê de Fluência da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. “Quando estão cantando, falando com crianças pequenas ou com animais de estimação, a gagueira desaparece.”




O problema, segundo Sílvia, é quando a pessoa tem de falar em público, perguntar alguma coisa ou interagir com estranhos, como no caso da escola. A escola pode tanto auxiliar como prejudicar o tratamento dessas crianças. No caso de Carlos, a professora deu todo o auxílio necessário para minimizar o problema. “Ele prefere estudar nessa escola, que é mais distante, a ir às que tem perto de casa. Ele se sente seguro lá”, conta Márcia.




Mas não é sempre que isso acontece. O desenhista Olavo Borges de Oliveira, gago desde os 8 anos, afirma que não tinha no colégio o apoio de que necessitava. “Eu era constantemente chamado pela diretoria, para explicar as razões de meu comportamento recuado, às vezes agressivo. Era para me defender, eu não sabia por que aquilo acontecia comigo”, conta.




Para auxiliar as escolas, a AbraGagueira, entidade fundada em 2001 – no Dia Internacional de Atenção à Gagueira (22 de outubro) -, ministra palestras gratuitas, para esclarecer e auxiliar colégios que se interessem. “As escolas não têm programas específicos para esses alunos, geralmente solicitam só quando têm casos muito graves”, explica Sandra Merlo. “Nossas palestras envolvem professores, diretores e alunos, para que eles possam ajudar as pessoas que sofrem de gagueira.”




Carreira -Sandra Merlo resolveu seguir a carreira de fonoaudiologia por causa da gagueira, que ela tem desde criança. “Aos 5 anos, meus pais começaram a ficar preocupados e me levaram ao pediatra, que falou que a gagueira ia passar, mas não passou”, lembra Sandra. Depois disso, os pais procuraram um psicólogo. “Ele também afirmou que ia passar, o que não aconteceu.”




Quando foi para a escola, o problema só piorou. “Nas aulas de leitura eu não conseguia ler um parágrafo, achava que as pessoas não iam agüentar me ouvir.” Ela lembra que um dia a sala combinou de lhe dar um susto, para ver se parava de gaguejar. “Muitos até queriam ajudar, achando que isso ia curar minha gagueira. Nunca me senti tão humilhada, queria sair correndo, chorar.”




Ao contrário das gozações, ela acabou vivendo o problema inverso: ninguém tocava no assunto. “Existe até um nome para isso: ‘conspiração do silêncio’. As pessoas achavam que se não tocassem no assunto eu não ia me sentir mal.”




Em vez de ajudar, a “conspiração” só atrapalhou. “Às vezes, os professores pediam para eu ler algum texto, e eu recusava, de vergonha. Quando eles perguntavam por que eu não queria ler, eu pensava: ‘Por quê? Não é óbvio?'” Sandra conta que se sentia muito mal com esse silêncio. “Não tinha abertura para falar sobre isso com ninguém.”




Só quando entrou na faculdade ela começou a fazer tratamento. “Passei os três primeiros anos do curso fazendo terapia”, conta. “Minha gagueira passou de grave para leve, e hoje eu consigo me expressar muito melhor.”




Embora não fale em cura, a fonoaudióloga garante que o tratamento minimiza muito o problema. “Quanto mais cedo se inicia, maiores as chances de a pessoa conseguir se comunicar normalmente.” A maior dificuldade, segundo ela, é achar o tratamento adequado. “Nos grandes centros é mais fácil, mas em cidades pequenas, como a em que eu morava no interior do Paraná, não existiam nem fonoaudiólogos, quanto mais especialistas em gagueira.”




Em 80% dos casos, existe uma melhora espontânea em seis meses; apenas 20% dos casos precisam de tratamento”, estima Sandra, acrescentando um ingrediente essencial para a melhora: “Não dá para pensar em tratamento eficaz sem a participação e colaboração efetiva da família e da escola.”




A terapia não tem um prazo específico de duração, mas é preciso ser feita de maneira correta. “Já ouvi muitos casos de fonoaudiólogos que beliscavam, batiam nos pacientes, para eles pararem de gaguejar”, conta Sílvia.




O desenhista Olavo de Oliveira já passou por vários tratamentos que não deram resultado. “Existem neurologista usando Botox para tratar gagueira, psiquiatra receitando Prozac, hipnotizadores, afirmando que podem curar as pessoas”, relata. “Sem falar na abordagem religiosa, alimentada pelo imaginário popular e a crença em curas milagrosas.”




Oliveira, assim como Márcia, encontrou ajuda por meio da internet, num grupo de discussão. “Pela troca de experiências, consegui melhorar minha fluência”, comemora. “É reconfortante saber que existem pessoas iguais à gente, com os mesmos problemas”, reforça Márcia. “A troca de informações é importante.”


*Nome trocado a pedido da família.


Poucas palavras

Poesia ainda é considerada gênero literário marginal em muitas salas de aula brasileiras

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Alexandre Pavan


“A poesia ainda é considerada a forma textual mais ‘bastarda’. Eu vejo muitos professores que não lêem textos poéticos”, revela Adriano Guilherme de Almeida, professor de literatura do Colégio Oswald de Andrade, de São Paulo. “No século XX, a poesia é tida como difícil e há um medo de se lidar com isso. Acho que se parte do pressuposto de que o aluno não vai gostar, o que é muito ruim”, completa.

A raiz do problema está na formação dos educadores, explica Renata Junqueira de Souza, professora da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp, em Presidente Prudente. “Nas faculdades brasileiras, a poesia é optativa. Além disso, os professores não estão bem servidos de livros que tratem do assunto.” Em seu doutorado, defendido há três anos, Renata realizou uma pesquisa com 53 educadores de escolas públicas e privadas para avaliar como eles concebiam e ensinavam poesia.



Conclusão: a poesia é ensinada só na questão estrutural e raramente o professor consegue passar uma leitura sentimental ou pragmática. “Todos eles, além de definir o poema por suas características formais, como a presença das rimas, estudavam somente o significado literal dos textos”, recorda a pesquisadora.



Para se aprofundar no tema, Renata realizou seu pós-doutorado na Faculdade de Educação da Universidade de British Columbia, em Vancouver, no Canadá, avaliando a disciplina Poesia na Educação. “A experiência canadense comprova que é possível formar um docente que leve a criança a compreender o significado do poema”, esclarece, afirmando que lá os professores não se apóiam em livros didáticos, mas nas próprias obras dos poetas. E destaca ainda a existência de um grande número de antologias organizadas por especialistas. “É possível encontrar um livro que trate só de
Halloween

, com textos de vários autores.”



Atualmente, Renata coordena o Laboratório de Leitura da FCT, que tem entre seus objetivos despertar o prazer pela literatura nas crianças da região de Presidente Prudente, no interior de São Paulo. As atividades arte-educativas são preparadas de acordo com a faixa etária dos estudantes. “Utilizamos várias formas de contar histórias, por meio de fantoches, desenhos. Depois da leitura, fazemos atividades de interpretação”, explica. O laboratório funciona desde 1996 e atende, anualmente, 5 mil crianças, de 3 a 12 anos.



O incentivo à leitura de textos poéticos também começa cedo na Escola Viva, em São Paulo. “A poesia faz parte do nosso cotidiano”, explica Maria da Graça Mendes Abreu – nascida na terra de Camões e Fernando Pessoa, assessora de português do colégio. “Nas primeiras séries, o livro
Bichionário

(Braga, 24 págs., R$ 17), de Nilson José Machado, é referência. As crianças o carregam para cima e para baixo, como se fosse o paninho delas.”



De acordo com Maria da Graça, a valorização da poesia é fundamental porque, além de trabalhar com jogos sintáticos e semânticos, estimula a emoção e intuição dos estudantes. Freqüentemente, a Escola Viva organiza cafés e chás poéticos, atividades em que os alunos e seus familiares declamam versos de diversos autores.



“Eu gosto da poesia porque é uma maneira de exprimir muitas coisas em poucas palavras”, diz Kauê Mosse, aluno da oitava série do ensino fundamental da Escola Viva, de São Paulo.
Eu só tenho um sonho:/ Um dia ver a pobreza e a riqueza/ Sentadas na mesma mesa

, escreveu ele no poema
Paradoxo

, feito em parceria com seu colega de sala, Rolando Cristófaro.



Outro texto recitado em um dos cafés poéticos promovidos pela escola foi
Cismália

– uma paródia do texto
Ismália

(Alphonsus de Guimaraens) – feito a quatro mãos por Paula Montes e Pedro Fontes, também da oitava série. “Não sou uma grande leitora de poesia, prefiro os romances”, admite Paula, fazendo uma ressalva: “Mas adoro Carlos Drummond de Andrade, principalmente
No Meio do Caminho

, com aqueles versos enigmáticos, misteriosos.” Seus colegas de classe, Tiago Caetano e Jan Eckart, se destacaram pela interpretação que deram a
Canção do Exílio

(Gonçalves Dias), vestidos de caipiras.



Leituras dramatizadas também são constantes em outro colégio paulistano, o Oswald de Andrade. “Nas aulas, priorizamos mais o fenômeno estético e as características temáticas do que os aspectos históricos”, ensina o professor Adriano Guilherme de Almeida, destacando Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes e Drummond como os autores preferidos dos alunos.



Num panorama mais abrangente da educação no país, atividades poéticas, como as desenvolvidas na Escola Viva e no Oswald de Andrade, são muito raras. “A sociedade em geral marginaliza a poesia”, avalia Frederico Barbosa, poeta e professor do Anglo Vestibulares. Segundo ele, a escola erra ao buscar interpretações racionais para os textos e ao estimular a leitura em voz baixa, numa atitude meio moralista – como se falar alto fosse falta de educação. “Quando se mostra para os alunos que poesia não é uma babaquice sentimentalóide (muitos ainda acham que o poeta é sonhador, romântico), mas um jogo que tem lógica, ‘engenharia’ por trás, eles começam a jogar”, ensina Barbosa, autor de
Contracorrente

(Iluminuras, 90 págs., R$ 11,20).



A falta de interesse da sociedade – e da escola – pela poesia se reflete no mercado editorial. Os poetas têm dificuldade em publicar seus livros e, quando conseguem, esbarram na falta de leitores. “Minha visão não é pessimista, porque pior não fica. A internet me parece um recurso interessante para a divulgação. Tem muita coisa ruim, mas é melhor do que nada. E quem deve apurar o senso crítico é a escola”, indica Barbosa, em opinião reiterada pelo poeta Francisco Bosco: “A saída para novos leitores está na educação, pois o pensamento crítico deve fazer parte da formação das pessoas.”



Bosco, que também é letrista – parceiro de seu pai, o compositor e violonista João Bosco -, tomou gosto pela literatura dentro de casa, inicialmente lendo romances. Mais tarde, um amigo de sua mãe lhe indicou Stephane Mallarme, Rainer Maria Rilke e Arthur Rimbaud. “Não existem chaves de entrada na literatura universal, apenas é preciso ter perseverança. Eu, por exemplo, li Mallarme três vezes sem entender absolutamente nada”, recorda.



De acordo com o poeta, autor de
Florestado

(Editora 7 Letras, 84 págs., R$ 15), falta à escola estimular essa perseverança nos alunos. “O ensino se fossilizou de maneira geral e tornou-se muito funcional, visando apenas ao vestibular ou ao mercado de trabalho”, critica Bosco. Ivan Teixeira, secretário da Academia Brasileira de Letras, segue o mesmo raciocínio, afirmando que o ensino de artes e humanidades está muito desvalorizado. “O prazer pela leitura acabou há muito tempo, desde que a educação ganhou esse perfil utilitário”, opina o poeta.



O resgate do caráter artístico da poesia também é uma exigência de Fábio Brazil, professor do Caleidos, um centro de atividades que promove cursos de dança e literatura. “O poema é uma obra de arte, não só um registro histórico, um documento gramatical. Porém, no Brasil, como os professores não lêem poesia, o gênero vira um trambolho curricular e os alunos não aprendem que aquilo é arte”, finaliza.


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