Pontos de resistência

Mesmo isoladas, instituições conseguem realizar trabalhos que transformam as realidades locais

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A Escola de Aplicação Professor Chaves, pública e gratuita, é famosa na cidade de Nazaré da Mata (PE) e na região pela qualidade dos textos produzidos pelos seus alunos, que costumam sempre ganhar prêmios em concursos de redação. Essa fama ficou ainda maior quando saíram os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2009: um estudante de lá obteve o primeiro lugar geral em redação. "Com a nota final dele dava pra entrar em (uma faculdade pública de) medicina, mas ele preferiu entrar no curso de química na Federal de Pernambuco (UFPE)", orgulha-se a professora Maria Auxiliadora Leal Campos, vice-diretora da Faculdade de Educação da Universidade de Pernambuco (UPE) em Nazaré da Mata, à qual a escola é ligada. A taxa de aprovação dos alunos do 3º ano do ensino médio em instituições de ensino superior públicas também é alta: segundo a professora, de 70 alunos que prestaram vestibular no ano passado para cursos do tipo, 32 foram aprovados.

A excelência do ensino da Professor Chaves, localizada em uma cidade de pouco mais de 30 mil habitantes na Zona da Mata, a cerca de 70 quilômetros de Recife, é um reflexo do ambiente em que ela está inserida. Assim como outros Colégios de Aplicação no país, a escola tem um caráter de espaço de experiência para graduandos e pesquisadores de diversas áreas da universidade à qual pertence. Atualmente com 630 alunos, do ensino fundamental II ao ensino médio, a Professor Chaves foi fundada em 1995 com o objetivo de articular as aulas dos cursos de formação de professores do campus da UPE na cidade com a prática do dia a dia escolar, além de ser um local para experimentação didática e pedagógica. Hoje esse objetivo está sendo cumprido em parte. O curso de Letras, por exemplo, mantém uma oficina de linguagem que estimula os alunos na redação e na literatura. Mas, por outro lado, alunos de licenciaturas como física e matemática continuam distantes da sala de aula. "A escola de aplicação hoje tenta provocar um pouco a formação, mas teria de ser ao contrário", diz Maria Auxiliadora.

Mesmo assim, o Colégio de Aplicação é um espaço disputado pelos alunos – e pais de alunos – da cidade e da região. Para ingressar, é preciso passar por um teste de seleção, que envolve redação e questões de matemática. Essa redação é baseada em um tema que perpassará todo o ano letivo – já foi, por exemplo, meio ambiente e, em 2010, com o aniversário de 15 anos da escola, é "Eu faço parte da história". "Esse tema está presente desde a seleção até as atividades e eventos que programamos durante o ano letivo", diz a vice-diretora.


Isolamento e inovação


Ligada à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, a Escola de Aplicação da Feusp, nascida Escola de Demonstração, é uma das mais antigas do Brasil. Foi criada em 1959, quando pertencia ao Centro Regional de Pesquisas Educacionais Prof. Queiroz Filho, órgão do então Ministério da Educação e Cultura (MEC), e incorporada à USP em 1972. No ano seguinte, incorporou o nome da antiga Escola de Aplicação, antes ligada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL).  Desde o princípio, a escola foi pensada como um centro de formação de professores, especialmente para os estágios iniciais, e até hoje tenta manter a característica de campo para a prática didática, embora procure aproximação maior com outros cursos da USP para a intensificação da pesquisa em seu ambiente. "Estamos num esforço para diminuir o isolamento. Alguns institutos, como a Escola de Comunicações e Artes (ECA), têm participado com cursos extracurriculares. A universidade se aproveita muito pouco da escola, mas a escola, por outro lado, não sabe se posicionar", afirma a professora Daniela Lopes Scarpa, diretora da unidade desde setembro de 2009.

A Escola de Aplicação da Feusp conta, atualmente, com cerca de 750 alunos, do ensino fundamental ao médio, em turmas de até 30 alunos por sala. Metade dos cerca de 50 professores têm, pelo menos, o título de mestre e uma carga horária de 40 horas semanais, o que garante tempo para reuniões e atividades de formação. Entre os estudantes, a taxa de abandono é "baixíssima" e as vagas são disputadíssimas. A seleção é feita por sorteio, destinando um terço para filhos de funcionários e docentes da faculdade, um terço para funcionários e docentes da USP, e o terço restante para a comunidade em geral. "É uma característica interessante da escola, que gera um ambiente de diversidade, porque reúne desde alunos filhos de professores até crianças moradoras da favela San Remo (vizinha ao campus da USP)", diz Daniela.

De acordo com a diretora, esse ambiente recebe a cada ano cerca de 160 estagiários de graduação – não só da Feusp, mas também de outras áreas e mesmo outras universidades, como alunos de Artes do campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) na capital paulista. Por semestre, a escola recebe também em torno de 30 pesquisas, que vão de biométrica à administração escolar. Segundo Daniela, porém, os estudos ainda são, em sua maioria, muito básicos, e a preocupação, no momento, é reformular a escola para alcançar melhores resultados nos indicadores externos.

Por outro lado, algumas experiências realizadas dentro da escola podem fornecer subsídios a pesquisadores em temas que ainda não estão consolidados, como o ensino fundamental de nove anos. Adotado na Escola de Aplicação da Feusp antes de sua exigência legal, foi alvo de pesquisas que analisaram suas implicações e o processo de adaptação. A partir deste ano, a estrutura curricular também está sendo repensada: o tempo de aulas no ensino médio passou para uma hora e 40 minutos e da 6ª à 9ª série passou a ser de uma hora e 15 minutos. "É uma tentativa de aprofundar o conhecimento e já despertar o sentido de pesquisa e aplicação para os alunos do ensino médio", explica Daniela.


Abertura para a comunidade


Instalada em um bairro da periferia de Belém (PA), a Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará (UFPA) também passa por um período de abertura e reformulação. A escola, com 47 anos, atende hoje cerca de 1,9 mil alunos, do ensino infantil ao ensino médio, além da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Quando foi fundada, as vagas eram exclusivas para filhos de funcionários e professores da universidade, mas ao longo de sua história passou por um processo de abertura gradativo. Desde 2006, sorteia as vagas do ensino infantil e, para alunos ingressantes da 1ª série em diante, o processo seletivo é feito por um "vestibulinho". Para este ano, cerca de 500 crianças foram inscritas para o sorteio de uma das 90 vagas do infantil.

De acordo com a diretora-geral da Escola de Aplicação da UFPA, Lílian Simone Amorim Brito, a abertura total das vagas se refletiu, num primeiro momento, em um decréscimo no desempenho da escola nos indicadores externos – como o Ideb e o Enem. "Houve uma mudança grande na composição do alunado, muitos deles hoje têm origem mais carente. Mas, à medida que vão ficando mais tempo na escola, superam esse déficit", diz. Segundo ela, os alunos também estão demonstrando mais interesse em relação ao Enem – talvez pelas novas regras de acesso às universidades federais.

Com quadro atual de 173 professores, a escola funciona hoje como um campo de estágio principalmente para o curso de pedagogia e para as licenciaturas oferecidas pela UFPA. Aos poucos, porém, estão começando a ser implantadas parcerias com bacharelados – como o curso de Nutrição – e, desde 2008, está em funcionamento o Programa de Intervenção Metodológica. Para a diretora, a escola passa por um período de mudanças, que envolve maior aproximação com a pesquisa. "O professor tem hoje acesso a métodos mais diversificados e inovadores, trabalha muito com a experimentação. A escola de aplicação permite maior liberdade para desenvolver novas metodologias de ensino", afirma Lilian.

Segundo a diretora, são desenvolvidas lá dentro "ações brilhantes", prejudicadas pela falta de divulgação institucional. Na aula de física, uma professora conseguiu melhorar o aprendizado baseando-se no trânsito da cidade. Já uma professora de história utiliza música popular brasileira para o ensino da matéria. Na educação inclusiva, uma pesquisa envolveu a educação das crianças a partir de brinquedos feitos de miriti, uma planta típica da região amazônica.


Realidades distantes


Em Nazaré da Mata, a Escola de Aplicação Professor Chaves também procura trazer para as salas de aula um número maior de alunos oriundos das classes mais baixas da região. "Há algum tempo estamos estudando a possibilidade de dar uma cota das vagas para alunos da escola pública", diz a professora Maria Auxiliadora Campos. A cota começou a valer em 2009, com 20% para estudantes da rede pública, e neste ano foi ampliada para 50%. A escola também abriu uma turma inicial a mais na 5ª série. Segundo ela, as crianças mais carentes têm tido dificuldade de acompanhar a turma, por isso foram implantadas aulas de reforço no contraturno.

O período fora das aulas normais também tem se mostrado um momento de grande importância para a formação dos alunos da Professor Chaves. Duas tardes por semana os alunos permanecem na escola para atividades esportivas, aulas de reforço e trabalhos de pesquisa. De acordo com Maria Auxiliadora, além da oficina de linguagem em parceria com o curso de Letras da Universidade de Pernambuco, outro projeto voltado para a preparação dos alunos para avaliações e vestibulares está sendo implantado: as atividades interdisciplinares, que envolvem a participação de professores de história, geografia e biologia, por exemplo, em aulas conjuntas. Como parte de uma estrutura universitária, a escola também procura despertar nos estudantes o interesse pela pesquisa científica, dentro do projeto de incentivo à pesquisa aplicada. A cada ano, a ênfase muda: nos anos pares é na ciência, nos anos ímpares, é na arte e cultura.

Mesmo com perfil diferente da escola pernambucana, a Escola de Aplicação Básica da Feevale, situada em Novo Hamburgo (RS), também procura despertar nos estudantes o contato com a iniciação científica desde o ensino médio. De acordo com a diretora pedagógica da escola, Cecília Mônaco da Silva, os pesquisadores da universidade elaboram as propostas e os alunos do ensino médio selecionam os temas de interesse – no final do ano, as atividades são expostas na feira de iniciação científica. Isso faz com que o trânsito de conhecimento entre a graduação e o ensino médio seja fortalecido, inclusive levando as pesquisas ao conhecimento das famílias. "Toda proposta de pesquisa (a ser realizada com os alunos) é encaminhada à família, que permite ou não a participação do aluno. O trabalho dentro da escola é muito bem acompanhado pelos pais e pela instituição", afirma.

Entre essas pesquisas, algumas chamam atenção por envolver questões não necessariamente ligadas às práticas pedagógicas. De acordo com a diretora, pesquisas recentes incluíram um projeto de alunos de fisioterapia com crianças asmáticas e outro de investigação psicológica sobre os níveis de estresse dos docentes. Hoje a escola da Feevale também é a única do país, segundo Cecília, a trabalhar com sistema de ciclos no ensino médio, que permite trabalho integrado de professores e flexibilização do currículo. Além disso, a instituição mantém um Núcleo de Investigação e Intervenção Pedagógica (Niip), voltado para estudantes com dificuldade de aprendizagem. "Procuramos ter a compreensão do aprendizado como diferentes tempos", diz a diretora. A escola também tem um enfoque de pesquisas para a educação inclusiva. "A inclusão está prevista em lei, mas o que difere é a forma com que ela é feita. Temos um aluno com paralisia cerebral, por exemplo, que ficou muito bem colocado no Enem", conta.

A escola da Feevale, diferentemente daquelas ligadas a instituições públicas, é paga e atende principalmente alunos de classe média de Novo Hamburgo, inclusive com ensino médio profissionalizante. O aluno tem a opção de permanecer o dia todo no campus, e as aulas utilizam a infraestrutura da universidade, como piscina aquecida e laboratórios. A relação da escola com a universidade, de acordo com a diretora, é bem estabelecida e se dá em três frentes: campo de estágio para estudantes de pedagogia e licenciaturas, inclusive nãocurriculares; estágios curriculares e campo de pesquisas para acadêmicos de diversas graduações; e assessoria e pesquisa para coordenadores
de cursos.  
(Gabriel Jareta)

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