Por um outro modelo

Educação física passa por revolução como disciplina

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Fábio de Castro e Lígia Ligabue

Agência Repórter Social


Educação Física é uma disciplina secundária nas escolas? Trata-se de recreação para quem gosta de esportes coletivos? Exclui os menos hábeis em atividades esportivas? Serve para fazer com que o aluno “gaste” o excesso de energias e fique mais dócil? Todas estas questões, ainda arraigadas no senso comum, revelam um conceito ultrapassado da Educação Física escolar. Ultrapassado na teoria, embora muitas escolas ainda contribuam com essa concepção. “A maior parte das escolas ainda ministra Educação Física como há 40 anos”, diz o pesquisador Osvaldo Ferraz, coordenador do curso de licenciatura em Educação Física da Universidade de São Paulo.

Ferraz avalia que a Educação Física está passando por uma revolução, iniciada no fim da década de 80, rumo a uma concepção mais completa, que inclui conceitos de qualidade de vida, desenvolve o espírito crítico e estimula o aluno a conhecer e administrar sua saúde. Mas o modelo arcaico ainda persiste tanto em escolas públicas quanto particulares. “Um sintoma disso é que em muitas escolas, no fim do ano, quando perguntamos ao aluno o que ele aprendeu, ele parece não compreender. ‘Só fizemos ginástica e jogamos. Era para aprender alguma coisa?'”, observa.

Outro fator que marca o modelo arcaico, limitado à prática de esporte, é o caráter elitista (já que o esporte era bom para quem era habilidoso) e sexista. “A Educação Física para meninos contemplava as modalidades olímpicas. As meninas se contentavam com vôlei e o famoso câmbio”, afirma Ferraz. Além do esporte, prevalecia a ginástica sem critérios claros. Atividades como “dar 20 voltas na quadra” nivelavam ativos e sedentários, sem maiores explicações.

Ao esvaziar o sentido da Educação Física escolar, o modelo antigo desprestigiou a disciplina não só entre os alunos, mas também junto ao poder público. “De fato, ela tem muito pouca importância para as Secretarias Estaduais de Educação. Tanto que estão pedindo a diminuição da carga horária. Antes eram três aulas por semana, agora há escolas com apenas uma”, lamenta o presidente do Conselho Federal de Educação Física, Jorge Steinhilber.

Um problema ainda pior, segundo Steinhilber, é que muitas escolas deixaram de apresentar a aula, mas possuem convênios com academias e clubes. “Eles acham que isso basta, mas é totalmente ilegal”, diz. Outras escolas oferecem iniciação esportiva, como atividade extra-curricular, com cobrança de taxa. Possuem piscinas, quadras, mas não para a Educação Física – sobretudo nas escolas das classes A e B. “O Conselho não tem como fazer nada contra isso. O que podemos é assegurar que nos locais de prática de atividades físicas estejam profissionais de educação física. Nós fiscalizamos o profissional. Mas trabalhamos com a conscientização, procuramos alertar para esse tipo de contravenção.” Steinhilber afirma que a pedagogia indicada atualmente pelo Conselho coloca a Educação Física como motivação para uma atividade física permanente. “Mas, como quase não existem aulas, não posso fazer uma análise do que estão dando ou como estão dando essas aulas. O fato é que com uma ou duas aulas por semana não dá para manter o condicionamento físico de uma criança”.

Além da motivação à atividade física permanente, as teorias sobre a Educação Física escolar evoluíram na direção de uma visão holística que integra corpo e mente, preocupada com qualidade de vida, alimentação, atividades corporais diversificadas como danças e lutas. Embora muitas escolas ainda não as tenham aplicado à prática, essas teorias deverão ser hegemônicas num futuro próximo. Para muitos especialistas, a mudança é questão de tempo e de renovação dos professores.

O professor Mário Cesário dos Santos, do Colégio Santa Maria, em São Paulo (SP), atesta que a disciplina vem sofrendo transformações. Segundo ele, os professores começam a deixar em segundo plano a revelação de atletas e a técnica esportiva, e a se preocupar com uma iniciação básica. “Procuramos formar cidadãos. A idéia é fazer uma Educação Física voltada para o bem estar dos alunos.”

Professor do ensino fundamental, Santos conta que a escola trabalha uma linha construtivista e divide as atividades em jogos, dança, lutas, atividades lúdicas conectivas e ginástica. “Assumimos a postura de que o professor não é mais o tio que dá brincadeiras. Antes, o ensino fundamental limitava a disciplina à atividade esportiva, agora o projeto engloba saúde, qualidade de vida e textos. É uma disciplina como qualquer outra e os alunos devem se empenhar para dar conta”, relata.

A professora Jacyra Lage, da Escola Estadual Padre Lebret, em Belo Horizonte (MG), diz que a Educação Física está integrada com a pedagogia de projetos adotada pela escola. Um exemplo da proposta é a horta que os alunos estão construindo, a fim de discutir alimentação e qualidade de vida durante as aulas. “Além de ajudá-los a conhecer alguns alimentos saudáveis, a horta servirá para complementar a merenda escolar”, afirma. Ela procura mostrar aos alunos que as manifestações corporais são construídas culturalmente, até mesmo o esporte. “Trabalhamos atividades rítmicas e expressivas, conceitos relacionados à saúde e ao meio ambiente, jogos e brincadeiras folclóricas, por exemplo.”

Jacyra também identifica o fim dos anos 80 como o momento em que se começou a discutir uma Educação Física mais crítica, formadora e transformadora, através de práticas corporais que passaram a ser conhecidas como cultura corporal de movimento. “Esta é uma discussão que está a todo vapor em nossa área. Algumas escolas já conseguiram mostrar a importância da Educação Física e, conseqüentemente, os alunos a reconhecem verdadeiramente como uma disciplina. Outras não conseguiram ainda”.

Para Valentina Piragibe, professora da Escola Municipal Tenente Alípio Andrade Serpa, no Jardim Educandário, em São Paulo, algumas escolas ainda insistem na prática exclusiva do esporte por conta da expectativa dos alunos. “Estou mais preocupada com a inclusão. Se for para ensinar esporte, que todos participem, o gordinho, o sem habilidade e até mesmo o deficiente físico.”

Mas Valentina diz trabalhar outros aspectos além do esporte, aproveitando as aulas para discutir melhora de condicionamento e nutrição. As aulas abordam temas como a discussão sobre modelo de corpo e sobre os estereótipos de beleza. “Procuramos trabalhar com o que está na realidade deles. Aproveitei o sucesso da Daiane dos Santos para passar ginástica.” A professora confia na formação atual dos profissionais para que a Educação Física deixe de ser reduzida à atividade esportiva. “Acredito que isso vá ser superado. Até questões de concursos para professor buscam esse perfil diferenciado.”

Professor do ensino fundamental na rede municipal de Osasco, na Grande São Paulo, Rodrigo Nuno Correa também acha que a ênfase excessiva em esportes deverá acabar devido à formação dos professores. “Desde os anos 90 a psicologia da educação tem dado uma contribuição muito grande. Já há uma evolução nítida. Na nossa escola o diferencial é a atualização metodológica em termos de planejamento curricular.”

Na nova concepção, as atividades devem fazer a criança compreender que é autônoma, de modo a saber administrar melhor sua vida, cuidar do corpo, se relacionar com os outros e lidar com o não, segundo o professor. “É um aprendizado moral.” Nas aulas de Educação Física, o objetivo de Correa é trabalhar com o desenvolvimento cognitivo social, motor e relacional do aluno. “Hoje, a Educação Física está mais estruturada no planejamento. Não existe livro didático, mas existe uma preparação. Antes não havia isso.”

Segundo o professor, o esporte deverá continuar presente nas aulas, mas adaptando modalidades para não haver exclusão, e suprimindo o caráter competitivo exacerbado. “A competição é importante desde que traga a cooperação e o trabalho em grupo”, acredita.





Leia mais, na versão impressa:


– Aprendendo a escolher – aulas teóricas de Educação Física podem ensinar práticas alimentares saudáveis e exercícios para evitar doenças e sedentarismo, além do funcionamento dos músculos e do sistema respiratório. 





– Nos anos 80, a ruptura – concepções de Educação Física evoluíram de acordo com o momento social e cultural brasileiro e com as formas de organização do governo e sociedade.





– A Educação Física no Brasil – confira a linha do tempo da disciplina




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