Por trás das câmeras

Programa Observatório da Imprensa é importante ferramenta de análise de mídia a ser usada em sala de aula

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Laurindo Lalo Leal Filho*




Quando caem em minhas mãos livros que ajudam a entender melhor a televisão brasileira, não hesito em recomendá-los aos leitores desta coluna. Gostaria de fazer o mesmo com programas da TV aberta que, por sua qualidade, possam complementar o trabalho dos professores em sala de aula. Confesso tratar-se de uma tarefa difícil. Quando eles surgem, são efêmeros. Uma ou outra minissérie, um especial de bom nível, um programa musical mais bem elaborado de vez em quando, e só.



Se programas desse tipo são raros, o que falar daqueles que deveriam fazer a crítica da própria TV? São artigos de luxo que passam longe da televisão comercial. E mesmo nas emissoras públicas ou estatais eles são raros. A exceção fica por conta do
Observatório da Imprensa

há seis anos no ar, completados agora em maio.



Embora voltado para a análise dos meios de comunicação, muitas de suas edições têm como tema a TV. Vale a pena utilizá-lo em classe. De maneira equilibrada, mas sempre crítica, os convidados de diversos Estados brasileiros manifestam-se sobre a mídia, trazendo ao público olhares que são raros nos jornais – e jamais aparecem na televisão comercial.



Um exemplo: o caso Gugu-PCC, de tanta repercussão no ano passado. O delito cometido pelo apresentador do SBT foi tratado hipocritamente em outros programas da mesma emissora, com lágrimas forçadas de falso arrependimento, e pelas concorrentes com uma selvageria furiosa expressa nos telejornais policialescos do final da tarde. Coube ao
Observatório

levar ao público as outras faces do problema, mostrando diferentes visões a respeito da suspensão do programa por decisão judicial, a transferência da responsabilidade do apresentador e do concessionário do canal para os produtores e as ações que seriam movidas pelas vítimas das ameaças. Informações imprescindíveis para o professor que quisesse discutir seriamente o caso com seus alunos.



Claro que ainda estamos longe do que faz a BBC. A emissora britânica, quando se vê envolvida em uma situação conflitiva, não teme dissecar o problema diante de suas próprias câmeras. Foi o que aconteceu em um caso recente, em meio à invasão do Iraque, quando um jornalista da empresa foi acusado de “esquentar” informações comprometedoras para o governo. Nada foi escondido do público, com as críticas à própria emissora sendo transmitidas abertamente.



Por aqui, um exemplo de transparência como esse ainda está distante, mas o
Observatório da Imprensa

– que, aliás, discutiu com competência o caso envolvendo a BBC – é a única janela que temos para ver o que se esconde por trás das câmeras. É preciso aproveitá-la.



*Sociólogo, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP





laloleal@uol.com.br




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