Polêmicas (e problemas) em torno do ensino de história

Aqui (no Brasil) e lá fora o debate não trata do essencial: o estímulo à visão crítica e autônoma do estudante.

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Nos últimos anos têm sido recorrentes (e crescentes) as críticas aos conteúdos dos materiais pedagógicos e aos propósitos do ensino de história no Brasil.

Divergindo, especialmente, do que chamam de “ideologização” dos livros didáticos, grandes veículos de imprensa – e alguns formadores de opinião – consideram que os estudantes brasileiros têm recebido um ensino mais dedicado ao dogmatismo de esquerda do que à reflexão autônoma.


Distante de ser um problema apenas nacional, debates realizados em outros países mostram que o ensino de história é tema de intensa disputa, fundamentalmente relacionada com a construção e reprodução da identidade nacional.


Em meados da década de 1990, um grupo plural de historiadores e pedagogos, atendendo a preocupações expressas no relatório “A Nation At Risk” produzido pelo governo Reagan e propostas do projeto “America 2000”, mobilizado por Bill Clinton, elaborou um amplo conjunto de normas para o ensino da história nos Estados Unidos da América.

O documento, intitulado “National Standards for History”, abrangia tópicos de história geral e dos EUA e objetivava ser mais um cardápio de sugestões aos governos estaduais (principais gestores e responsáveis pela educação básica naquele país) do que um conjunto de regras sobre “o que” e “como” ensinar história em sala de aula.


Pouco tempo após ser lançado, o que era para ser uma livre contribuição ao ensino, virou o foco de uma verdadeira querela nacional. Embora sugerisse conteúdos, o principal foco dos “standards” eram diretrizes curriculares nacionais, essencialmente dedicadas a corrigir a conhecida e vergonhosa ignorância estadunidense sobre tudo aquilo que foge de suas fronteiras. No entanto, rapidamente, o documento foi criticado por seus “conteúdos liberais”, sendo considerado uma “iniciativa nefasta para insuflar o relativismo cultural e colocar em perigo a civilização ocidental branca e cristã e, conseqüentemente, a civilização americana”, nas palavras de Newt Gingrich, líder republicano na Câmara dos Representantes na época. (Para saber mais sobre o ensino de história nos EUA veja o seguinte post: http://bit.ly/pddrNf)


Pelo outro lado da mesma moeda, no fim dos anos 1980, a então primeira-ministra (e dama de ferro) do Reino Unido, Margaret Thatcher, empreendeu (sem muito sucesso) uma ampla reforma no ensino de história na Inglaterra, tornando-o mais conservador (ou orgulhoso das conquistas do Império Britânico) e essencialmente controlado, haja vista o alto (e bom) grau de autonomia de que gozavam – e ainda gozam, em comparação com o contexto internacional – os professores das escolas inglesas.


Sem ganhar o mesmo nível de notoriedade alcançado nos EUA e na Inglaterra, o debate em torno do ensino de história no Brasil possui o mesmo equívoco fundador verificado nos conflitos desencadeados por lá: há uma grave incompreensão sobre seu intuito.


A missão do ensino de história é estimular a autonomia intelectual e o pensamento crítico do estudante. Entre outras contribuições, ele deve tornar excitante a leitura do mundo. Basicamente, é no exercício de ler o passado que são determinadas as referências que permitem a compreensão do presente e a projeção do futuro.


Erroneamente, ao invés de verificar o quanto dessa missão vem sendo cumprida nas salas de aula, a crítica ao ensino de história tem estado preocupada demais com a suposta deformação da identidade e do caráter nacional.


Encarando os livros didáticos apenas como bíblias de esquerdismo, os críticos do ensino de história deixam de fazer a crítica correta: os materiais pedagógicos hoje utilizados nas escolas brasileiras pouco se comunicam com a pesquisa historiográfica de boa qualidade, especialmente aquela que vem sendo produzida por excelentes (e muitas vezes jovens) pesquisadores brasileiros.


É o abismo entre o livro trabalhado na sala de aula e as pesquisas feitas nas boas universidades o principal responsável pela reprodução de alguns grandes erros historiográficos.


Um caso clássico de desatualização é a Guerra do Paraguai. Inúmeros trabalhos mostram que nem o Paraguai era um oásis produtivo que colocaria em risco o domínio britânico no Cone Sul – que estava muito mais incomodado com a crescente e expansionista força da Coroa Brasileira de Dom Pedro II -, tampouco Francisco Solano López, seu presidente vitalício, era um visionário republicano. Contudo, nas décadas de 1980 e no começo da década de 1990 foi assim que eu aprendi no ensino fundamental. E é assim que muitos jovens continuam aprendendo hoje nas escolas brasileiras.


Com o (sempre estimulante) objetivo de desmistificar os conteúdos aprendidos nos livros de história, a editora Leya publicou o “Guia politicamente incorreto da história do Brasil” e o “Guia politicamente incorreto da América Latina”.


Sem ter a pretensão de ser um exaustivo e metodológico estudo, os dois livros – assumidamente provocativos – acertam em sistematizar, em linguagem acessível, algumas das mais atuais pesquisas historiográficas sobre o Brasil e a região, desconstruindo heróis e tradições explicativas, primordialmente aquelas caracterizadas por um marxismo simplista, que em nada orgulharia o rigoroso Karl Marx. Contudo, os autores, sem qualquer cuidado prévio, cometem os mesmos erros daqueles que eles próprios criticam: “ideologizam” suas conclusões.


A mais gritante ideologização, exposta na quarta capa do livro dedicado à América Latina, faz alusão simplista à (falível, mas relevante) obra de Eduardo Galeano “As veias abertas da América Latina”. Segundo os autores, o leitor não encontrará naquele guia “destaque para as veias abertas do continente, mas para feridas devidamente tratadas e curadas com a ajuda de grandes potências”.


Li ambos os guias com atenção, gostei de algumas passagens, não gostei de outras. Por estratégia argumentativa, com insistente ironia, os autores exageram “na tinta”… Contudo, não encontrei nenhum argumento ou fato histórico que provasse a boa ação das grandes potências em socorrer ou apoiar qualquer país de “Nuestra América”.

O jogo internacional é o reino da disputa de interesses, mais dado à competição e à solidariedade condicionada (ou interessada) do que à cooperação. E esse é um conceito importante para o ensino de história, sob o risco do Brasil formar, inclusive, péssimos diplomatas e estadistas, além de cidadãos alienados da realidade internacional.


De qualquer modo, é curioso o equívoco reinante na interpretação do ensino de história. Mais curiosa ainda é exacerbação (aqui e no exterior) de seu papel no processo de construção da identidade nacional. Ao invés de se preocupar em ver se os alunos estão obtendo uma educação capaz de estimular sua autonomia e capacidade crítica, os críticos se preocupam em reduzir o ensino de história a uma narrativa fechada, destinada a moldar a identidades e as consciências dos cidadãos em relação à nação.


O mais engraçado é perceber que há veículos de comunicação que depositam no ensino de história um papel mais relevante do que aquele desempenhado pela própria mídia na construção da identidade nacional. Seria até interessante que a educação fosse mais influente nesse aspecto, no entanto, ela não é. E ela não é nem aqui, nem nos EUA e nem na Inglaterra e, com certeza, em nenhum lugar do mundo.


O bom ensino de história deve estimular o aluno a observar as conexões entre os fatos e os fenômenos históricos. Deve incentivar a compreensão das ações coletivas, reconhecer as instituições, relativizar o prócer e submetê-lo ao contexto social e político da sua época.

Sobre a construção da identidade nacional, é claro que o ensino de história tem um papel a ser desempenhado, mas que seja o de mostrar de modo crítico as expressões culturais e a trajetória de um povo em sua pluralidade e contradições. Não pode ser o de tentar estabelecer a supremacia de uma nação sobre a outra. Até porque o nacionalismo irrefletido, na prática, é avesso e diametralmente oposto aos próprios princípios basilares do ensino de história: o estímulo à visão crítica e autônoma do estudante.

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