Por que professor não gosta de ler?

Ensino brasileiro ainda reproduz uma pedagogia ineficaz na valorização da leitura

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Aloísio Milani


Institutos de pesquisa, entidades de classe e editoras até hoje não conseguiram aferir, mas, nos bastidores, todos sabem: professor não gosta de ler. Como toda nota vermelha no boletim, essa também chega com muitas justificativas e desculpas. As explicações vão desde a formação educacional até o preço dos livros, passando pela indefectível falta de tempo.

O baixo poder aquisitivo é uma das explicações para o pequeno volume de leitura do professorado. Em estudo de 2001, divulgado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), 41% dos docentes afirmaram ler ao menos um livro por mês, 34% deles eventualmente lêem e 25% não responderam ou não costumam ler.

O problema da leitura no Brasil – denunciado ano após ano pelos índices de aprovação em exames e vestibulares – não é novo. Alunos são massacrados pelos pais e pela escola por apresentarem péssimos rendimentos em interpretação de textos, por não compreender o que lêem, por não gostar de ler.

Segundo pesquisa publicada no livro letramento no Brasil, realizada em 2001, com 2 mil pessoas de 15 a 64 anos, 69% dos brasileiros dizem que nunca vão a bibliotecas. Quando indagados sobre as pessoas que mais influenciaram o gosto pela leitura, 37% dos entrevistados creditaram o hábito a um professor, 36%, às mães. Os dados, levantados pelo Instituto Paulo Montenegro – entidade ligada ao Ibope – e pela ONG Ação Educativa, dão uma amostra da importância do educador nesse processo.

Por mais que haja empenho em se melhorar os índices brasileiros de leitura, nenhuma campanha terá sucesso se não levar em conta que os próprios professores também não cultivam o hábito de ler por prazer – o que não inclui livros técnicos e material didático, cujas leituras são tidas como obrigação da profissão.

Poucos se dão conta de que os mestres que, hoje, apregoam a importância do hábito de ler, quando alunos, não guardaram boas lembranças dos livros e também sofreram com a leitura imposta, tratada como obrigação e treinamento.

O professor repete para o aluno a mesma visão de ensino que teve em sua formação. Muitos dos atuais mestres também tiveram de fazer os ineficazes resumos de obras clássicas; vários nunca foram sensibilizados para o prazer da leitura; outro tanto não tinha condições financeiras para comprar livros. Fica o dilema: como um professor que não gosta de ler pode estimular esse prazer em seus alunos?

“Grande parte do professorado realmente lê pouco, mas não podemos sentenciá-la como culpada. Essa parcela faz parte do contexto de aprendizagem que não coloca a leitura como categoria fundamental”, expõe Edmir Perrotti, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP. Para ele, essa situação reflete uma falha profunda nas políticas educacionais.

Na prática, há uma desvalorização do livro como meio básico de educação desde o ensino fundamental. “É um círculo vicioso para o professor: estuda numa escola que não usa direito o livro; forma-se educador sem saber lidar com a biblioteca; e retorna para o ensino reproduzindo isso”, explica Elizabeth Serra, diretora das bibliotecas públicas do Rio de Janeiro.

Por que os professores não lêem mais? Entre os especialistas, é consenso dizer que a questão da leitura está muito mais ligada às condições de acesso ao livro e à informação do que ao interesse das pessoas. Essa tese coloca que ler é um hábito mais próximo das camadas sociais mais ricas, em que a presença da cultura letrada é mais forte.

Luiz Percival Britto, presidente da Associação de Leitura do Brasil, explica que “ler para estar bem informado depende das condições de vida”. Para Britto, o discurso que acusa o professor chega a ser preconceituoso e inocente: “Essa discussão é político-social; a leitura depende de uma política de Estado. Os professores são apenas agentes visíveis do processo.”

No primeiro semestre deste ano, a CNTE divulgou um estudo feito em dez estados brasileiros que mostra que a maioria dos professores está na rede pública, tem uma experiência entre 12 e 18 anos de trabalho e ganha entre R$ 500 e R$ 1 mil.

É nesse contexto que se discute a política de incentivo da leitura do professor. Mas ler o quê? E para quê? Logicamente, os professores já lêem cotidianamente para seus planejamentos de aula. Antônio Augusto Gomes, do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coloca que o professor “tem pouca familiaridade de utilizar textos mais literários e acadêmicos”, só que está treinado e “especializado no seu método de ensino”. Mais ainda. “Existe uma tensão entre o que o professor gostaria de ler e ser como profissional e como realmente é”, observa Gomes.




Literatura e trabalho – A professora Deise Capitani tem 36 anos e faz dupla jornada de trabalho em São Paulo (SP). Pela manhã, ela dá aulas no ensino fundamental na Escola Estadual Walter Belian e, à tarde, na Escola Municipal Ataulfo Alves, ambas na zona leste da cidade. Deise concluiu, no ano passado, o Programa de Educação Continuada (PEC) de professores de primeira a quarta séries, que lhe deu diploma de nível superior.

No curso – uma adequação à Lei de Diretrizes e Bases que impõe a necessidade de graduação para os docentes do ensino básico -, Deise estudou as linhas pedagógicas de vários educadores, como Paulo Freire, Piaget e Perrenoud. “Nós dávamos aula, mas não sabíamos classificar e nortear a prática do ensino de acordo com os pensadores”, explica.

Deise admite a dificuldade em arranjar tempo para a leitura: “No trabalho, somos cientistas, professores e psicólogos. Nem sempre sobra tempo para ler e se atualizar.” Por exemplo, nas horas de trabalho pedagógico – horários pagos para o professor se aprimorar -, muitas vezes se discutem apenas problemas pontuais de sala de aula. Não há orientação de especialistas no período.

A professora lembra que, fora as exigências do PEC, os últimos livros que leu foram duas biografias: Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, e uma biografia de Monteiro Lobato. A leitura das obras, segundo a professora, foi importante para sua didática. “Acho que o professor deveria ser mais valorizado pelas políticas públicas. Se pudéssemos ter um salário para lecionar em apenas uma escola, a situação seria diferente”, analisa.

Segundo Deise, uma maneira de se estimular a leitura dos professores é o governo e as secretarias de educação investirem na assinatura de periódicos: “As revistas Época e Veja, por exemplo, trazem informações históricas com explicações atuais. São textos prazerosos. Acho imprescindível que o professor também leia por prazer.”




Salários baixos – Em sintonia com o discurso da professora está a própria presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Juçara Vieira, que reconhece a escassez de tempo para investir na leitura. “Com a internet, se multiplicaram as formas de acúmulo de conhecimento, mas os trabalhadores da educação são absorvidos pelo volume de trabalho que assumem para ganhar um salário razoável”, pondera.

Um levantamento feito pela Unesco em 1998 evidenciou que o salário médio inicial dos professores da rede pública brasileira chegava a ser até seis vezes menor do que na Alemanha, na Espanha e nos Estados Unidos. Na comparação, a média brasileira era menor até que os índices do Uruguai, da Malásia e da Tailândia.

Mas há vozes dissonantes. “Não há como dizer que o professor realmente lê muito mal. Sabemos que ele é intelectualizado, apesar de, como os brasileiros em geral, não ter acesso à maioria das publicações”, analisa Wander Soares, presidente da Associação Brasileira de Editores de Livros (Abrelivros). “Há uma demanda reprimida da leitura no país. Se houvesse melhora econômica, haveria mais consumo de livros”, acredita Soares.

Entre os livreiros, os descontos também não são a estratégia unânime. “Os descontos são mais uma forma de propaganda do que um incentivo à leitura. Há, muitas vezes, alunos de pedagogia que passam quatro anos estudando e não chegam a ler seis livros inteiros”, dispara Ednilson Xavier, da Associação Nacional das Livrarias e gerente da Livraria Cortez.

Xavier coloca que, dos dez livros da área mais vendidos pela Cortez, em julho deste ano, estão quatro do pedagogo Paulo Freire e um do educador Edgar Morin. Alguns deles chegam a custar menos de R$ 11. “Depende mais do incentivo à leitura do que dos preços. Livro precisa de valor prático.”

Clarisse da Silva leciona matemática na escola estadual Sérgio Leça Teixeira, em Franca, interior de São Paulo. Graduada em matemática com licenciatura plena, a professora se candidatou a uma vaga em concurso aberto pela Secretaria Estadual de Educação para lecionar no ensino básico.

Com a bibliografia do concurso em mãos, Clarisse procura estudar e ler o máximo que pode nos meses que antecedem o teste. Mesmo tendo formação universitária, a professora diz que o estudo na faculdade “não lhe deu base suficiente para concurso”. Para ela, “o nível superior não cobra muita leitura e, devido à falta de tempo, os alunos só lêem o que é cobrado”. Ela ainda completa: “Há muito desinteresse dos alunos e dos professores.”

Antônio Augusto Gomes, do Ceale, explica que o problema da formação do professor surgiu no recrutamento em massa de professores, desde a década de 70. “No perfil social, a maioria faz parte da primeira geração, alfabetizada na família. Isso impõe um desafio enorme para a estrutura de formação”, aponta.

Clarisse avalia que “nunca existiu tanto livro na escola para os professores, mas poucas vezes se usa bem o que se ganha”. Sua escola, como todas as outras 3.126 do estado de São Paulo, receberá da Secretaria da Educação um pacote do programa Biblioteca do Professor com mais 219 títulos.

Mas só comprar livros não tem resolvido a questão. Nesse ponto, o professor Edmir Perrotti lembra os resultados de uma pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que apontam que o maior problema das bibliotecas não está nos recursos financeiros e, sim, no isolamento e na falta de comunicação entre acervos e salas de aula (leia mais à pág. 44).

Segundo Elizabeth Serra, diretora das bibliotecas públicas do Rio de Janeiro, o professor precisa ser formado para descobrir a literatura e com isso mudar seu ensino.

“Eu acho que a obra de Monteiro Lobato, por exemplo, pode ser usada como projeto pedagógico. Os livros são didáticos, trabalham a diversidade e são verdadeiros clássicos.” Elizabeth faz questão de reforçar: “Leitura não deve ser apenas o ‘fim’, mas o ‘meio’ da educação”, acredita.



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