Por leitores cidadãos

Criadora de método que ensina a ler naturalmente fala de alfabetização, aponta despreparo dos professores universitários e diz que não sabe o que esperar do MEC

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Alceu Luís Castilho*

A pedagoga Gilda Rizzo está perplexa com a demissão de Cristovam Buarque do Ministério da Educação – e com o desempenho de alguém que tinha na erradicação do analfabetismo seu principal projeto. Criadora de um método construtivista chamado alfabetização natural, ela faz questão de não valorizar em demasia o papel dos governos não só no combate ao analfabetismo, mas na construção de um cidadão mais crítico. Para ela, seres humanos nascem predispostos à leitura, mas precisam de um ambiente propício para desenvolvê-la. Uma diferença básica em relação ao método de Paulo Freire está no fato de que ela não escolhe “aquelas palavras”, selecionadas por “intelectuais distantes”. Autora dos livros Alfabetização Natural (Bertrand, 284 págs., R$ 49) e Jogos Inteligentes (Bertrand, 441 págs., R$ 59), Gilda admite problemas de escala na aplicação de suas teorias. Pós-graduada em psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Gilda aponta vários problemas na aplicação de seu método – da desnutrição ao interesse econômico das editoras -, mas sempre volta a um deles: o despreparo dos professores universitários em relação à alfabetização.




Revista Educação – Qual a diferença entre a alfabetização natural e os outros métodos?

Gilda Rizzo –
É um processo de estimulação da construção da leitura que se dá a partir da linguagem, do potencial e das motivações naturais do aluno. Ele vale para todas as classes sociais e faixas de idade. Como usa a linguagem utilizada pelo aluno, está sempre adequado a qualquer classe e espaço geográfico ou social. Não importa se numa favela, numa clientela de classe alta ou numa aldeia indígena. O método se constrói em cima de uma vivência. O material lingüístico é produzido pelo próprio aluno e é a base de aprendizado da escrita. Tudo isso ocorre num espaço sempre democrático, onde o aluno não apenas participa da escolha do vocabulário, mas também da atividade. A principal diferença em relação a outros métodos é a não utilização de cartilha. Se o aluno é de favela ou de uma escola de samba, o vocabulário será aquele de uma favela ou escola de samba.


Qual a origem dessa metodologia?


Essa teoria é fruto de uma produção coletiva, criada a partir dos resultados de uma pesquisa sobre linguagem e vocabulário da criança brasileira feita sob a coordenação da professora Heloísa Marinho, do Instituto de Educação [no Rio de Janeiro (RJ)]. Na época, ela assessorava o professor Lourenço Filho, que era diretor do Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira] e o responsável pela pesquisa. Essa metodologia foi sendo criada ao longo de 20 anos, com muitos resultados não previstos. A Heloísa relutava em relação a criar métodos. Mas como o universo abrangia crianças de até 8 anos, as alunas, como eu, faziam essa pesquisa em classes de alfabetização e tínhamos conhecimento imenso em relação aos desvios de aprendizagem; era inevitável que fôssemos aplicando os resultados. Coube a mim organizar uma aprendizagem e a série de recursos que poderíamos aplicar a crianças que tivessem os problemas que a gente assistia. Quando o livro [Alfabetização Natural] foi publicado pela primeira vez, pela [Editora] Francisco Alves, a Heloísa gostou muito [a obra teve sete edições pela Francisco Alves e já está na terceira edição, pela Bertrand Brasil]. Eu o fiz com o objetivo de auxiliar as professoras. Era uma metodologia genuinamente brasileira e produto de vasta experiência.


Quais são os principais desvios de aprendizagem entre os alunos?


Especialmente aqueles ligados ao fato de se supervalorizar a letra isoladamente, em detrimento de se trabalhar com o significado. Leitura é a troca de significados entre o autor e o leitor, e não troca de letras e sinais. Essa supervalorização do sinal sonoro reduz a possibilidade de compreensão do que a palavra traz. Toda a própria estrutura da frase, a colocação do sujeito antes do verbo, tudo isso faz parte da compreensão do significado. E os métodos de cartilha, de bê-á-bá, ignoram solenemente tudo isso. Meu trabalho já começa com a leitura, com o significado, o aluno não vai descobrir numa segunda fase o valor das letras. Eu descobri que independentemente do método aplicado – fosse ele alfabético, silábico, fonético ou global – a criança já lia quando tinha um repertório de 35 palavras memorizadas.


Como se dá a variação de vocabulário pelo país?


Tenho índios no Amapá que falam em peixes, cavalos, jacarés. Na região de Ribeirão Preto (SP), [os alunos] falam de cavalo, de criação, vaca leiteira. No litoral, falam de surfe, onda, calor. É o mesmo método, muda a linguagem. O método é muito semelhante ao de Paulo Freire, que era amigo da Heloísa Marinho. Ele tirou o método da alfabetização natural e aplicou, mas determinou o vocabulário, inseriu itens como “dinheiro”, “patrão”, “salário”, em vez de trabalhar com a escolha livre. Ora, os alunos já trabalharam o dia inteiro, não querem saber disso. Em minhas turmas, eles nunca escolheram “salário”, “fome”, “patrão”. Eles querem momentos agradáveis, de inspiração, sonho.


Os defensores de Paulo Freire não diriam que isso é alienação?


Não, porque parte da cabeça deles [dos alunos]. Cada turma tem um vocabulário diferente. Eles querem esquecer, sonhar, e você tem de dar oportunidades a isso. Quando se referem a dinheiro, é algo que eles querem possuir. Quando falam de carros, eles são os donos dos carros que estão dirigindo.


Esse método pode ser aplicado em toda a rede de ensino?


É muito difícil a divulgação, porque depende essencialmente da formação do professor, que seja capaz de ensinar a ler sem depender da cartilha. E tem de ter autonomia pedagógica, que não se conquista facilmente. Não tenho pretensões totalitárias de que seja o único método. A escolha do método deve ser decidida com responsabilidade pelo professor, pelo diretor.


Por que a senhora diz que as editoras são um empecilho à divulgação de seu trabalho?


O método da alfabetização natural não precisa de cartilhas. É um trabalho difícil de se propagar. As editoras se assustam. Um dos produtos mais vendidos pelas editoras é a cartilha. As turmas de alfabetização são numerosas, tanto na escola pública como na particular. Depois é que acontece o famoso funil, quando as crianças vão repetindo, deixando a escola. E onde existe mercado potencialmente grande para adquirir [livros]? Na primeira série. Como meu método prescinde da cartilha, as editoras não se interessam. Mas essa reação já foi maior. Hoje as editoras já vêem que ganham vendendo literatura infantil. Há dez anos, achavam que era coisa utópica. A alfabetização natural produz um aluno com qualidade superior, consegue um leitor prazeroso.


A senhora diz que os professores “não querem aventuras”. Como o comportamento deles pode dificultar a implantação do seu método?


Isso não é culpa dos professores formados, é por não termos equipes de professores com mestrado e doutorado, sabendo como alfabetizar mesmo. O professor, como qualquer profissional, é resistente às grandes mudanças. Se, no Brasil, mais da metade foi alfabetizada pelo bê-á-bá, ele também vai alfabetizar assim. Há essa resistência, porque o ensino universitário é deficiente, a escola nem se fala. Às vezes, acho até que é o contrário. Os professores universitários dificilmente passaram pela experiência de ser professor, alfabetizador do nível básico. Não sabem responder a questões práticas. Nunca alfabetizaram um cego, um surdo, e assim por diante.


Como superar a rejeição e a ansiedade dos alunos?


O método tradicional não vai causar grandes prejuízos aos que têm acesso a uma cultura da família, a parentes que tenham o costume de ler. Mas isso mantém o ensino elitizado – o ambiente cultural acaba suprindo a necessidade do ensino tradicional. Agora, onde a criança pobre tem uma revista em casa? E essa escola que só trabalha com a cartilha não supre a necessidade desse aluno.


Mas a dificuldade maior no Brasil não seria exatamente formar esse professor que vai alfabetizar a criança pobre?


Os professores do ensino público não raras vezes têm competência maior que os de escola particular. Um dos motivos é que eles são submetidos a concurso público. Há escolas particulares que selecionam muito bem, mas o grosso das escolas não tem como selecionar. Então, elas põem qualquer professor. Nesse sentido, a escola pública não deixa nada a desejar. O que ela tem são turmas numerosas etc. Mas dependendo do diretor, ele coloca tudo funcionando.


Qual sua reação à demissão do ministro Cristovam Buarque?


Fiquei assustada, surpresa. Mais surpresa ainda quando anunciou que iria suspender o exame do Enem [Exame Nacional do Ensino Médio]. Por causa do Enem, foi a primeira vez em que vi reitores e diretores melhorarem a qualidade do ensino. Aí, o Cristovam ameaçou colocar aquele negócio [refere-se ao outro modelo de avaliação proposto] superburocrático, inviável, impossível de se realizar. E continuo perplexa. Não sei o que esperar do MEC.


Pelo seu método, é mais difícil formar o cidadão ou o educador?


Não entrego crianças à gente mal-amada, cheia de problemas – convenço-a a refletir e escolher outra profissão. Senão, ela vai ser impaciente, irritada. E quem cuida das crianças abandonadas? Geralmente adultos que foram abandonados e que, portanto, têm carências fundamentais. Ora, um choro de um bebê atinge 70 decibéis, produz irritabilidade. E a pessoa tem de estar preparada para isso.


Como motivar o aluno que vê seu irmão formado, mas desempregado?


Olha, o que tenho são adultos que querem aprender a ler, que estão motivados. E vejo que são aspirações grandes, não são pequenas. Eles dão verdadeiras aulas de otimismo. Não são tão perdidos como se possa pensar. Sabem que vai ser difícil. Estão alertas, querem crescer de alguma forma. E eles melhoram de vida. Agora, se a aspiração for muito elevada, poucos conseguirão. Isso é para todo mundo. Para alterar isso, não basta só mudar a política econômica, é preciso mudar a burocracia que leva à corrupção – essa burocracia que impede as pessoas de produzir, de abrir um negócio, vender seus produtos.




*Da Agência Repórter Social



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