Poder de influência

Professor interfere na escolha profissional do aluno,
o que gera discussões em torno da responsabilidade e formação que o educador tem para assumir esse papel

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Na trilha do mestre: paixão pelas aulas de matemática do professor Enzo Takara (próx. à lousa) levou Carlos Eduardo a seguir a profissão


Quando chegam ao fim do ensino médio, os alunos, especialmente da escola privada, se sentem impelidos a escolher um curso de graduação e, por conseqüência, um rumo profissional. Segundo especialistas, essa fase desperta grande insegurança nos estudantes, mesmo naqueles que há algum tempo se dizem convictos da carreira a seguir. Desse processo, escola e professor podem fazer partelhes provendo informações e, até mesmo, assessoria psicológica. Além disso, no contato diário com alunos, os professores se tornam fonte de experiência e opiniões a respeito de cursos, instituições de ensino e carreiras. E essa opinião, em muitos casos, tem grande poder de persuasão em função da confiança que o aluno deposita na palavra do professor.




É o que faz crer a recente pesquisa
Retratos da Juventude Brasileira – Análises de uma Pesquisa Nacional

, coordenada pelo Instituto Cidadania, que ouviu 3.501 pessoas, entre 16 e 24 anos, para montar o perfil do jovem brasileiro. Perguntados em que instituições e/ou pessoas mais confiam, 92% dos alunos do ensino médio, de 198 municípios, citaram seus professores. O dado impressiona porque isso faz do professor uma referência, alguém com alcance suficiente para fazê-lo refletir, rever seus conceitos ou até influenciar decisões.




Nas escolas, os profissionais se dizem conhecedores desse poder, dessa responsabilidade dos docentes. “O professor influencia em todos os aspectos: político, sócio e comportamentalmente e até na escolha da carreira. Por mais neutros que queiram ser, eles influenciam porque são pessoas com opinião formada. Não há como evitar”, acredita Alberto Francisco do Nascimento, coordenador de vestibular do curso preparatório Anglo.




Para que os alunos não se limitem às opiniões informais que um professor pode vir a dar em sala de aula, cada vez mais escolas do ensino médio brasileiras se preocupam em estruturar um atendimento de orientação profissional para os estudantes. Entre as escolas privadas bem conceituadas, é difícil encontrar uma que não esteja envolvida com algum projeto que pretenda mostrar aos alunos as carreiras existentes e fazê-los pensar sobre futuro. Na rede pública, embora sejam poucas ainda as escolas que elaboram projetos para que o aluno pense em faculdade, há iniciativas isoladas bem-sucedidas que buscam fazer essa orientação.




Nesta reportagem, especialistas discutem em que medida o professor é capaz de influenciar seus alunos na hora de escolher um curso de graduação e o futuro profissional de modo geral. Alunos contam sobre a influência, positiva ou não, que tiveram de seus professores. Escolas apresentam projetos de orientação profissional. E todos sugerem o que cabe ou não ao professor fazer em sala de aula.




Para o bem, para o mal




Enzo Takara é professor há 23 anos. Ensina matemática, a disciplina campeã na lista das mais odiadas pelos alunos. Uma visita ao Orkut (comunidade de relacionamentos pela internet) mostra que o professor coleciona números dignos de garoto mais popular da escola. São 1.250 amigos, sendo 410 deles seus “fãs” virtuais declarados – a grande maioria deles alunos e ex-alunos do colégio e do cursinho.




Na sala de aula, Takara conta aos estudantes que há 12 anos, mais de uma década depois de ter começado a ensinar, ele decidiu cursar direito. Não fez cursinho, mas fez vestibular, lado a lado com seus alunos. “Sofri como eles e senti o drama e o nervosismo que bate mesmo”, lembra.




Desde então, os alunos o procuram na sala de aula para saber detalhes sobre essa experiência de prestar vestibular e, ainda mais, sobre o fato de gostar de temas tão diferentes, como direito e matemática. “Sempre gostei de estudar e matérias de humanas também me

atraíam. Os alunos se identificam com essa mistura de gostos”, diz Takara. Ele concluiu o curso, mas não seguiu a carreira de advogado por falta de tempo de conciliar as profissões. E, para ele, escolher entre o magistério e o direito é fácil. “Sou apaixonado pelo que faço. Tenho muito prazer em dar aulas”, revela.




O perfil e a trajetória de Enzo fazem dele uma espécie de conselheiro entre os alunos, admirado pelo domínio do tema e pela paixão com que trabalha. Entre os assuntos sobre os quais os alunos perguntam, nos intervalos das aulas, se destaca a escolha profissional. “O que sempre falo é que tenham como parâmetro o que gostam e não aquilo que dá dinheiro. Eles ficam na dúvida porque tem tantos cursos de graduação novos, que eles nem sabem se existe mercado para isso tudo”, conta o professor, que também é consultado sobre áreas do conhecimento que não domina. “Perguntam coisas como o campo de trabalho do fonoaudiólogo”, diz.




Takara acredita que uma opinião qualquer que dê em sala de aula pode influenciar a tomada de decisões de muitos dos alunos. “Ser professor é uma grande responsabilidade porque os alunos nos ouvem e nos têm como referência.” Apesar da cautela, quando se fala em nomes de instituições onde cursar a graduação, ele não hesita: “Eu incentivo claramente que façam faculdades públicas. Digo para calcularem o investimento com anos de mensalidades e checar quanto tempo será necessário para cobrir esse valor. Se fosse pra entrar numa faculdade barata, não precisava estudar num colégio particular de ponta”, diz.




No meio dos milhares de alunos que já ouviram as recomendações dele, estava Carlos Eduardo Yamazaki. Nele, os conselhos de Takara ecoaram. Em 1996, no ensino médio, teve aulas com o professor, durante as quais a admiração surgiu. “Via que ele dominava bem o assunto e, mais que isso, gostava muito de ensinar”, lembra Carlos. No estudante, em fase de escolha da carreira, havia desabrochado a vontade de dar aulas, tal qual o professor. “Disse ao Enzo que estava interessado em dar aulas e perguntei qual curso deveria fazer e em qual instituição. Depois de uma conversa, ele falou para eu procurar saber mais sobre física e matemática e disse para entrar numa escola pública”, recorda Carlos.




O estudante avaliou bem e decidiu seguir o conselho. Hoje, depois de ter se graduado na Universidade de São Paulo, Carlos se tornou professor de matemática. “A minha escolha tem muito a ver com meu contato com o Enzo. Ele sempre me apoiou, achou legal e orientou”, conta.




Hoje, como professor de cursinho, Carlos é consultado pelos alunos sobre o tema. “Perguntam onde estudei, o que dá para fazer com isso e até quem não gosta de matemática me pergunta sobre outras carreiras”, ressalta. Se ele não sabe responder às perguntas, em vez de indicar que procure outro professor, ele faz uma pesquisa para orientar o aluno. “Faço questão de dar atenção porque sei que o aluno não faz uma pergunta pessoal como essa para um professor de quem ele não gosta”, avalia o ainda jovem educador, que tem cerca de 500 alunos.



Tiro pela culatra





Diferentemente de Carlos, que encontrou no exemplo e na orientação do professor um caminho para descobrir seu interesse profissional, outros alunos acabam errando a escolha por conta da influência de professores. É o caso de Mariane de Toledo Lima. Ela saiu do colegial achando que estudaria medicina. Para tomar essa decisão, se serviu do fato de o pai ser clínico-geral. “Eu não sabia o que escolher, estava chegando a hora do vestibular e pensei: ‘como meu pai é médico, vou fazer medicina, porque assim vai ser mais fácil de me colocar no mercado'”, lembra.




Depois de um ano de cursinho e o pai pedindo para que ela repensasse a escolha, Mariane prestou vestibular e não passou. Recomeçou o cursinho disposta a encontrar outra carreira que a agradasse, possivelmente ligada à área de exatas, de que gostava. No curso preparatório, teve aulas com um professor que era engenheiro químico e que, durante as aulas, quando dava tempo, falava de processos químicos. “Talvez ele não quisesse puxar o peixe para o lado dele, mas como eu estava inclinada para exatas, fui trocar idéias com ele. Ele falava coisas interessantes sobre a engenharia química, sobre o mercado, a atuação e as dificuldades. Os comentários dele influenciaram minha decisão”, avalia Mariane, que na época já estava em dúvida entre as engenharias química e mecânica.




Ela decidiu prestar vestibular para engenharia química e passou. Em poucos meses de curso, estava totalmente desestimulada: “A faculdade não me empolgou, mas eu não queria prestar vestibular de novo.”




Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em que estuda, existe um projeto chamado Provar, que realoca alunos em outros cursos quando existem vagas ociosas. Por meio do sistema, Mariane mudou, já há dois anos, para engenharia mecânica e encontrou a satisfação. “Não acho que tenha sido malícia do professor do cursinho, mas se ele fizesse a mesma abordagem que fazia da química, eu teria escolhido a mecânica, sem dúvida”, compara.




Opinião e informação



 




Professor não é um orientador profissional. Orientadores profissionais são normalmente psicólogos ou pedagogos que se especializam na função de levar o aluno a refletir sobre a carreira, o futuro, o projeto de vida. Os especialistas se dividem na análise daquilo que seria o papel do professor na sala de aula, quando o assunto é escolha da carreira.




Alguns defendem que o docente não tem obrigação alguma de exercer a função de orientador, muito embora digam que a escola, essa sim, deva prever espaço para a discussão. “O professor não tem papel de conselheiro e não é orientador profissional. Ele já está fazendo um excelente trabalho quando consegue transmitir o conhecimento da sua disciplina de modo que aquela matéria abra possibilidades de escolha entre as carreiras”, diz Silvio Bock, pedagogo e diretor do Nace – Orientação Vocacional e Redação.




Quando o aluno percebe ter facilidade para lidar com alguma matéria, muitas vezes utiliza essa informação para nortear a escolha da carreira. Com base nisso, muitas vezes erra. Foi o caso de Marina González Valeton. Ela passou no vestibular para o curso de física logo que saiu do ensino médio. “Escolhi a carreira como quem escolhe entre as matérias do colégio. Tanto porque eu me saía bem quanto porque eu gostava do assunto”, analisa.




Duas semanas de curso depois, ela não agüentava mais as aulas: “Não suportava ouvir falar em trigonometria. Comecei a não entender nada. E percebi que não tinha um projeto de vida com física.” Para Bock, o caso de Marina, que é muito comum, mostra que a disciplina escolar é um indicador pouco preciso: “Funciona só por descarte daquilo que não se quer.”




Diferentemente de Bock, há quem acredite que o professor deve ser capaz de extrapolar o conteúdo curricular de sua disciplina e saber vinculá-la ao futuro, às profissões e à vida. “O professor deve associar as disciplinas à vida dos jovens, como também prover informações sobre campo de atuação profissional”, diz Albertina Mitjáns Martinez, doutora em ciências psicológicas pela Universidade de Havana e professora da Universidade de Brasília.




Segundo Albertina, é saudável que o professor ajude o aluno a levantar seus interesses e que fale sobre sua experiência de vida. Ela recomenda: “O importante é que ele nunca diga o que o aluno tem que fazer, mas que fale sobre as muitas possibilidades.”



Testes e vocação





Alguns anos atrás, a orientação feita com o aluno interessado em graduação estava associada à aplicação de testes vocacionais. Segundo especialistas, a literatura científica mais recente sobre o tema considera os testes ultrapassados. “Os testes partem do pressuposto que exista uma essência nublada que deve ser descoberta. Hoje se fala em estabelecer um projeto para modificar e adequar a sua vida de acordo com essa meta”, explica Bock. O pedagogo exemplifica. Um aluno que esteja interessado em arquitetura, mas que não saiba desenhar, ao fazer um teste vocacional verá essa carreira descartada, já que desenhar é requisito básico do curso e da profissão. “Na orientação profissional, vamos dizer: ‘Quer ser arquiteto? Ótimo, então você tem algo a mais que você precisa desenvolver”, diz o pedagogo.




No lugar dos testes, orientadores profissionais recomendam hoje as conversas que motivem os alunos a buscar saber do que gostam e um cenário profissional em que se imaginam inseridos. “A personalidade deve ser compatível não apenas com o curso de graduação, mas com ambientes de trabalho relacionados a eles. Todo professor pode instigar o aluno a pensar nisso”, diz Maria Ana Marabita, professora do Departamento de Educação da Unicamp.



Para a vida toda





A reportagem ouviu nove estudiosos da orientação profissional, entre pedagogos, psicólogos e sociólogos. Todos eles insistem em dizer que ainda hoje o aluno vê a escolha da carreira como uma decisão para a vida toda. O trabalho para desconstruir esse mito ajuda a aliviar o peso da escolha. “É uma escolha encarada como matrimônio, com esse peso de caminho para a vida toda. Mas a gente sabe que é possível se separar. Mudar o rumo é natural”, afirma Albertina.




“No jovem, existe muito forte a idéia de que ele não pode errar porque não pode perder tempo”, avalia Luciana Albanese Valore, doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP e professora da UFPR. Não é perda de tempo, dizem os especialistas. Segundo eles, os professores não devem temer em dizer aos alunos que é melhor não fazer faculdade antes de escolher, com calma, algo que agrade. “Diga ao aluno para explorar possibilidades antes da escolha do curso superior. Se for possível, faça uma viagem, um trabalho voluntário, escolha cursos avulsos, enfim, busque coisas que possam despertar o surgimento de novos interesses. Só não diga para ficar parado sem fazer nada”, explica Albertina.




O aluno deve ver a escolha da graduação como um ponto de partida, não de chegada. “Se o aluno conversar com profissionais de qualquer área, verá que poucos fazem hoje o que pensaram que fariam, tempos atrás. A vida é uma sucessão de escolhas muito dinâmica”, alerta Bock.




E põe dinâmica nisso. Marina, a estudante que abandonou física na segunda semana de curso, que o diga. Depois de ter largado a faculdade, começou a vender bordados de crochê, voltou a tocar numa banda de amigos, fez cursinho, prestou vestibular, começou o curso de ciências sociais, engravidou, perdeu o bebê, fez uma matéria optativa de psicanálise social, largou a faculdade, arranjou um emprego, fez cursinho até que, finalmente, se encontrou. “Passei em nono lugar em psicologia e hoje estou no terceiro ano, feliz e com projeto de vida em mente”, diz a jovem de 26 anos. “Tenho certeza de que só comecei a pensar no futuro mesmo há uns cinco anos e não acho tarde, acho que veio na hora certa.”




Luciana aprovaria a experiência de Marina. A professora acredita que exigir que o aluno saiba do que gosta aos 17 anos é acelerar os processos da vida: “Não que falte maturidade para esse aluno, mas porque, para escolher, ele antes tem que se dedicar a experimentar.”



Face da exclusão





Se para o aluno da escola particular, fim de ensino médio é sinônimo de começo de faculdade, nas escolas públicas brasileiras esse cenário é ainda um sonho. Por um lado, isso ocorre porque a renda familiar baixa do aluno da rede pública não o deixa planejar a ida a uma faculdade particular. Por outro, porque a concorrência nas universidades públicas faz com que muitos alunos não se animem sequer a tentar uma vaga.




O Programa Universidade para Todos (Prouni), do governo federal, vem estimulando uma mudança gradual nesse panorama. O projeto, que subsidia cursos de graduação em instituições de ensino superior privadas a alunos de baixa renda, dispõe hoje de 200 mil vagas. A proposta motiva alunos da rede pública a buscar uma chance na graduação e impulsiona escolas a apostar na orientação sobre carreiras e futuro aos alunos.




São iniciativas dos próprios professores e coordenadores, e não fazem parte da orientação da rede pública. Não existe, em nível federal ou estadual, legislação alguma em vigor que crie momentos para a orientação profissional nas escolas públicas. Essa atividade acontece, muitas vezes, por meio de parcerias que as escolas voluntariamente buscam com associações de classe, pais de alunos ou universidades.



Orientação





Na UFPR foi criado o projeto
Cresça e Apareça

, para orientar alunos do ensino médio de escolas públicas. Hoje no quinto ano de atividades, o projeto já atendeu cerca de mil alunos, de 20 escolas.




As conversas, em grupo, têm como tema a perspectiva de futuro: os interesses próprios, os ídolos, os ideais, o mundo com que sonham, o que querem para si. “Quando comecei o trabalho, via que o aluno de escola pública se sentia muito à margem do vestibular. Agora cada vez mais ele deseja entrar na faculdade. Mas ainda fica amedrontado só de pensar em entrar no prédio da universidade. Para ele, ainda é uma instituição encastelada”, diz Luciana Albanese Valore, da UFPR.




Em Belo Horizonte, uma escola experimental de ensino médio tem um trabalho de orientação já há uma década. Na Escola Estadual Maurício Murgel, os professores e a coordenação organizam a ida de pedreiros, administradores, médicos ou qualquer outro profissional para dar palestras aos jovens. São voluntários, na maioria das vezes pais de alunos ou moradores da comunidade. A cada ano, são agendados pelo menos seis encontros com profissionais. “Aqui na escola, 50% dos alunos pleiteiam a universidade. O nosso objetivo é que eles estejam preparados não só para a faculdade, mas que tenham parâmetros da importância da honestidade, da dignidade, da pontualidade no trabalho. Não formamos só doutores, mas cidadãos. É uma política da escola ensinar isso”, diz Sônia Marina de Amaral de Resende, diretora da escola.




No ano passado, a escola, que tem cerca de 500 alunos no terceiro ano do ensino médio, homenageou os ex-alunos que entraram na faculdade. Penduraram uma faixa de alguns metros quadrados na porta da escola, com o nome do aluno, o curso escolhido e a faculdade em que entrou. “Colocamos 59 alunos nas faculdades públicas e particulares”, conta Sônia.



Auto-exclusão





Na Escola Estadual Pastor Cícero Canuto de Lima, em São Paulo, o interesse dos alunos pela faculdade não é tão marcante quanto na escola mineira. “É uma minoria que pergunta sobre os cursos. Respondemos o que necessitam, mostramos as revistas de vestibular e fazemos um bate-papo informal”, diz Rosa de Lima, diretora. A escola, localizada no bairro de Jardim Ângela, tem um público cuja renda familiar média fica em torno de três salários mínimos. “Eles não têm dinheiro para pagar uma faculdade particular”, diz.




A diretora diz que a escola já pensou em estruturar um projeto, mas não conseguiu levá-lo adiante. “Precisaríamos de uma parceria com um psicólogo e alguém de recursos humanos para essa orientação, porque o professor não tem base teórica para isso. Mas parece que nada disso adianta muito porque o aluno mesmo acha que tem poucas chances de fazer faculdade. Por ser comunidade carente, eles não têm perspectiva de futuro. Só têm o agora”, diz Rosa.




A socióloga Dulce Whitaker, da Unesp de Araraquara, diz que, embora os alunos de escola pública tenham acesso a informações e aos cursinhos comunitários, é comum encontrar a situação que ela chama de “desalento”. “É um esmorecimento que ocorre quando o aluno passa a achar que falta muito para ele chegar à universidade. Ele fica sem coragem de prestar o vestibular para a universidade e desiste”, diz Dulce.




O pedagogo Silvio Bock diz que também em escolas particulares de classe média baixa é comum encontrar essa perspectiva limitada de futuro. “Nas escolas que visitei, vi que eles automaticamente se excluem das melhores faculdades e das públicas. Não só eles se excluem, como os professores também, mesmo que inconscientemente, acham que os estudantes não têm condições competitivas”, lamenta.



Exclusão social





Para a população de baixa renda, a graduação é encarada como uma via de ascensão social e de melhoria das condições econômicas. “O vestibular engana o aluno de escola pública porque existe um discurso neoliberal que diz que a única forma de subir na vida é cumprindo os degraus escolares”, diz Bock. Segundo o pedagogo, depois de chegar à universidade, o aluno vê sua condição econômica permanecer a mesma: “A educação não muda o cenário socioeconômico de falta de oportunidades de inserção no mercado e de atuação profissional.”




Em Colômbia, cidade próxima a Barretos, no interior de São Paulo, a Escola Estadual Dona Alice Fontoura de Araújo passou pela experiência de promover um ciclo de palestras de orientação profissional, mas esbarrou na realidade socioeconômica local. Apesar de os alunos terem gostado das novidades que ouviram, isso não alterou a perspectiva futura da maioria.




“Tocávamos no assunto do vestibular na sala de aula, mas a única verdade próxima deles é a agricultura. Eles não têm dinheiro para faculdade e nem pensam em passar nas públicas”, diz Silvana de Freitas, professora de história e geografia, uma das idealizadoras do projeto.




A também professora de história Rita de Cássia da Silva diz que o projeto surgiu da observação do dia-a-dia dos ex-alunos da escola. “Eu via os meninos andando de cima para baixo na avenida principal da cidade, sem fazer nada, e pensei em abrir a cabeça deles para outras perspectivas que não apenas o trabalho na lavoura de cana e alguns bicos”, lembra Rita.




O projeto criado para os terceiros colegiais previa as palestras de três profissionais voluntários para falar sobre o mercado de trabalho, recursos humanos e trabalho psicológico. Também conseguiram levar uma profissional do Sebrae-Barretos para ministrar o curso “Aprender a Empreender”. O resultado, Rita avalia. “Faculdade para eles é um sonho difícil de alcançar. Percebemos que a questão econômica e a localidade não permitem que muitos deles mudem suas vidas.”




Orientação

sistematizada






No colégio, o jovem Bruno Fritzen teve contato com palestras sobre orientação profissional e até com uma feira de profissões, que oferecia algumas dezenas de cursos sobre os quais poderia se informar. Ele dispensou essa orientação porque já sabia o que queria da vida. Tinha convicção de que seria engenheiro. “Não conversei com ninguém sobre isso, estava seguro da escolha e tinha o apoio dos meus pais “, diz. Prestou vestibular no final do terceiro ano e passou em primeiro lugar geral de uma universidade pública. Três semestres depois, estava descontente com a engenharia e decidiu migrar para medicina. “Conversei com o coordenador de medicina e fui conhecer o hospital universitário. Era aquilo que eu queria”, conta Bruno, hoje no terceiro ano de medicina.




As feiras de profissões estão entre as atividades comumente organizadas pelos colégios para orientar o aluno do ensino médio. Nelas, os jovens têm a oportunidade de circular entre estandes que trazem, cada qual, uma profissão diferente, muitas vezes com profissionais da área fazendo explanações. No entanto, para que esse tipo de atividade funcione, os alunos devem adotar uma postura proativa, se dirigir a vários estandes, perguntar bastante e pôr à prova as próprias impressões sobre as carreiras.




Para que essa postura seja estimulada e os alunos façam uma escolha mais consciente, algumas escolas têm projetos que incluem diferentes formas de abordar o aluno e ajudá-lo a decidir. No Colégio São Luís, em São Paulo, a feira das carreiras é chamada de Fórum de Profissões. Uma estratégia adotada para despertar ainda mais o interesse dos alunos em ouvir as informações sobre as carreiras é trazer para o colégio ex-alunos, já colocados no mercado de trabalho, para um bate-papo. “Nesse contato, já se começa a criar um vínculo do aluno com o profissional e, muitas vezes, o estudante vai conhecer o local de trabalho e a prática profissional desse ex-aluno, que o ampara”, diz Laércio da Costa Carrer, coordenador dos terceiros anos do colégio.




A instituição também se dedica a criar outros momentos, desde as séries iniciais, para que o aluno comece a exercitar a capacidade de escolha e de definir um projeto de vida. Carrer completa: “Acompanhamos os dramas e os sonhos deles a cada ano. Nessa trajetória, cada um deve encontrar um sentido para a vida. Tratamos a carreira como uma ferramenta dentro desse projeto maior.”



Outros projetos





Orientação profissional como disciplina curricular. Essa proposta está em vigor no colégio Magnum Agostiniano, de Belo Horizonte. A partir do primeiro ano do ensino médio, a cada 15 dias os alunos têm uma aula sobre o tema. Além de autoconhecimento e informações sobre as carreiras, a professora fala de temas como o desemprego no país, o que o trabalho representa na sociedade ocidental, empreendedorismo, trabalho em equipe e liderança.




Quando o aluno se mostra interessado por alguma área, a professora da disciplina os incentiva a falar com profissionais do mercado. “Pego minha lista de contatos, dou o número de telefone na mão do aluno, oriento a maneira como deve abordar o profissional e depois aguardo que ele me conte o que descobriu”, diz Carla Couto, professora de orientação profissional do colégio.




Também na capital mineira, a escola bilíngüe Fundação Torino, cujo currículo trabalha dentro das exigências legais brasileira e italiana, convida o aluno a fazer escolhas antes mesmo de entrar no ensino médio.




Na oitava série, os alunos passam por orientação com psicólogo, para encontrar alguns interesses, e lhes são apresentadas as três opções de ensino médio: liceu científico (com aulas de latim, história da arte e desenho artístico), gerencial administração (com economia política e economia empresarial) e gerencial turismo (com direito e economia do turismo). “Nada impede que esses alunos escolham qualquer área profissional depois do ensino médio. Com a vantagem de que aqui ele já experimenta o contato com novos conteúdos e, desde cedo, exercita o poder da escolha, que é só uma das muitas que fará na vida”, diz Mariana Bouritis, diretora da Fundação Torino no Brasil.



As universidades





Já é uma tradição, em algumas universidades públicas, abrir as portas da instituição para a visitação de alunos de cursinhos e do ensino médio, assim como para os professores dessas escolas. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) promoveu este ano a terceira edição do Conhecendo a UFRJ. Este ano, foram necessários dois dias de atividades para atender os quase 10 mil inscritos, interessados em participar. Um dos objetivos do encontro é permitir o acesso dos estudantes da escola pública à universidade, para os quais são reservadas cerca de 50% das vagas.




Na UFRJ, os docentes visitantes chegaram a manifestar interesse em que houvesse um evento como este dedicado exclusivamente a apresentar a universidade para o professor de ensino médio. “Há muitos cursos novos e muito conhecimento sendo produzido. Eles nos disseram que seria bom que a universidade os ajudasse a entrar em contato com esse universo”, diz Eliane Frenkel, diretora de eventos da pró-reitoria de extensão da UFRJ. Em 2007, a universidade pretende lançar um encontro somente para o professor.




Na Unicamp, esse momento dos professores e diretores já existe. É o encontro que precede o início do Unicamp de Portas Abertas (UPA), que todo ano recebe cerca de 60 mil alunos, de diferentes estados brasileiros. Acontece uma palestra só para o professor, para que seja orientado e tire dúvidas. “Ainda sentimos um pouco de falta de interesse deles, porque eles são o ponto crítico do encontro com o aluno do ensino médio e nós só recebemos cerca de 150 professores”, diz Sigisfredo Brenelli, professor da Unicamp e um dos organizadores da UPA.


A UPA é o maior evento desse tipo entre as universidades públicas paulistas. Em um único dia, o campus recebe 700 ônibus de visitantes. “Isso mostra que os jovens estão sedentos por informação. Cabe a nós e aos professores orientá-los mais e mais”, avalia Brenelli.


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