Por onde houver exclusão

Países europeus, EUA e Japão adotam como ferramenta para inclusão social a educação popular, que se volta hoje para o protagonismo e a diversidade

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Embora algumas das melhores taxas de desenvolvimento humano do mundo estejam na Europa, os países do continente também enfrentam problemas com a exclusão social. Populações de refugiados, moradores de rua e imigrantes em busca de trabalho formaram uma classe à margem dos elevados padrões locais. A surpresa é que países como a Itália e a Finlândia – bem como, fora do continente, os EUA e o Japão — encontraram na educação popular brasileira mecanismo eficiente para a inclusão social desse estrato da população.








Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a Europa recebeu 15 milhões de imigrantes entre 1991 e 2000 – o equivalente a toda a população da Holanda. Em geral, eles não conhecem o idioma do país que escolheram, aceitam subempregos e não são assistidos pelos serviços de saúde, situação muito semelhante à dos milhões de miseráveis do Brasil.




Assim, muitos educadores não se dizem surpresos com a importação de nosso
know-how

na área. “Num sentido irônico, os países mais ricos têm mais necessidade de resgatar os valores de solidariedade, cooperação e sensibilidade crítica do que os países subdesenvolvidos”, observa o inglês Dan Baron, arte-educador popular radicado no Brasil e autor de
Alfabetização Cultural

(Alfarrábio, 432 págs., R$ 44). “Esse resgate acontece nas práticas de educação popular.”




Amplamente praticada nos países da América Latina, sobretudo no Brasil, a educação popular engloba, além da alfabetização, a busca da conscientização para a cidadania e a igualdade social. Sua mais sonora voz foi a do pernambucano Paulo Freire, que desde a década de 60 lutava para acabar com a desigualdade. Mais de 100 países mantêm núcleos de estudos, cátedras ou institutos que trabalham sob a égide da Pedagogia Libertadora, desenvolvida pelo educador.




“Países europeus viram crescer em suas cidades uma população de moradores de rua e não sabiam como lidar com isso”, observa o educador Moacir Gadotti, diretor do Instituto Paulo Freire, em São Paulo (SP). A América Latina continua a ser a região com o maior números de centros dedicados ao estudo e à aplicação da educação popular, mas vem aumentando o número de países europeus que procuram o instituto em busca de projetos e referências.




“Eles precisam de inclusão com qualidade social, e isso é possível por meio de uma pedagogia libertadora”, afirma Gadotti. Ele conta que, por causa disso, o instituto é freqüentemente requisitado para oferecer desde sugestões bibliográficas até assistência para a instalação de instituição equivalente no exterior.




Para atender a demanda, o Instituto Paulo Freire criou um departamento que cuida especificamente da expansão da ideologia do pedagogo pelo mundo, a Universitás Paulo Freire, criada em 2000, durante um encontro de pedagogos realizado em Bolonha (Itália). Em 2005, foram inaugurados institutos com o nome de Paulo Freire em Israel e na África do Sul. O primeiro foi concebido para assistir refugiados palestinos.




O israelense Davi Windholz, por exemplo, tomou conhecimento de Paulo Freire e da educação popular, e entrou em contato com a Universitás em São Paulo. Antes de inaugurar a entidade-irmã em seu país, Windholz visitou três vezes São Paulo para cursos e discussões. Jason Mafra, coordenador do departamento, confirma que existe uma grande demanda. “Todo semana, todos os dias, somos procurados. Às vezes para orientação, às vezes para parcerias”, ilustra.




A internacionalização da educação popular não é desconhecida do Ministério da Educação, que acompanha essa expansão por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad). “O pensamento freiriano é fundamental e sua penetração nos países que buscam uma pedagogia libertadora é natural”, observa Maria Margarida Machado, coordenadora pedagógica da Secad. “É a grande contribuição brasileira para o mundo.”




Essa face positiva, entretanto, não pode esconder a negativa: o aumento global da desigualdade nos últimos anos. “Tragicamente, o novo milênio trouxe o alargamento e o aprofundamento do abismo social”, observa o educador Pedro de Carvalho Pontual, atual presidente do Conselho de Educação de Adultos para América Latina (CEAAL). “Precisamos usar uma linguagem universal, como a da educação popular, para enfraquecermos o problema.”




Na Finlândia, a estudante de pedagogia Lisou Lehtimaja conheceu a educação popular após entrar em contato com o Instituto. Angariou recursos e veio ao Brasil conhecer mais sobre Paulo Freire. Atualmente, trabalha com arte-educação e mantém convênio com a Universidade de São Paulo. Quando voltar para a Finlândia, planeja criar um livro ilustrado sobre educação popular para que mais pessoas conheçam a proposta.




A estudante italiana Sara Cioli, que cursa filosofia na Universidade de Pisa, está desde fevereiro no Brasil pesquisando sobre o assunto para trabalhar em sua ONG, que atende adolescentes em situação de risco. Ela já visitou um projeto de educação popular em Pernambuco e recolheu muito material para trabalhar na Itália.




Em outros casos, o interesse é de ordem acadêmica. O espanhol Pepe Aparicio, da Universidade de Valencia, procurou o Instituto para pedir ajuda na tradução de livros de Paulo Freire, que irá utilizar para o desenvolvimento de projeto com uma comunidade rural na sua região. Em julho, um grupo de estudantes de pedagogia da Universidade de Illinois veio conhecer projetos e experiências do Instituto.





América Latina —

O movimento de educação popular na América Latina se desenvolveu num contexto de lutas, segundo Maria Clara Pierrô, professora do Departamento de Economia e Administração Escolar da Faculdade de Educação da USP e ex-representante do Brasil no CEAAL. “Os países da América Latina tiveram em comum ditaduras muito longas, seguidas de redemocratizações concomitantes a depressões econômicas”, explica.




A repressão e a seguida falência econômica dos países aprofundaram as diferenças sociais herdadas da colonização. Em toda a América Latina, índios, negros e pobres são desestimulados a freqüentar escolas. Na década de 1970, 17 milhões de brasileiros — cerca de 24% da população do país na época — se declaravam analfabetos. A partir desse número alarmante, projetos como o Movimento de Educação de Base, promovido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), partiram para o combate ao problema.




Para o professor Luiz Eduardo Wanderley, do Instituto de Estudos Especiais da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), o êxito da educação popular iniciada no período foi assumir o caráter de classe. “Em nossos países, marcados pelo elitismo e patrimonialismo, valorizar essa concepção de povo teve méritos notáveis”, observa. Com mais de 40 anos de prática, estudo e desenvolvimento, a educação popular na América Latina adquiriu contornos próprios. Segundo Maria Clara, “não existem diferenças substantivas entre a educação popular de cada país, mas sim uma questão de tradição.”




Na Colômbia, por exemplo, a educação popular se firmou na questão da paz e da infância, devido à guerrilha. Segundo o Ministério de Defesa do país, só as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) dispunham, em 2004, de mais de 7 mil jovens recrutados, cerca de 40% de seus guerrilheiros. A infância também é o principal público da educação popular da Guatemala, por conta da guerra civil que durante 35 anos assolou o país. A guerra acabou somente em 1996 e deixou mais de 200 mil órfãos, em sua maioria camponeses indígenas.




Na Bolívia, a maior preocupação é com os índios nativos. Dos mais de 8 milhões de habitantes, 70% são indígenas. No Brasil e no México, países com as maiores populações da América Latina, o principal foco é a inclusão política. Atualmente 58% dos mexicanos vivem em situação de miséria, segundo dados de 2002 do Banco Mundial. A situação do Brasil não é diferente: em maio deste ano, dados do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) estimaram em 53,9 milhões a população brasileira em situação de pobreza.




“A educação social nasceu como uma visão emancipadora para a América Latina e se espalhou pelo mundo”, resume Moacir Gadotti. “É uma pedagogia aplicada ao nosso tempo de exclusão.”





Além da alfabetização —

Protagonismo e diversidade são os rumos atuais da educação popular no Brasil. Não basta apenas dar a ferramenta de leitura ao indivíduo, pregam os educadores. É necessário que ele a use de forma crítica. E não apenas no que se relaciona à alfabetização, mas também, por exemplo, em relação a direitos humanos, desenvolvimento sustentável, sexualidade e cultura rural. Até mesmo o conceito de educação popular passa por transformações. Não é necessariamente informal, fora do contexto escolar. “Hoje, ela está em todas as esferas do conhecimento, em qualquer nível do ensino”, analisa Moacir Gadotti. “Você pode aplicar os conceitos da educação popular em qualquer lugar.”




O protagonismo social – ou a idéia de que o indivíduo seja autor de sua inclusão — é a grande meta da educação popular. Por essa concepção, o próprio excluído deve estar apto a buscar aquilo que lhe é de direito. Cabe ao educador despertar esse sentimento em sua comunidade. “Um educador popular é capaz de dar olhares à realidade brasileira”, avalia a professora Maria Stela Graciani, coordenadora do Núcleo de Trabalhos Comunitários (NTC) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que já formou mais de 10 mil educadores sociais e dá suporte técnico e acadêmico a projetos desenvolvidos em todo o país.




De acordo com Stela, a educação popular tem como principal objetivo tornar o indivíduo conhecedor dos seus direitos e deveres por meio do resgate de sua cidadania. Para isso, o NTC promove cursos de capacitação, que tentam despertar nos futuros educadores “a sensibilidade política, com um caráter mobilizador, articulador e partícipe da grande transformação”. Pretende-se, como grande transformação, converter projetos e intervenções sociais em políticas públicas. “O Estado não conseguia resolver todos os problemas”, avalia a coordenadora. “Hoje, a sociedade civil é sua parceira ativa.”




Essa busca pelo resgate da cidadania e a necessidade de inclusão permitiu, então, que a educação popular cruzasse a fronteira da escolarização e se inserisse em diversos segmentos. No início, o alicerce fundamental estava nos movimentos populares; com o tempo, passou-se a apoiar movimentos sociais mais amplos: dos direitos humanos, pela paz, em defesa do meio ambiente, de gênero.




“A partir da ênfase nas classes, houve uma extensão para os indígenas, os negros, as mulheres, os subempregados”, explica o professor Luiz Eduardo Wanderley, também da PUC-SP. “Mas isso não bastava: era preciso ampliar o leque para os aliados: intelectuais, técnicos, setores de classe média e governamentais, clérigos, religiosas.” Hoje, a educação popular engloba desde o educador formal, preocupado com a democratização do ensino, até o educador popular, que trabalha na mata com desenvolvimento sustentável. “É um organismo vivo”, compara Maria Clara Pierrô.




Com a ampliação de públicos, principalmente a partir da década de 90, a educação popular ganhou pluralismo, item que mais atrai os estrangeiros. A própria diversidade brasileira contribuiu para isso, segundo Maria Margarida Machado. “O continentalismo do Brasil, que proporciona diferentes culturas, nos dá a credibilidade para sermos procurados por diferentes países”, afirma. “Temos um passado que permite diálogos com a África, Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra. É uma questão de identidade.”




O educador inglês Dan Baron, com a autoridade de quem escolheu o Brasil para atuar, concorda. “O Brasil já é um ator principal num palco mundial. Se conseguisse cultivar sua auto-estima, poderia ter repercussão decisiva nos povos do mundo inteiro.”





Reportagem: Lígia Ligabue (Agência Repórter Social)





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Educação







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