Por que os alunos desistem?

Mapa do Ensino Superior revela crescimento acentuado da evasão em cursos presenciais. Razões vão de problemas financeiros à falta de uma formação sólida

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Na rede privada em geral, as instituições que oferecem cursos presenciais estão enfrentando altos índices de evasão. A situação está retratada no Mapa do Ensino Superior no Brasil 2016, publicação do Semesp que traz um panorama detalhado do setor. Em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, praticamente um terço dos alunos matriculados em programas de graduação desistiram do curso em 2014. Mesmo no estado com menor percentual de evasão, o Piauí, o indicador está em 18%. A situação se deve em parte à crise econômica e às deficiências no principal mecanismo de financiamento estudantil, o Fies. O número de contratos encolheu e o que sobrou ainda tem enfrentado ociosidade.

“Menos de 50% é o que está se efetivando [dos contratos disponíveis]. A razão disso é que a maior parte dos alunos elegíveis para o Fies – ou seja, quem fez 450 pontos ou mais no Enem, não zerou na redação e está na faixa de dois a três salários mínimos – acaba com cerca de 10% da mensalidade coberta. É nesse momento que o aluno desiste. Quanto menor a mensalidade, menor a cobertura do programa”, afirma Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp. Ele lembra que houve melhoras no sistema no 2º semestre de 2016, como a queda de 70% para 60% da reserva de vagas para cursos de áreas prioritárias – engenharias, saúde e licenciaturas. A mudança permite que mais estudantes obtenham financiamento para cursos como administração e direito, que têm, historicamente, uma procura mais alta. Mas em época de crise, com o desemprego rondando, muitos jovens temem não conseguir honrar seus compromissos financeiros e optam por não assumir novas dívidas.

Mas a questão financeira não é tudo. Nos cursos de engenharia, por exemplo, muitos acabam largando a faculdade por falta de uma base sólida em física e matemática. Já quem ingressa em carreiras com ampla oferta de vagas e notas de corte mais baixas pode evadir por falta de satisfação com a escolha do curso. Isso acontece principalmente quando essa escolha se dá a partir de critérios vagos, falsas expectativas e até falta de autoconhecimento. É justamente o oposto do que ocorre nos vestibulares mais concorridos, como os das faculdades de medicina. Nessa área, os índices de evasão são mínimos, pois somente os candidatos vocacionados, aqueles que estão seguros quanto à escolha que fizeram, resistem à dura pressão do processo seletivo, destaca Capelato.

Aproximação com os calouros
Sabendo que 70% de toda a evasão se dá nos dois primeiros anos dos cursos, diversas IES privadas promovem ações com futuros alunos para que conheçam melhor a estrutura de cada curso, as possibilidades de atuação no mercado de trabalho, as exigências de estudo e oportunidades para crescimento pessoal. Uma delas é a Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo (SP), que anualmente promove o Dia da Universidade Aberta. Nessa data, os interessados em prestar o vestibular têm acesso a professores dos diversos cursos para tirar dúvidas sobre a carreira. Eles também são convidados a fazer um tour pela universidade, ocasião em que são apresentados os laboratórios e demais dependências, e a fazer um teste vocacional. Essa atividade é promovida pela professora e pesquisadora Sonia Marques, da Faculdade de Psicologia. “Esse tipo de evento é uma forma de ajudar os alunos a ter um pouco mais de segurança na hora de escolher. Se sei o que quero, tolero melhor os desafios”, comenta.

No entanto, a professora lembra que muitos jovens se decepcionam porque buscam em seus cursos algo que está além deles. “Muitas pessoas veem a universidade como forma de ascensão social, como caminho para conquistar um emprego melhor. Mas esse desfecho não é mais tão certo”, afirma. Ou seja, diferentemente do que acontecia há vinte anos, um diploma universitário apenas não é suficiente para garantir um cargo estável e bem remunerado.

Taynã Malaspina, da Universidade São Judas Tadeu, acredita que ter clareza sobre o projeto de vida e conhecer a si mesmo ajuda na construção de uma carreira e a vencer desafios. Em sua dissertação de mestrado, ela estudou a questão da falta de sentido que caracteriza a relação de muitos jovens (a chamada geração Y, nascida entre as décadas de 80 e 90) com seus trabalhos e as mudanças na sociedade. “Hoje vivemos o paradoxo da escolha. Há muitas opções de cursos e o que deveria proporcionar uma sensação de liberdade provoca paralisia”, analisa.
Ela participa do projeto Laboratório de Aprendizagem Integrada na São Judas, em que é utilizada a metodologia de coaching para estimular o jovem a se conhecer melhor. A ideia também é ajudar quem está indeciso a vencer a ansiedade. “Mudanças culturais recentes levaram a uma hipervalorização da carreira. As pessoas passaram a ser definidas pelo que fazem profissionalmente, mas isso é um erro”, afirma Taynã.

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Romantização
Para evitar frustrações, uma das questões que podem ser trabalhadas com os jovens é o ideal romântico de que fazer o curso certo significa fazer o que se ama pelo resto da vida sem passar pelas dificuldades implicadas no processo de crescimento intelectual e pessoal.

Também é importante trabalhar a noção de que os ciclos de carreira são hoje menores do que eram no passado. Na década de 70, por exemplo, um engenheiro civil podia esperar ingressar em uma empresa ou repartição pública e construir casas e pontes para o resto da vida, preferencialmente ascendendo profissionalmente na mesma instituição. A realidade do trabalho hoje é muito diferente. Como a velocidade com que processos e produtos mudam é maior, não é improvável que um profissional tenha de reposicionar sua carreira após um ciclo de 10 ou 15 anos, segundo a especialista da São Judas.

Apesar disso, muitos jovens, principalmente os da classe C, ainda desejam um ambiente estável para trabalhar. A razão disso é que eles são pressionados a contribuir com o orçamento familiar, fator que se torna ainda mais importante em época de crise. Aquele filho ou filha vira uma espécie de poupança. Portanto, o quanto antes ele puder ajudar em despesas como aluguel, planos de saúde e contas em casa, melhor. Essa expectativa, quando não correspondida plenamente, pode virar mais um gatilho para a evasão.

Há ainda um fator mais complicado, segundo os especialistas, que é a formação deficitária na educação básica. Afinal, para um profissional se reinventar ele precisa de mais do que conhecimento técnico. São necessárias experiências de vida, ampla leitura, capacidade de transitar por diferentes áreas do conhecimento, além de contato com novas culturas.

Por ser um problema de múltiplas causas, a evasão se tornou um dos maiores desafios enfrentados pelas IES. Superá-lo exige o emprego de soluções igualmente variadas. Porém, muitas instituições têm conseguido minimizá-lo, o que indica que há um caminho a ser trilhado pelas demais para frear sua ascensão.

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