Por que o ensino do inglês não decola no Brasil

Professores malformados, aulas superficiais, alunos desinteressados: pesquisadores tentam entender os entraves do ensino da língua inglesa no Brasil – e como resolvê-los

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© iStockphoto

É até redundante falar da importância de saber a língua inglesa nos dias atuais. O inglês é o idioma mundial dos negócios, da cultura e das ciências; é a língua mais falada do mundo na soma de falantes nativos e pessoas que a usam como segundo idioma; é certamente a língua que um brasileiro vai utilizar para fazer um acordo comercial com um tailandês, assim como será o único canal de comunicação entre um norueguês e um japonês que estejam falando sobre exploração de petróleo. Mesmo assim, pouco esforço é feito no Brasil para fazer com que os alunos saiam da Educação Básica na rede pública conseguindo se comunicar em inglês.

O fato de o estudante brasileiro ser, em geral, monoglota, tem impactos até mesmo em políticas públicas de incentivo à internacionalização da educação. O programa Ciência sem Fronteiras, por exemplo, teve problemas com alunos que tiveram de retornar ao Brasil por falta de proficiência em inglês. Nas principais universidades do país, aulas em inglês são praticamente inexistentes, ao contrário do que ocorre na maior parte das universidades de ponta em países europeus ou asiáticos.

Mas qual a razão de o inglês ser tão desvalorizado na escola pública? Que medidas poderiam ser tomadas em um período de tempo razoável para fazer com que o aluno que hoje entra no ensino fundamental possa sair da escola conseguindo manter uma conversa em inglês? A pesquisa “O ensino do inglês na educação pública brasileira”, realizada pelo British Council e pelo Plano CDE, tenta responder a essas questões. Os pesquisadores fizeram entrevistas com gestores e coordenadores e promoveram grupos de estudos com professores de inglês, além de aplicar um questionário para 1.269 professores de todas as regiões do país.

“No Brasil, 85% dos alunos frequentam a escola pública. Em algum momento eles têm aulas de inglês, mas quando se pergunta qual o conhecimento deles, as respostas mostram que eles não sabem falar a língua. Uma das motivações da pesquisa foi saber por que os estudantes chegam ao final do ensino médio sem saber a língua – ou sabendo apenas o básico”, diz Nina Coutinho, diretora para língua inglesa do British Council, órgão internacional do Reino Unido voltado à educação e à cultura.

O primeiro passo foi entender o status do ensino de inglês nas redes públicas. O ensino do idioma não é obrigatório – a Lei de Diretrizes e Bases fala em “língua estrangeira”, que pode ser o espanhol, por exemplo. A disciplina é aplicada somente a partir do fundamental 2 e só foi adotar livros didáticos em 2011. Também não há uma maneira de testar o aprendizado de maneira padronizada: a única prova comum é o Enem, mas são apenas cinco questões de língua estrangeira (inglês ou espanhol) num total de 180. “A primeira medida seria padronizar o que vai ser ensinado. Se não há padronização, não há como cobrar nem testar”, afirma Nina.

Se não há padrão sobre o que vai ser ensinado, pouco apoio se dá também ao professor em sala de aula. Apenas 26% das salas contam com computador/notebook e 24% delas têm acesso à internet. A porcentagem de salas com TV é um pouco maior: 31%. Mesmo a presença do livro didático não é certa: menos da metade (47%) afirma contar com esse recurso.

Dos professores entrevistados, 81% revelam ter dificuldades com o material didático. Para 42%, o livro didático é muito avançado para o nível dos alunos – a mesma porcentagem sente falta de materiais complementares. É comum eles darem dinheiro do próprio bolso e fazerem “vaquinha” para comprar equipamentos e materiais, como aparelho de som e DVDs. A sensação de desvalorização do trabalho deles é um fator recorrente nos resultados da pesquisa (veja quadro ao lado). “O professor valoriza muito a liberdade da escola pública, mas se ressente quanto à falta de apoio. As aulas de inglês são as primeiras a serem canceladas para os alunos ensaiarem quadrilha, por exemplo”, diz Nina.

Verbo ”to be”

A pesquisa identifica que, para os professores, a relação com os alunos também é difícil. As crianças e adolescentes muitas vezes estão em situação vulnerável, com baixa condição socioeconômica e oriundas de famílias desestruturadas. Na sala de aula, são desinteressados e “mal sabem o português”. O nível desigual de conhecimento também faz os professores muitas vezes terem de sempre voltar ao mais básico: “o verbo ”to be” é retomado continuamente”, aponta o relatório.

Em sete estados, mais da metade dos professores da rede pública tem contrato temporário. Na prática, a pesquisa encontrou distorções como um professor com 19 turmas de 45 alunos cada em Belém (PA). Por outro lado, a grande maioria dos alunos de escola pública tem menos de duas horas de aulas de inglês por semana.

“A língua estrangeira nunca foi uma preocupação das diretrizes nacionais”, afirma Dirce Charara Monteiro, professora da pós-graduação em educação escolar da Unesp de Araraquara e do Centro Universitário de Araraquara (UniAra). Para ela, aquelas duas horas de aulas de inglês por semana não serão suficientes para um aluno aprender a língua. Segundo a professora, há um problema institucional que conjuga formação inadequada dos professores e distribuição de aulas.

Uma pesquisa orientada por Dirce recentemente mostrou o quanto a formação de professores de inglês ainda é deficiente em relação às questões da sala de aula. “A relação teoria e prática, fundamental em qualquer curso de licenciatura, foi muito insatisfatória na formação”, aponta. E, quando se trata de formação continuada, o cenário é semelhante: são raros os cursos específicos para professores de língua inglesa oferecidos na rede. “É preciso investir na formação continuada; os professores estão presos a práticas antigas, muito voltados à tradução do texto”, diz.

Soluções

Como conclusão da pesquisa, o British Council aponta algumas medidas discutidas com professores e gestores para melhorar o ensino de inglês na rede pública. Em princípio, o inglês deveria começar mais cedo a fazer parte do currículo, e não apenas no fundamental 2; as aulas teriam de ter maior carga horária em turmas menores, divididas por nível de conhecimento; os professores precisam de capacitações presenciais com tutores nativos, para treinar a conversação, e oportunidades de intercâmbio; os recursos didáticos deveriam ser mais diversificados e tecnológicos.

Para os professores interessados, a cultura americana poderia ser um atrativo para o ensino da língua. Afinal, as queixas são que o conteúdo é descontextualizado e não há cobrança. Na opinião de Nina Coutinho, é necessário encontrar qual a motivação para um aluno se expressar. A atual discussão da base curricular comum poderia ser um momento de virada. “O que esse aluno precisa saber é quais são os objetivos do aprendizado dele”, afirma.

A professora da Unesp acredita que com material didático mais adequado (flexível e adaptado à realidade brasileira) e professores com turmas menores e maior carga horária, seja possível formar pelo menos um bom leitor ao final do ensino médio. “Só o tempo que o aluno fica na sala de aula é muito pouco, são raras as oportunidades de usar o inglês. A internet é um meio de ter acesso a vídeos, textos e uma série de informações em inglês”, diz. Mesmo assim, reconhece, não dá para trabalhar com “objetivos mirabolantes”.

Para a professora Márcia Matiko Okudi, 47 anos, que lecionou por dez anos na rede pública estadual de São Paulo como temporária, seria possível dar uma boa aula de inglês se a metodologia fosse outra. “Em oito anos, o aluno conseguiria falar bem, ainda mais começando no 5º ano, uma época em que eles captam tudo”, diz. Na opinião dela, os professores estão condicionados a um só jeito de dar aula. “O inglês do livro didático é diferente do que é falado no dia a dia”, aponta. Os alunos gostam de aprender inglês quando isso envolve falar de música e games, por exemplo, mas nem sempre a direção da escola e outros professores conseguem entender isso.

A formação também é um problema, diz Márcia. “A maioria dos professores não fala inglês, não. Na faculdade, muitos tiravam a nota só para passar”, lembra. Ela se licenciou em português e inglês em uma faculdade particular do interior de São Paulo, mas reconhece que as aulas foram deficientes. Seu aprendizado de inglês foi anterior, usando fitas VHS. Depois teve a oportunidade de viajar para os EUA, e ainda mantém contato com amigos americanos. Apesar do interesse pela língua, desistiu de dar aulas neste ano e não sabe se quer voltar. “Os alunos são muito carentes, as classes têm níveis muito diferentes, faltam professores que deem atenção aos alunos. No ensino médio a situação é ainda pior”, aponta.

Perfil do professor de inglês na rede pública brasileira 
81% dos professores de inglês são mulheres; 55% estão acima dos 40 anos;

90% têm ensino superior completo; apenas 38% são formados em língua estrangeira;

52% são graduados há mais de dez anos e 45% do total não faz capacitação pedagógica com frequência. A maioria dos que fizeram formação continuada pagaram do próprio bolso;

55% relataram que um dos maiores problemas­ que enfrentam é a “falta de oportunidade para conversar em inglês” e a “dificuldade com a língua falada” (22%);

33% possuem certificado de proficiência no idioma;

65% lecionam duas ou mais disciplinas, geralmente língua portuguesa;

38% dão mais de 30 aulas por semana, entre inglês e outras disciplinas.

 

Em formação 
Embora em pequeno número, algumas redes públicas já contam com programas que investem na formação continuada específica para professores de língua inglesa. O objetivo é não apenas abordar novas metodologias de ensino, mas também melhorar o nível do conhecimento de inglês do professor. No Espírito Santo, um programa em parceria com o British Council oferece capacitação a 40 professores da rede estadual em 33 escolas-polo. Esses professores passam a ser tutores de um curso de inglês em seus municípios para alunos da rede pública fora do horário regular.

“Há uma lacuna em relação à formação dos professores, muito devido à má qualidade do ensino universitário”, diz Rosângela Vargas Davel Pinto, coordenadora da parceria no estado. Ao longo do ano, esses professores – escolhidos por um processo seletivo – têm aulas presenciais com um tutor do British Council e oficinas de formação metodológica. “Esse professor que tinha medo de falar está diferente, mais desinibido. Mas a proficiência é demorada”, observa.

O professor Rony Gleison Ebani Carvalho, 27 anos, estuda inglês por conta própria desde os 14. Formado em 2008, hoje ele dá aulas em três municípios pequenos do norte do Espírito Santo, incluindo os polos em parceria com o British Council. Na rede regular, as queixas não diferem muito de professores de outros locais: número excessivo de alunos, tempo curto para aprofundar as aulas, livro didático todo em inglês, muito avançado para os alunos.

Mesmo assim, o professor tenta introduzir vídeos e música nas aulas para despertar o interesse dos estudantes – o livro não é o guia das aulas, mas os projetos discutidos de maneira interdisciplinar. “Eu já fui aluno da rede e hoje sou professor. Sempre tive paixão pela língua inglesa e hoje quero contribuir. Vejo que os alunos gostam das aulas”, diz. Apesar do interesse em se aprimorar, Carvalho sente que ainda falta a fluência na língua. “Hoje, no estágio em que estou, precisaria fazer um intercâmbio, passar um mês num ambiente só falando inglês”, afirma.

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