Por que eles saem da escola?

No mundo todo, razões para evasão escolar ou abandono precoce giram em torno de uma só questão: pobreza

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Cristina Charão*

É como o dilema da publicidade: é preciso ter mais educação para aumentar a renda ou é preciso ter renda para aumentar a educação? Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), cada ano a mais de escolaridade resulta em um aumento médio de 10% nos rendimentos auferidos ao longo da vida. Por outro lado, a mesma Unesco aponta a pobreza como o principal fator responsável pelo abandono precoce da escola.



Essa relação conflitante repete-se quando se observa o problema em escala planetária. Nações mais ricas têm maior índice de escolaridade, portanto menor abandono. As mais pobres registram evasão muito alta. Na Dinamarca e na Finlândia, 100% dos estudantes completam o último ano escolar. Angola, por sua vez, registra que apenas 3,7% dos alunos chegam à quinta série do ensino fundamental. No entanto, em ambos os grupos de países, as razões para a saída precoce da escola são criadas pela pobreza.




A África registra a situação mais dramática, que se traduz em casos como o do Quênia. Em muitos países, inclusive no Brasil, a merenda é um forte atrativo, tanto por desobrigar as mães do trabalho na cozinha, liberando-as para o trabalho fora de casa, como por representar uma forte ajuda indireta na renda familiar. No Quênia, o problema chegou a tal ponto que o Programa das Nações Unidas para a Alimentação fez um anúncio especial sobre a situação das escolas, alertando para o risco de um abandono em massa devido ao corte nas verbas da agência para programas de alimentação escolar. “Quando se oferecem refeições gratuitas, mais crianças vão à escola e permanecem na escola”, diz o diretor do programa no país, Tesema Negash.




Outras razões para a evasão escolar advindas da pobreza se manifestam de forma contundente no continente africano. Duas questões, no entanto, mostram-se especialmente delicadas, em especial na África Subsaariana. A primeira é a guerra. Assolados por guerras civis, muitos países experimentam uma grave queda na qualidade da educação.




Em Uganda, onde menos de 45% das crianças chegam à quinta série do ensino fundamental, o orçamento para a educação é praticamente o mesmo que o gasto com armas: 2,6% e 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB), respectivamente. Embora tenha registrado um aumento substancial nas matrículas nos últimos anos – por conta da gratuidade -, o país continua com alto índice de evasão, revelando a ligação entre baixo investimento, pouca qualidade e alto abandono. Outro efeito das guerras é o constante recrutamento de crianças e adolescentes para as milícias. Isso retira os meninos da escola e também do trabalho na agricultura, onde são substituídos por meninas que, por sua vez, também abandonam a escola.




Mas há outra forte razão para o abandono escolar na África: a aids. Estudo feito em 2002, por pesquisadores da Universidade de Sussex (Inglaterra), mostrou o impacto da pandemia de HIV em Botsuana, onde cerca de 40% da população vive com o vírus – o número de órfãos de pai e mãe, hoje estimado em 10%, deve aumentar para 35% em 2010. O risco desses meninos e meninas abandonarem a escola é muitas vezes maior do que o daqueles criados em uma estrutura familiar convencional. Ao mesmo tempo, a aids também tem sua parcela de culpa na queda da qualidade da educação. Milhares de professores e gestores morrem anualmente e a reposição de pessoal é praticamente inexistente.




Em busca de qualidade na educação, Joseph Owana, ministro da Educação de Camarões, esteve no Brasil em maio para discutir a replicação do Fundo de Fortalecimento da Escola (Fundescola) naquele país africano. O programa incentiva a melhoria da gestão escolar e tem mostrado êxito no combate à repetência e à evasão.




O ciclo da pobreza – A falta de dinheiro para arcar com os custos da educação e a exigência do abandono precoce da escola para entrar no mundo do trabalho são fatos que se repetem em praticamente todos os países do mundo. Nos Estados Unidos, 45% dos jovens que abandonam a escola antes de terminar o ensino médio citam como justificativa questões ligadas ao trabalho. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), 53% dos jovens que trabalham em centros urbanos do continente não se formam. Nas zonas rurais, esse índice sobe para 71%.




A quebra desse ciclo da pobreza é a principal justificativa de programas estatais de distribuição de bolsas mediante a comprovação da permanência na escola. Um dos primeiros a implementar o Bolsa-Escola no Brasil, quando governador do Distrito Federal, o senador Cristovam Buarque (PT-DF) comemora o interesse crescente de outros países pelo modelo adotado por aqui. “A divulgação do Bolsa-Escola se deu por meio dos organismos multilaterais que reconheceram no programa uma boa ação governamental”, comenta.




O país que mais sucesso teve com iniciativas desse tipo foi o México. A combinação de exigências ligadas à área da saúde e da alimentação com a educação, a fiscalização rigorosa da freqüência escolar e uma boa estrutura de pesquisa e acompanhamento dos resultados fazem do programa
Oportunidades

um exemplo. Nos moldes do Bolsa-Escola, o governo mexicano paga às mães uma bolsa referente a cada filho menor de 18 anos que está na escola. Ao final do ensino médio, o estudante recebe também uma espécie de “poupança” como forma de incentivo à entrada no ensino superior.




Iniciado em 1997, o programa registra bons resultados em relação ao abandono escolar. Na zona rural, o número de jovens que completam todos os ciclos de educação aumentou em 23%. A taxa de transição do nível primário para o secundário cresceu 24%. O México ostenta hoje um dos maiores índices de sobrevivência escolar da América Latina, segundo a Unesco. Em torno de 90% dos alunos chegam à quinta série do ensino fundamental.




Mas a escola que “prende” o aluno não é só aquela que traz benefícios financeiros à família. “A escola chata termina expulsando a criança”, avalia Buarque.




Aliás, “não gosto da escola” aparece entre as justificativas apresentadas por 51% dos jovens norte-americanos que abandonam a escola. Outras duas respostas freqüentes desvendam a “chatice” das instituições: “sinto que não pertenço à escola” e “vou muito mal”. Em outras palavras, o despreparo da rede para lidar com jovens de diferentes origens (sociais, étnicas, culturais) e a repetência estão entre os pontos extra-renda responsáveis pela evasão.




Esses dois fatores, no entanto, repetem-se com maior freqüência entre os estudantes vindos de famílias mais pobres ou cujos pais têm baixa escolaridade. Nos EUA e na Europa, outro complicador é a presença cada vez maior de imigrantes na escola. O estado da Flórida, onde reside uma das maiores colônias hispânicas dos EUA, tem um dos piores índices de graduação no ensino médio do país.




Além de virem de famílias de baixa escolaridade, os filhos de latinos têm dificuldades para ser aceitos fora dos guetos. O
Programa para Prevenção do Abandono Escolar

do governo norte-americano custeia iniciativas que, entre outros temas, promovem reformas escolares ou ações para a inclusão de minorias. A continuidade do projeto, em 2005, no entanto, ainda não está garantida. “No momento, temos fundos apenas para financiar o terceiro ano do programa”, conta Valerie Randall-Walker, do Escritório de Educação Vocacional e de Adultos do Departamento de Educação dos EUA.




Jay Smink, diretor do Centro Nacional para Prevenção da Evasão, cita pelo menos 15 estratégias eficientes para evitar o abandono precoce da escola. Entre elas, o envolvimento da família no processo educacional, o fortalecimento da educação nos primeiros três anos de vida, atividades extraclasse e complementares ao processo educativo, a colaboração da comunidade e a prevenção da violência.




Em Portugal, o recém-lançado
Programa Nacional de Prevenção ao Abandono Escolar

segue algumas dessas recomendações. A taxa de evasão anual no sistema escolar português gira em torno dos 3%. Já o total de jovens que deixaram as salas de aula antes da formatura é de 41%. Com o ambicioso objetivo de reduzir à metade a saída precoce da escola até 2010, o projeto do governo português prevê uma ação ampla. À melhoria dos equipamentos escolares somam-se projetos como a criação da figura do tutor para crianças com dificuldade de aprendizagem ou integração, além dos programas
Depois das Aulas

(de apoio financeiro a atividades extraclasse) e
Pais na Escola

. No nível médio, que é onde se registra a maior evasão, uma reforma ampla e o apoio à criação de cursos técnicos específicos. Isso garantiria dar ao estudante uma perspectiva de geração de renda maior se permanecer na escola do que se abandoná-la. Mesmo na rica Europa, a questão ainda é a renda.



*Da Agência Repórter Social



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