Ponto fora da curva

Prêmio Jovem Cientista 2010 mostra que exemplos de sucesso na iniciação à pesquisa no ensino médio se constroem por iniciativas pontuais, sem apoio efetivo das escolas

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As dificuldades para se locomover de casa ao trabalho fizeram, ironicamente, com que o jovem Ricardo da Silva Logrado Júnior obtivesse o maior feito de sua até aqui curta vida. Filho de funcionários públicos aposentados – os pais eram assistentes administrativos do Ministério do Desenvolvimento Agrário -, Ricardo acaba de conquistar o Prêmio Jovem Cientista 2010, categoria Ensino Médio.

Até o ano passado, o rapaz, então estudante do Centro de Ensino Médio 04 de Santa Maria, cidade-satélite de 120 mil habitantes a 30 km de Brasília, ia e voltava diariamente ao plano piloto da capital para trabalhar no Tribunal Superior do Trabalho (TST), onde fazia estágio. A atenção que dispensou aos fenômenos do entorno o levaram  a desenvolver um filtro capaz de absorver poluentes emitidos por ônibus urbanos, invenção que o fez conquistar o prêmio.

Sua experiência como usuário de transporte coletivo desencadeou o processo de desenvolvimento do filtro. "Sou usuário de ônibus e, durante as viagens, ficava impressionado com a quantidade de fumaça que eles lançam na atmosfera", conta o jovem de 18 anos, que despendia quase duas horas e meia diárias no transporte. Da ideia à execução do projeto foram quase dois anos de pesquisa em bibliotecas e na internet, contatos com pesquisadores de instituições como a Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade de São Paulo (USP) e testes realizados nos ônibus que transportam os funcionários do TST.

"Sempre que ficava sabendo de um especialista, entrava em contato para me informar sobre materiais e técnicas", diz o jovem. O fato de ele fazer estágio na área de transportes do TST também favoreceu o desenvolvimento do filtro. "Foi uma coincidência que ajudou no projeto. O pessoal do STJ me deu apoio. Tive ajuda com materiais e pude fazer os testes nos ônibus que transportam os funcionários." Além disso, tirou do próprio bolso cerca de R$ 300 para comprar material.

De conversa em conversa, de ajuda em ajuda, Ricardo conseguiu desenvolver o equipamento que lhe garantiu o primeiro lugar entre 1.925 jovens de ensino médio que concorreram ao Jovem Cientista. Além de assegurar o prêmio a um aluno esforçado, o equipamento pode, efetivamente, colaborar para solucionar um dos problemas que mais afetam a qualidade de vida nas grandes cidades: a poluição urbana.

De acordo com Ricardo, seu filtro é mais eficiente e mais barato do que os equipamentos semelhantes existentes no mercado. "Um filtro custa cerca de R$ 800 e consegue absorver 50% da fumaça emitida, o meu produto chega às lojas por R$ 60 e absorve cerca de 80%". A manutenção é outro diferencial, conta o estudante: enquanto os filtros convencionais precisam de limpeza uma vez por semana, o de Ricardo necessita passar pelo processo apenas uma vez a cada dois meses. Sem contar que parte dos poluentes absorvidos pelo filtro pode ser reaproveitada para a fabricação de pneus.

Ele conta que gostaria que seu filtro fosse produzido e utilizado em larga escala, mas ainda não decidiu se vai vender a ideia para uma empresa ou procurar outros meios para viabilizar sua produção. Depois da conquista, planeja estudar engenharia automotiva na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, estuda relações internacionais.


Empenho e iniciativa



A conquista de Ricardo, entretanto, traduz seu empenho pessoal. Quem afirma é a professora Vânia Lúcia Costa Alves Souza, que leciona geografia e o orientou na elaboração do relatório para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – órgão responsável pelo prêmio ao lado da Fundação Roberto Marinho e da Gerdau. Ricardo também contou com o apoio de seu professor de química, Rhannier Sodré. Ambos concordam que casos como o de Ricardo são exceção.

"Ele sempre se destacou por ser muito interessado e ter muita iniciativa", diz Vânia. Por isso, afirma Rhannier, conseguiu desenvolver seu projeto de maneira independente. "Se precisasse do laboratório da escola para realizar os testes, provavelmente não conseguiria", diz o professor. Isto porque, a exemplo do que ocorre em muitas escolas Brasil afora, o Centro de Ensino Médio 04 tem um laboratório de química, mas os docentes e alunos não têm reagentes para realizar experimentos. "A escola pública precisa, urgente, de recursos", completa Vânia.

Atualmente, Rhannier está desenvolvendo um trabalho com um grupo de alunos sobre chuva ácida em parceria com estudantes da UnB. "É um trabalho interessante, mas poucos alunos se interessam e as condições para execução são precárias."

Ou seja, se Ricardo dependesse da estrutura existente no ensino público brasileiro na área de ciências, o final da história provavelmente seria outro. Por isso, seu caso remete a uma questão: quantos estudantes poderiam estar no lugar de Ricardo – ou pelo menos participando de iniciativas como o Prêmio Jovem Cientista -, se as condições para o ensino de ciências fossem (significativamente) melhores?


Estrutura precária



Alguns números ajudam a dimensionar o problema, que envolve dois dos pilares da aprendizagem: infraestrutura e docentes qualificados. A infraestrutura deixa a desejar: de acordo com o Censo Escolar de 2009, pouco mais de metade dos alunos do ensino médio (56,1%) estudam em escolas com laboratório de ciência. 

Já os problemas da qualificação docente são bastante conhecidos; estimativa realizada em 2008 pelo Ministério da Educação calculava em 240 mil o déficit de docentes, principalmente nas disciplinas de exatas e biológicas.

Para Silvia Martins, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), esse quadro evidencia que, na Educação Básica, o estudo de ciências é relegado a um plano secundário. "Há cada vez menos escolas realizando e participando de feiras de ciências, há falta de laboratórios e onde eles existem são subutilizados, com pouco incentivo para a carreira docente, especialmente nessa área", analisa Silvia, que também é coordenadora do Museu Diversão com Ciência e Arte da UFU.

"Não existe um incentivo estrutural para a escola se envolver com ciências", acrescenta. Evidência disso é o fato de que, no âmbito da Secretaria de Educação Básica (SEB) do Ministério da Educação, não existem iniciativas específicas para fortalecer o ensino de ciências nas escolas, de acordo com a assessoria de imprensa.

Este cenário, complementa a professora da UFU, gera desestímulo nos alunos e professores e, com isso, muitos jovens perdem a oportunidade de desenvolver suas habilidades no campo das ciências. "Não há como aprender ciência só na teoria." 


Formando cientistas



A modificação desse cenário depende de uma mudança de mentalidade e do fortalecimento de iniciativas já existentes, como o prêmio Jovem Cientista e os programas de iniciação científica do CNPq destinados a alunos do ensino médio. "São luzes no final do túnel", diz Silvia. Mas sem a melhoria da qualificação dos docentes e de suas condições de trabalho, todo o esforço corre o risco de ser em vão. "Hoje, são raros os professores que têm conhecimento e paixão pelo que fazem."

Ainda que a formação docente deixe a desejar, a vice-presidente do CNPq, Wrana Panizzi, defende que o fortalecimento das ações de estímulo à produção de ciência na Educação Básica em curso pode impactar positivamente nesse cenário.

Hoje, o CNPq mantém duas iniciativas nessa área: o programa de Iniciação Científica Júnior (criado em 2005 e desenvolvido em parceria com as fundações estaduais de amparo à pesquisa) e o programa de Iniciação Científica no Ensino Médio (Pibic – EM).

O Pibic – EM é novo. Foi lançado em junho de 2010 e propõe um modelo que, na opinião de Wrana, pode fortalecer a produção de ciências nas escolas. "O programa tem o objetivo de envolver instituições de ensino superior no desenvolvimento de projetos de educação científica em escolas públicas", explica.

Para participar, as instituições selecionadas têm de criar um programa de educação científica e tecnológica com os alunos em parceria com escolas de nível médio. As universidades serão responsáveis pelas cotas de bolsas a serem distribuídas a alunos das escolas.

O primeiro edital do Pibic – EM prevê 8 mil bolsas, que se somam a outras 4 mil do programa de Iniciação Científica Júnior. Quantidade muito pequena em relação ao  número de matrículas nas escolas públicas de ensino médio: 7,3 milhões. "Estamos avançando, mas é preciso ampliar muito o número de bolsas", admite a vice-presidente do CNPq.

Para isso, seria necessário investir mais dinheiro não somente em bolsas, mas também em programas de estímulo ao professor.


Iniciativa privada



O envolvimento de entidades ligadas ao setor privado em ações no campo da educação científica é outra via que pode colaborar para fortalecer essa área. O prêmio Jovem Cientista é um exemplo de como isso pode ser feito: a Fundação Roberto Marinho e a Gerdau, responsáveis pela divulgação do prêmio no nível do ensino médio, realizaram em 2010 um trabalho intenso de difusão, que colaborou para a duplicação do número de inscrições na categoria ensino médio.

Segundo Marcia Pinto, coordenadora de projetos da Fundação Roberto Marinho, foram produzidos e distribuídos  3 mil exemplares de uma publicação sobre o tema do prêmio em 2010 –
Energia e Meio Ambiente: Soluções para o Futuro

. Destinado a professores, o material contém subsídios e orientações sobre como desenvolver projetos nessa área e, dessa forma, incentiva a participação no prêmio.

A professora da Federal de Uberlândia, Silvia Martins, vê esse tipo de iniciativa como positiva, embora considere que sem o fortalecimento das ações do poder público na educação não se promoverá a educação científica em larga escala.

Ou seja, sem uma mudança de mentalidade e ações efetivas no campo da educação científica, o Brasil continuará a ocupar as piores posições entre os países que participam de avaliações internacionais como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Assim, boas ideias como o filtro desenvolvido por Ricardo continuarão a ser apenas boas ideias.


* A jornalista Marta Avancini viajou a Brasília a convite da organização do Prêmio Jovem Cientista



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