Por mares nunca antes navegados

Buscadores, a ferramenta básica

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Sérgio Rizzo*

Os internautas talvez não percebam, mas os grandes portais travam batalha cada vez mais feroz pela preferência do público escolar, formado por professores e estudantes de todos os níveis. “Esse público é estratégico, mas os grupos empresariais estão ainda na pré-história da reconfiguração estratégica que significa voltar-se para ele. O marketing dessa área está concentrado em adolescentes”, analisa Lílian Starobinas, coordenadora do programa Educar na Sociedade da Informação, da Cidade do Conhecimento, projeto multidisciplinar da Universidade de São Paulo. “Megafusões empresariais estão em curso para poder ‘atender’ melhor esse público. Isso vale tanto para escolas privadas, que passaram nos últimos anos por ondas de concentração, quanto para complexos empresariais gigantescos, como o UOL, que acaba de ter uma parte vendida para um grupo de telefonia.”

Sintoma dessa preocupação com o público escolar foi o lançamento, no ano passado, do Manual Yahoo! de Busca na internet. Distribuído para 40 mil professores da rede municipal de ensino da cidade de São Paulo, esse guia – que também está disponível pela internet – mostra ao educador os principais caminhos para uma busca mais eficiente e sugere temas para uso em sala de aula. “O material foi desenvolvido, com o apoio de especialistas na área pedagógica, para não ser apenas um apanhado de dicas, mas para ajudar efetivamente o professor a orientar o aluno no uso da pesquisa on-line”, diz Carlos Augusto Araújo, diretor dos serviços de busca do Yahoo!, que em 2004 ocupava 21,1% do mercado de “buscadores” – de acordo com a OneStat, empresa de softwares de análise de websites em tempo real. O principal indicador de que esses sistemas são muito utilizados no ambiente escolar, segundo Araújo, é que há uma queda sensível de uso dos sites no período de férias.

“Achamos que uma maneira original de fazer a divulgação dos nossos serviços seria investir na formação do professor para orientar o uso do produto entre os estudantes, que aprendem a ter senso crítico para confrontar a fonte da informação com o objetivo da pesquisa. Aprendendo a usar as palavras-chave, ele reflete sobre como se organiza uma pesquisa, sobre a qualidade dos resultados e como refinar a busca”, explica Araújo.

Seu principal adversário, entre os “buscadores”, é o Google, líder absoluto do mercado, com uma fatia de 56,4%, mas que não mantém escritório no Brasil. A versão brasileira não apresenta nenhum tipo de busca específica para fins escolares, mas a norte-americana tem dois serviços voltados ao público universitário: o Google University Search e o Google Scholar, ainda em fase experimental. O primeiro realiza as buscas exclusivamente no conteúdo de sites de universidades norte-americanas. O segundo limita as pesquisas a um diretório de conteúdo acadêmico, com teses e textos de revistas científicas indexadas.

A Microsoft, com 9,2% desse mercado, não tem informações específicas sobre o uso por estudantes de seu MSN Busca. “Acompanhamos como os usuários em geral fazem suas perguntas ao sistema de busca e, a partir delas, procuramos o aprimoramento contínuo do serviço”, diz Guilherme Pita, gerente de produto do MSN. “Pesquisa recente mostra que metade dos usuários não acha o que procura. Nosso desafio é melhorar esse acesso”. A tendência de voltar as atenções para o estudante é exemplificada pelo lançamento do novo MSN Busca, disponível desde 1º de fevereiro nos EUA, México, França, Inglaterra e Alemanha. O serviço inclui a possibilidade de restringir a pesquisa a uma fonte de informação, como a Enciclopédia Encarta. “Isso garante mais resultados com qualidade, o que pode melhorar o uso para fins didáticos”, afirma.

Pita observa que há um longo caminho de aperfeiçoamento para os mecanismos de busca. Os sistemas funcionam baseados em dois pilares que determinam os resultados: a amplitude do index de documentos e o algoritmo de busca. “O index do MSN tem 5 bilhões de itens e estamos sempre atualizando. Mas o mais importante é aperfeiçoar sempre o algoritmo que vai trabalhar em cima desse index – ele precisa entender as palavras colocadas na realização da pesquisa e mostrar os resultados de maior relevância.”



*Colaboraram Jessika Torrezan e Fábio de Castro, da Agência Repórter Social




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A experiência portuguesa

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Sérgio Rizzo

A experiência portuguesa no uso da internet para fins escolares pode ajudar na discussão do tema no Brasil, até porque o idioma facilita o acesso a sites e a relatos de projetos. “Aqui, o acesso à internet ainda não é um bem generalizado, sobretudo porque é caro o serviço de ligação telefônica e de cabo, quer seja nos servidores comuns de banda larga, quer se trate de ligações pontuais por modem”, constata o professor Vítor Reia-Baptista, coordenador do Centro de Ciências da Comunicação (CICCOM) da Universidade do Algarve, em Faro.

Dois projetos governamentais, Internet na Escola e Nónio – Século XXI, foram lançados paralelamente, em 1997. O objetivo do primeiro era universalizar o acesso de instituições de ensino à rede. “Essa meta foi alcançada, mas em muitos casos, especialmente em escolas de ensino fundamental e em zonas rurais, só funciona um computador”, explica Reia-Baptista. A segunda iniciativa, além de também contribuir para equipar as escolas, formou uma rede de Centros de Competência que as envolveu em projetos pedagógicos desenvolvidos no âmbito das tecnologias da informação e comunicação aplicadas à educação.

“Pertencendo à União Européia, Portugal participa de realizações como a European Schoolnet que, ao longo do ano, desafia as escolas européias para projetos pedagógicos bem definidos”, observa o professor Cândido Varela de Freitas, da Universidade do Minho, em Braga. “Assim, um bom número de escolas tem a sua página na web, algumas de muito boa qualidade, animando fóruns de discussão. Passos importantes foram dados recentemente, como o projeto Connect, que visa criar ambientes de aprendizagem altamente motivadores para estudantes de ciências de escolas secundárias”.

O projeto Educaunet desenvolveu instrumentos pedagógicos destinados a testar (e a alertar para) algumas das situações de risco na utilização da internet, como o comércio eletrônico e, sobretudo, as pesquisas na rede, fornecendo critérios para avaliar a credibilidade de fontes e o rigor de conteúdos. “A perspectiva é sempre a de fomentar a utilização, nunca prescrevendo medidas proibitivas, mas tentando tornar os jovens mais conscientes da possibilidade de risco”, explica Reia-Baptista. Os resultados do Educaunet serão aprofundados com o Meadiappro, lançado em janeiro deste ano. Esse projeto tem o objetivo de verificar como os jovens se apropriam de conteúdos nos novos contextos comunicativos em rede.

“Além da tecnologia, é necessário assegurar aos estabelecimentos de ensino e aos profissionais da educação as necessárias oportunidades de desenvolvimento profissional e de apoio sistemático aos projetos de inovação”, diz o professor António J. Osório, do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho. “É por essa razão que estamos a organizar, por exemplo, a conferência Challenges 2005, que se realizará em maio, e onde esses temas estarão em análise e aprofundamento”. Osório lembra que não houve formação específica para todos os professores desde que os computadores conectados à internet se espalharam pelas 9 mil escolas portuguesas.

“Mas houve e continua a haver capacitação. Por exemplo, aqui na Universidade do Minho há uma disciplina própria obrigatória no currículo da formação de professores”, pondera. Em termos gerais, ele acredita que a tendência dos professores “seja mais para o entusiasmo do que para a rejeição” quanto ao uso da internet como ferramenta para pesquisa e produção de trabalhos escolares.

Varela de Freitas observa que alguns professores, “os mais velhos”, não vêem com bons olhos a mudança. Mas nos últimos tempos “tem-se verificado mais aptidão para trabalhar cooperativamente”. O impacto da internet nas escolas portuguesas se faz notar, especialmente, nas regiões menos desenvolvidas – outro traço comum com o Brasil. “Ainda no final dos anos 80, quando começamos a colocar computadores e modems externos ligados a telefones em aldeias de montanha no Parque Nacional da Peneda-Gerês, notamos que não só a tecnologia (na altura pioneiríssima) funcionou como forma de estimular a comunicação entre crianças de aldeias isoladas e dessas crianças com outras de povoações maiores, como também promoveu o estatuto da escola e da educação como reais promotores do desenvolvimento”.




Serviço


Nónio – Século XXI




http://giase.min-edu.pt/nonio/



European Schoolnet




www.eun.org/portal/index-en.cfm



Educaunet




www.educaunet.org



Conferência Challenges 2005




http://nonio.uminho.pt/challenges2005



Por mares nunca antes navegados

A Psicologia do plágio – O jornalista e professor Marcelo Coelho sugere punição dura aos alunos que copiam textos da internet, mas acredita que “a psicologia do plagiador merece respeito”

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Sérgio Rizzo

Quando se convenceu de que havia alunos copiando textos da internet?

Antes de mais nada, não é uma questão de “qualidade”. Os textos plagiados eram medíocres, inferiores aos textos dos melhores alunos da classe. O que denuncia o plágio, em geral, é a falta de contexto. Muitas vezes os alunos retiram trechos de um site sem se dar conta de que havia referências a outras partes da matéria, ou a subentendidos que só o leitor do original iria perceber. Por exemplo: eu pedia aos alunos que fizessem críticas de filmes. Às vezes, no texto, aparecia uma referência ao nome do personagem, com o sobrenome do ator entre parênteses. Digamos que, em Júlio César, o texto se refere a “Marco Antonio (Brando)”. Isso pressupõe que, na ficha técnica, esteja o nome completo do ator – Marlon Brando. Mas o aluno não copiava a ficha técnica, nem dizia em momento nenhum do texto que Marlon Brando estava no elenco. Aquele “Brando” entre parênteses ficava fora de contexto. Isso, quando o aluno já não escrevia simplesmente “Julius Caesar” ou “Marc Antony”, revelando ter copiado tudo de um site em inglês. Erros de tradução do inglês também são reveladores. Outros casos eram de plágio de sites portugueses: o aluno escrevia “fato” para dizer “terno” ou “paletó”, falava de “ecrã”, em vez de “tela”.


Qual o procedimento de checagem usado por você para identificar os plágios?


Escolhia duas ou três palavras características do texto do aluno e jogava no Google. Mas com certeza o mecanismo é falho. Há atualmente sistemas mais sofisticados. Fiquei sabendo de um site na Inglaterra que faz isso checando trabalhos de alunos nas universidades de lá, mas é preciso pagar pelo serviço.


Qual a maneira mais adequada de punir os alunos?

Ele deve tirar zero, e a reincidência merece pura e simples reprovação na disciplina. Mas a psicologia do plagiador merece respeito. Em parte, é um temperamento de jogador, que resolve arriscar uma aposta de tudo ou nada. É também o temperamento de um perfeccionista, do “falsificador” , como naquele filme do (Steven) Spielberg, Prenda-me se For Capaz. Creio que se trata de uma pessoa muito intolerante com os próprios erros, que não consegue se submeter à crítica de um professor, ou que talvez tenha uma imagem exagerada do professor, da tarefa que lhe foi pedida, e de si próprio. É como se, paradoxalmente, ele encarasse com excesso de seriedade aquilo que tem a fazer, e não conseguisse encarar a possibilidade de escrever um texto medíocre, com erros etc. Nesse sentido, confesso que tenho mais simpatia pelo plagiador do que pelo aluno que entrega uma porcaria escrita em dois minutos. Este último nem se importa em ganhar ou perder; o plagiador, de alguma forma, está querendo competir em esperteza comigo.

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